jul, 2026 Colunistas

O que o morango do amor tem a ver com o Bitcoin?

Thales Inada Thales Inada

De um dia para o outro, tinha morango do amor em toda esquina. Tudo começou com um simples vídeo no TikTok, de um morango, coberto de brigadeiro branco, com casca crocante de maçã do amor.

Uma receita simples, que viralizou e, em poucas semanas, o Brasil inteiro decidiu que aquela era a oportunidade da vida. Todas barraquinhas de rua, no grupo do condomínio, doceria chique… Todo Brasil montou uma operação especial para produzir o doce. O ápice da moda, foi a caixa de oito morangos que chegou a ser vendida por mais de R$ 2 mil.

Só que aconteceu o previsível: oferta demais e logo o preço despencou. Tão rápido quanto surgiu, sumiu.

Me veio à memória também, o que aconteceu com as paletas mexicanas e o fiasco do patinete elétrico em muitos lugares. Sempre a mesma dança das cadeiras: vem a novidade, gera emoção do público, provoca a entrada em massa, colapsa o mercado e logo cai no esquecimento.

É exatamente isso que acontece no mercado cripto a cada ciclo. Surgem diversas novas narrativas e ideias disruptivas, mas nesse caso, em escala global, de bilhões de dólares.

NFTs: o hype que virou pó

Começando com uma das narrativas mais chocantes: os Non-Fungible Tokens (NFT). Uma das maiores plataformas de negociação da época, o OpenSea, chegou a negociar $3 bilhões em um único mês, no pico da narrativa.

Uma das coleções mais famosas, os Bored Apes, movimentaram mais de $5 bilhões durante toda sua história. Famosos como Justin Bieber, Neymar, Eminem, Madonna, Stephen Curry e Lady Gaga pagaram centenas de milhares de dólares por simples imagens de macacos.

Fonte: Opensea

O que sobrou? O preço médio dos Bored Apes, caiu 95% desde então. Hoje os mais baratos, ainda valem algo perto de US$ 20 mil, mas possuem uma liquidez extremamente baixa, difícil de vender. Coleções pioneiras como essa e os CryptoPunks até conseguem reter algum valor, justamente por serem as primeiras, mas todas as outras milhares de coleções que surgiram no meio do caminho, praticamente viraram pó.

Ainda assim, acredito que no futuro os NFTs devem encontrar uma utilidade real, como verificação de autenticidade de ingressos, títulos de clubes, identidade digital, carteira de motorista, ou até mesmo passaportes. Mas o hype que vimos, puramente especulativo, baseado simplesmente em arte e comunidade, passou e nem deu sinal de recuperação na última temporada de alta que durou até o final de 2025.

Metaverso: terrenos virtuais

Em 2021, eu comprava e vendia terrenos virtuais em dois projetos cripto, o Sandbox e Decentraland. Até que Mark Zuckerberg trocou o nome do Facebook para Meta e prometeu investir bilhões em realidade virtual. Esse movimento popularizou o metaverso e o token SAND multiplicou por 15 em poucas semanas. E assim como aconteceu nos NFTs, Snoop Dogg, Paris Hilton, Will Smith, Adidas, grandes nomes adquiriram seu terreno virtual, e todo mundo queria ser vizinho de alguém famoso.

O problema é que a escassez de terras de cada projeto, era ilusória. Pois apesar de possuírem um limite de terrenos individualmente, conforme novos projetos surgiam, mais e mais terrenos eram criados, ou seja, a escassez só existia na fase inicial da narrativa.

Quando o mercado se deu conta, os ativos relacionados ao metaverso começaram a cair e hoje estão 99% abaixo das suas máximas históricas. Em março deste ano, a própria Meta encerrou silenciosamente sua área de desenvolvimento de realidade virtual, a Horizon Worlds.

Vale destacar uma característica interessante: no metaverso, não havia a “promessa de retorno”. As pessoas compravam terrenos virtuais para construir por diversão e engajamento da comunidade. Muito diferente da oferta explícita de lucro que existia no GameFi que vamos ver a seguir.

GameFi: uma bela história com final trágico

O Axie Infinity foi, sem dúvida, o maior case de sucesso do setor, com uma história genuinamente bonita. No seu auge, 40% da sua base de usuários era das Filipinas, e os melhores jogadores chegavam a ganhar mais de R$ 5 mil por mês. Essa passou a ser a única fonte de renda de famílias inteiras durante a pandemia. O jogo teve 2,7 milhões de usuários ativos diários e chegou a gerar US$ 342 milhões de receita para seus criadores em um único mês.

