Curva de juros: o que é e o que ela sinaliza para os seus investimentos?
Thiago Koguchi
O que é a curva de juros e como ela funciona no mercado financeiro?
A curva de juros, também chamada de curva a termo ou yield curve, mostra a relação entre as taxas de juros e seus diferentes prazos.
Em um gráfico, o eixo horizontal representa os vencimentos — três meses, um ano, dois anos, cinco anos e assim por diante — enquanto o eixo vertical mostra as respectivas taxas. Ao conectar esses pontos, forma-se a curva.

No Brasil, uma das principais referências para acompanhar as expectativas de juros são os contratos futuros de DI negociados na B3. O DI Futuro é um contrato cuja taxa está associada à acumulação da Taxa DI até determinada data de vencimento. A B3 informa que esses contratos são cotados como taxa efetiva anual em uma base de 252 dias úteis.
Isso não significa, porém, que um contrato de DI para determinado ano seja uma previsão de que a Selic estará exatamente naquele patamar naquela data.
A taxa incorpora a média esperada dos juros ao longo do período, além de diferentes prêmios de risco. Quanto mais distante estiver o vencimento, maior tende a ser a influência de fatores como inflação esperada, incerteza fiscal e riscos econômicos.
Por isso, enquanto a parte curta da curva costuma responder mais diretamente às expectativas para as próximas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), os vencimentos longos podem reagir com mais intensidade a mudanças na percepção de risco do país.
O que significa curva de juros fechar?
Quando você lê que houve "fechamento da curva de juros", significa que as taxas negociadas no mercado futuro caíram. Se ocorre o contrário e as taxas aumentam, diz-se que a curva "abriu".
Imagine que o DI para determinado vencimento passe de 13% ao ano para 12,70%. Nesse caso, houve um fechamento de 0,30 ponto percentual, ou 30 pontos-base.
O movimento pode ocorrer por diferentes motivos. Uma inflação abaixo do esperado, por exemplo, pode aumentar a expectativa de cortes da Selic e pressionar principalmente os juros curtos para baixo. Uma melhora na percepção sobre as contas públicas pode reduzir o prêmio de risco cobrado nos vencimentos mais longos.
Já inflação mais forte, deterioração fiscal, alta do dólar ou aumento dos juros no exterior podem provocar o efeito contrário.
A diferença é importante para os investimentos porque preço e taxa de um título de renda fixa normalmente se movem em direções opostas. Quando a curva fecha, títulos prefixados já emitidos tendem a se valorizar pela marcação a mercado; quando ela abre, esses mesmos papéis podem perder valor antes do vencimento.
Quais são os tipos de curva de juros?
O desenho da curva também traz informações sobre como o mercado está enxergando o futuro da economia.
Curva normal ou ascendente

É aquela em que os juros de longo prazo são maiores do que os de curto prazo.
Em condições normais, investidores costumam exigir uma remuneração maior para deixar o dinheiro aplicado por períodos mais longos, justamente porque aumenta a incerteza sobre inflação, política econômica e outros fatores.
Assim, uma curva ascendente pode combinar expectativas de crescimento econômico com a existência de prêmios maiores nos vencimentos distantes.
Curva invertida ou descendente

Na curva invertida, as taxas de curto prazo são maiores do que as taxas longas.
Isso pode acontecer, por exemplo, quando o Banco Central mantém os juros elevados para combater a inflação, enquanto o mercado acredita que esse aperto acabará desacelerando a economia e permitirá cortes de juros no futuro.
Nos Estados Unidos, a inversão da curva é acompanhada de perto por sua associação histórica com períodos de recessão. A PIMCO observa que esse formato apareceu historicamente antes de várias contrações econômicas. Isso, porém, não significa que uma inversão seja garantia de recessão nem que a mesma interpretação possa ser aplicada mecanicamente ao Brasil.
Curva plana

Quando as taxas de curto e longo prazo ficam muito próximas, a curva pode assumir um formato praticamente plano.
Esse cenário costuma aparecer em períodos de transição, quando há menos diferença entre o prêmio exigido nos diversos prazos ou quando o mercado ainda não tem convicção sobre a direção futura da política monetária.
Curva com "corcova"