Fonte: Axie Infinity

Mas o modelo tinha uma falha: dependia de jogadores comprando novos NFTs e reinvestindo boa parte dos lucros constantemente para se manterem competitivos, isso sustentava artificialmente o valor dos tokens. Era, de fato, bem parecido com uma pirâmide financeira, mas a diferença, é que quem só jogava por diversão, saía no prejuízo, enquanto os melhores lucravam de verdade.

Essa dinâmica, de recompensar só os jogadores mais profissionais, dava esperança para quem queria viver do jogo e foi capaz de sustentar a operação por anos. Mas quando o token começou a cair, não parou mais. Os lucros diminuíram, ninguém mais queria reinvestir, e o projeto implodiu.

O projeto chegou ao fundo do poço quando sofreu o maior hack da história do mercado cripto, com uma perda de US$ 625 milhões. Diversos outros jogos surgiram depois, tentando repetir a fórmula, mas até hoje, nenhum conseguiu ser sustentável no longo prazo.

Airdrops e Memecoins: as maiores frustrações

A ideia dos airdrops era interessante: incentivar o uso de plataformas novas, distribuindo tokens gratuitamente para os primeiros usuários, como uma forma de recompensa por testarem o produto.

Só que quando esse modelo de marketing viralizou, principalmente depois de alguns cases bastante rentáveis, surgiram os chamados “Airdrop Hunters”. Esses investidores ficavam o dia todo operando nesses novos projetos e logo ficou cheio de robôs administrando centenas de carteiras simultaneamente, 24 horas por dia, para capturar o máximo de recompensas possível. No final das contas, os usuários comuns, que se esforçaram como conseguiam, ficavam só com algumas as migalhas.

Já as memecoins explodiram com o projeto Pump.fun na rede da Solana. A plataforma permitia criar um token temático por menos de $5 em poucos minutos. Em poucos dias, milhões de tokens foram lançados, praticamente todos seguindo o padrão pump-and-dump: inflam o preço rapidamente e depois vão a zero.

O ápice desse absurdo foi a criação da moeda TRUMP, dias antes da posse presidencial em janeiro de 2025. A moeda atingiu $10 bilhões de capitalização em poucas horas. Dois dias depois, veio a moeda da sua esposa, Melania. As duas juntas drenaram toda a liquidez restante do setor de memecoins e a partir daí, a narrativa colapsou, deixando mais de 99% dos investidores no prejuízo.

DeFi: o início da consolidação

Diferente das narrativas de hype, as Finanças Descentralizadas (DeFi) não nasceram de uma euforia, elas foram construídas em silêncio durante o bear market de 2018-2019. Foi quando projetos como a MakerDAO, Uniswap e Aave, começaram a se consolidar.

O valor investido no setor atingiu o pico máximo de mais de $175 bilhões em 2021, caiu com o bear market de 2022, mas voltou a crescer em outubro de 2025, de forma mais consistente do que no ciclo anterior.

Fonte: DeFiLlama

Ainda assim, é nítido que o DeFi segue o ciclo do BTC, com seus momentos de forte alta e baixa. A diferença em relação aos temas anteriores, é que, o setor conseguiu se recuperar, o que indica que a narrativa sobreviveu por mais um ciclo.

Isso porque, esses projetos conseguem entregar um diferencial que o sistema financeiro tradicional não replica. A Aave processa empréstimos 24 horas por dia, 365 dias por ano, sem burocracia. A Uniswap permite trocar ativos direto da própria carteira, e ainda possibilita obter rendimento ao prover liquidez.

Dezenas de projetos já tentaram superá-los e não conseguiram. Só de terem sobrevivido a essa pressão dos concorrentes, já reforça que são cases de sucesso. Inclusive acredito que as exchanges descentralizadas (DEX) como a Uniswap se tornem o modelo do futuro.