Há ainda situações em que os juros intermediários ficam acima tanto dos vencimentos mais curtos quanto dos mais longos, criando uma espécie de corcova no gráfico.
Esse comportamento pode mostrar que o mercado enxerga um risco ou aperto monetário concentrado em determinado período, seguido por uma normalização das condições econômicas mais adiante.
Qual é a diferença entre a curva spot e a curva forward de juros?
Embora estejam relacionadas, taxa spot e taxa forward não representam exatamente a mesma coisa.
A taxa spot, ou taxa à vista, mede o retorno de uma aplicação iniciada hoje e mantida até determinado vencimento. Uma taxa spot de dois anos, por exemplo, refere-se ao período completo entre o presente e daqui a dois anos.
Já uma taxa forward é uma taxa futura implícita entre dois pontos no tempo.
Imagine que seja possível observar as taxas negociadas hoje para um investimento de um ano e para outro de dois anos. A partir delas, é possível extrair qual taxa o mercado está implicitamente cobrando apenas para o intervalo entre o primeiro e o segundo ano.
É essa taxa implícita que aparece na curva forward.
O próprio Banco Central utiliza essa distinção ao tratar a taxa à vista como aquela válida entre o presente e determinado prazo e derivar dela a taxa a termo, ou forward, correspondente a um período futuro.
Na prática, a curva spot ajuda a visualizar quanto o mercado exige para aplicar hoje até diferentes vencimentos. A forward permite investigar com mais detalhe quais taxas estão embutidas especificamente em períodos futuros.
Novamente, nenhuma delas deve ser interpretada como uma previsão infalível. A curva muda constantemente à medida que novas informações entram nos preços.
Qual é a curva atual da taxa de juros no Brasil?
Aqui vale ressaltar que os dados estão sempre mudando e dependem das condições do mercado. Portanto fique sempre atento à data de referência das informações.
No fechamento de 5 de outubro de 2026, a curva brasileira sofreu uma das maiores reprecificações recentes diante do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais.
O DI para janeiro de 2027 terminou o pregão em 13,413% ao ano. Para janeiro de 2028, a taxa estava ao redor de 12,665%; o DI de janeiro de 2029 fechou em 12,650% e o de janeiro de 2031, em 12,700%.
Nesse momento, portanto, a curva apresentava taxas menores no médio prazo do que na ponta curta, refletindo a expectativa de redução da taxa básica de juros nos próximos períodos.
A Selic estava em 13,75% ao ano, após o Copom realizar cortes de 0,25 ponto percentual em agosto e setembro. O Banco Central destacou, porém, que a condução da política monetária ainda exigia cautela diante das expectativas desancoradas de inflação e dos riscos existentes no cenário.
Ao mesmo tempo, o Focus divulgado no início de outubro apontava expectativa de inflação de 5,01% em 2026, acima do teto de 4,5% da meta, enquanto a mediana das projeções indicava Selic de 13,5% no fim de 2026 e 12% em 2027.
Com as expectativas de inflação ainda acima do teto da meta, investimentos que combinam correção pelo IPCA com uma taxa fixa podem ganhar espaço entre quem busca preservar o poder de compra. Entre as opções disponíveis, há CDBs de bancos médios com retorno de IPCA + 9,5% ao ano e prazo de dois anos, com aplicação mínima de R$ 1.000.
A forte queda dos juros futuros no início de outubro esteve associada principalmente à redução dos prêmios de risco fiscal percebidos pelo mercado após o primeiro turno das eleições. O episódio também serve para mostrar por que a curva não deve ser tratada como uma previsão estática: expectativas podem mudar rapidamente conforme surgem novas informações econômicas e políticas.
Como as oscilações da curva de juros impactam a Renda Fixa, Ações e FIIs?
O impacto mais direto aparece na renda fixa.
Quando os juros de mercado sobem, novos títulos passam a oferecer taxas mais altas. Consequentemente, um título prefixado emitido anteriormente com uma taxa menor torna-se relativamente menos atrativo e seu preço de mercado cai.
Quando os juros recuam, ocorre o contrário. Um papel que já oferece uma remuneração elevada fica mais valioso em relação às novas emissões.
Esse mecanismo é a chamada marcação a mercado.
Quanto maior o prazo e a duration do papel, maior tende a ser sua sensibilidade às mudanças de juros. A PIMCO destaca que títulos de duration mais longa historicamente apresentam maior variação de preço diante de mudanças nas taxas.
Nas ações, o efeito é menos direto, mas também relevante. Uma taxa de juros mais alta aumenta o custo de financiamento das empresas e também a taxa utilizada pelo mercado para trazer lucros futuros ao valor presente. Isso tende a pressionar especialmente companhias com dívidas elevadas ou cujo valor depende mais de resultados esperados para muitos anos à frente.