RWA: a narrativa que cresce no bear market

Enquanto NFTs derretiam, memecoins iam a zero, o metaverso queimava bilhões de investimentos e o GameFi era uma espécie de pirâmide financeira, existe uma categoria relativamente nova passou a ganhar credibilidade de fato: os RWAs (Real World Assets — ativos do mundo real)

Enquanto tudo que o mercado cripto tentou antes foi um castelo de cartas, os RWAs pegam ativos consolidados do mundo real, que já têm valor, que as pessoas já conhecem, e coloca dentro da blockchain. Ou seja, é uma aplicação da tecnologia para melhorar o que já funciona.

As stablecoins também podem ser consideradas RWA, pois são moedas fiduciárias que lastreiam um ativo digital (token). Hoje elas já representam 90% de todo o setor, com mais de $300 bilhões em capitalização.

Fonte: Ark Invest

Em julho de 2025, a lei GENIUS Act foi sancionada nos Estados Unidos e estabeleceu o primeiro marco regulatório focado nas stablecoins e possibilitou que os bancos tradicionais operem com elas sem risco jurídico.

Fora as stablecoins, o mercado de RWA cresceu cinco vezes desde 2025, com capitalização total passando de $32 bilhões. Os títulos do Tesouro americano tokenizados já somam mais de $15 bilhões.

Quem está liderando essa migração é a BlackRock. O fundo BUIDL é o maior produto de Tesouro tokenizado do mundo. Quando a maior gestora do mundo faz esse movimento, mostra para o mercado que isso não é mais somente uma mera especulação de varejo: é a infraestrutura cripto ganhando credibilidade.

Fonte: Ark Invest

Isso não significa retorno imediato. A aplicação está apenas começando. Mas há sinais concretos de mudança: a Nasdaq já anunciou que deve lançar ações tokenizadas no início do ano que vem. A SEC aprovou o modelo de negociação em março, e seu presidente declarou esperar que todo o mercado americano esteja on-chain nos próximos anos. No Brasil, a B3 já está seguindo pelo mesmo caminho.

As stablecoins já pegaram, agora o próximo passo é a digitalização de ativos financeiros tradicionais, e só depois de tudo isso, o DeFi deve decolar de vez.

A moral da história

Hoje existem quase 50 milhões de criptoativos no mundo. A imensa maioria são memecoins criadas em minutos, sem fundamento algum. Eu diria que menos de 50 projetos sobreviverão no longo prazo.

Isso acontece porque, conforme vimos, o mercado cripto é movido por narrativas. A cada ciclo, uma nova história surge, atrai capital do mundo inteiro, explode de euforia, e depois desaparece.

Em 2017, foram os ICOs e meios de pagamento. Em 2021, NFTs, Metaverso e GameFi. Em 2025, memecoins e airdrops.

Esse padrão explica por que toda grande revolução tecnológica passa por três fases: euforia, destruição e consolidação. Foi assim na bolha ponto-com, que consolidou os sobreviventes, como a Amazon, Google e Meta, que passaram no teste do tempo. O mesmo ciclo se repete no mercado cripto e por isso, já podemos dizer que algumas aplicações estão se consolidando.

O que diferencia um projeto que sobrevive de um que some? Tokenomics saudável, utilidade, segurança e atividade de usuários consistente. Nada disso se prova em semanas, nem mesmo em um ciclo de quatro anos.

O mercado cripto está testando de tudo, e por enquanto, a grande maioria falhou. Isso eliminou o que não fazia sentido: NFTs, metaverso, GameFi, airdrops, memecoins entre outros. O que sobrou de verdade foi o DeFi, que enfrenta os altos e baixos de cada ciclo, e o RWA, praticamente já consolidado com as stablecoins e segue crescendo tokenizando os demais ativos tradicionais e  fazendo uma ponte entre o sistema financeiro tradicional e o mundo digital.

A cada quatro anos, novas narrativas vão surgir, hypar e morrer. Mas talvez, no próximo ciclo seja diferente, com projetos consolidados funcionando como “blue chips cripto”, com uma infraestrutura sólida, que passaram no teste do tempo, bem diferente do que investir em hype.

Quem identificar essa consolidação antes dessas narrativas virarem mainstream, vai estar do lado certo da história.

*Este conteúdo foi produzido de forma independente por seu autor e publicado sem qualquer alteração pelo site.

Thales Inada
Especialista em criptoativos e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro de formação, com MBA em investimentos e Asset Allocation, iniciou no mercado de criptoativos em 2017, com passagem por importantes exchanges como Binance, Mercado Bitcoin e XDEX.