Juros mais baixos fazem o caminho inverso e também podem tornar a renda variável relativamente mais atraente frente à renda fixa.
Nos fundos imobiliários, a curva influencia tanto a avaliação das cotas quanto as operações dos próprios fundos. FIIs de papel podem ser afetados pelos indexadores de seus ativos de crédito, enquanto fundos de imóveis físicos sentem os efeitos do custo de capital, da atividade econômica e da comparação entre seus rendimentos e as taxas oferecidas pelos títulos públicos.
Não existe, portanto, uma regra segundo a qual uma simples queda de juros será igualmente positiva para todos os ativos. Prazo, indexador, endividamento e nível de risco fazem diferença.
Como consultar a curva de juros em tempo real para tomar decisões?
Não existe uma única "curva de juros oficial" que concentre todas as possíveis leituras. O investidor pode acompanhar referências diferentes dependendo do objetivo da análise.
- ANBIMA: publica curvas soberanas prefixadas e de IPCA, tanto de fechamento quanto intradiárias. A entidade informa que suas curvas zero-cupom são construídas a partir de informações do mercado de títulos públicos.
- B3 e plataformas de mercado: os contratos de DI Futuro negociados na bolsa permitem acompanhar diferentes vencimentos durante o pregão. Plataformas como a Nelogica organizam esses contratos em gráficos e grades para visualizar o comportamento da curva.
- Sites de informações financeiras: serviços como o Investing.com disponibilizam taxas de títulos brasileiros e visualizações da curva. É importante observar a data e a origem de cada cotação, já que algumas informações podem ser indicativas ou ter diferentes horários de atualização.
Como proteger e posicionar sua carteira de acordo com os movimentos da curva de juros?
A curva pode ajudar na tomada de decisão, mas ela não deve ser utilizada isoladamente para decidir onde investir.
Em um cenário de juros elevados e grande incerteza sobre o futuro, ativos pós-fixados podem oferecer menor exposição à volatilidade provocada pela marcação a mercado. Isso não significa, porém, que sejam necessariamente a melhor alternativa para todos os investidores.
Títulos prefixados ou indexados à inflação podem oferecer taxas interessantes em determinados momentos, mas quanto maior o prazo, maior costuma ser a oscilação antes do vencimento caso a curva mude.
Para quem pretende vender o título antecipadamente, essa sensibilidade merece atenção. Para quem consegue levá-lo até o vencimento, o efeito da marcação a mercado tem outra importância, desde que não exista problema de crédito do emissor.
Em CDBs, além da taxa oferecida, também é importante observar o emissor e as características do investimento. O Daycoval, com rating AA+(bra) na Fitch, AA+.br na Moody’s e brAA+ na S&P, além de mais de 55 anos de mercado, oferece CDBs atrelados ao IPCA com prazos de dois e três anos, uma alternativa para quem consegue manter o papel até o vencimento e busca uma rentabilidade acima da inflação.
Também é possível reduzir riscos combinando prazos, indexadores e classes diferentes de ativos, em vez de tentar acertar exatamente qual será a próxima movimentação dos juros.
O ponto central é compatibilizar a exposição à curva com fatores como prazo do investimento, necessidade de liquidez, objetivo financeiro e tolerância a oscilações.
Curva de juros ajuda a entender o mercado, mas não prevê o futuro
A curva de juros reúne, em um único gráfico, boa parte das expectativas dos investidores sobre inflação, política monetária, economia e risco.
É por isso que uma mudança aparentemente pequena nas taxas futuras pode ter consequências para títulos públicos, crédito privado, ações, FIIs e até decisões de financiamento de empresas e consumidores. Bancos, por exemplo, também utilizam as taxas futuras como referência para avaliar o custo do dinheiro e formar condições de crédito.
Mas a principal característica da curva é justamente sua capacidade de mudar. Ela representa os preços e expectativas disponíveis naquele momento, não uma certeza sobre onde estarão a Selic, a inflação ou a economia meses ou anos depois.
Para o investidor, portanto, o mais útil é acompanhá-la em conjunto com as decisões do Banco Central, dados de inflação, situação fiscal e outros indicadores — e usar essas informações para entender melhor os riscos envolvidos em cada investimento, em vez de tentar transformar a curva em uma previsão exata do futuro.
Se a ideia é buscar um retorno acima da inflação e manter o investimento até o vencimento, uma alternativa é contratar hoje uma remuneração formada pelo IPCA mais uma taxa fixa. No Daycoval, é possível simular quanto renderia um CDB de dois anos que paga IPCA + 9,5% ao ano e comparar o resultado com outras opções da carteira.


