Charles Darwin observou, no século XIX, que a natureza não é benevolente com os mal adaptados. A premissa básica de sua teoria era de que a evolução se dá por seleção natural.
Espécies que não evoluem diante de novas condições ambientais simplesmente desaparecem, cedendo espaço para aquelas capazes de se “adaptar”.
Ocorre que a tal “teoria de Darwin” está sendo aplicada na indústria de fundos brasileira e as “espécies” aqui, são os gestores de fundos.
O ambiente mudou de forma drástica, o CDI permanece elevado, o investidor ficou mais exigente e a concorrência com outros produtos do mercado nunca foi tão intensa.
E, na minha visão, como na natureza, só os mais adaptados vão sobreviver.
Os números contam essa história com uma brutalidade que dispensa comentários.
Fundos multimercados, por exemplo, acumulam R$ 672 bilhões em resgates líquidos dos aportes de 2022 até hoje, segundo a Anbima. No ciclo anterior, com a Selic abaixo de dois dígitos entre 2017 e 2021 e mínima de 2% na pandemia, esses mesmos fundos haviam captado R$ 371,9 bilhões.

Fonte: Anbima | Elaboração: Finclass | * Até 31/7/26
O segmento encolheu de forma acelerada, e com ele estão indo embora as gestoras mais “frágeis” para lidar com um novo cenário.
Um dos eventos mais recentes e emblemáticos foi o da Gávea Investimentos, de Armínio Fraga, que encerrou a gestão dos seus fundos multimercados depois de 23 anos.
É nesse ambiente darwiniano que surge um movimento que pode representar a maior virada estrutural da indústria em décadas.
A XP tomou uma decisão que poucos esperavam: reduziu a taxa de administração do seu fundo macro e elevou a de performance, adotando o modelo de 1% de administração com 30% de performance.
O XP Strategy cobra agora 1% ao ano de taxa fixa e 30% sobre o que exceder o CDI, contrastando com o modelo tradicional de 2% e 20%.
A mudança segue um movimento global iniciado nos Estados Unidos no pós-crise de 2008. A premissa central é o verdadeiro skin in the game, em que a taxa de administração reduzida passa a cobrir apenas os custos operacionais e a estrutura básica da gestora.
A lógica por trás dessa mudança pode ser considerada evolutiva. No modelo antigo, o gestor recebia 2% ao ano sobre o patrimônio gerido independentemente do resultado, o que criava um ambiente mais permissivo para erros, uma vez que sua estrutura muitas vezes poderia continuar sendo bem remunerada mesmo passando por momentos ruins de performance.
No novo modelo, a sobrevivência da gestora depende mais diretamente da sua capacidade de gerar alfa, ou seja, retorno acima do referencial. Se não entregar resultado acima do CDI, não cobra performance.
Na minha visão, quando casas importantes iniciam um movimento desse, ele geralmente acaba sendo seguido por outras, o que já comecei a observar.
A pressão competitiva vem de todas as direções. Os ETFs de baixo custo crescem, os produtos isentos de renda fixa como LCI e LCA criam assimetrias tributárias e até mesmo o crescimento das Bets pode estar prejudicando a indústria de fundos.
A realidade em 2026, depois de anos de Selic alta, é que a maioria dos fundos vem entregando abaixo ou perto do CDI, mas cobra 2% de taxa de administração mais 20% de performance, consumindo o que poderia ser ganho.
Num ambiente assim, o modelo antigo parece injusto com o cotista e insustentável para a própria indústria.
Mas como encontrar os gestores que sobreviverão e entregarão resultados?
A resposta, invariavelmente, passa por processo rigoroso, equipe estável, disciplina de risco e alinhamento de incentivos com o cotista.
São exatamente essas as características que um modelo de taxas mais justo tende a selecionar e premiar. Quem tiver processo sólido não teme cobrar menos na taxa fixa, sabe que tem grandes chances de gerar performance para compensar e está ciente de que precisa se precaver institucionalmente para períodos mais desafiadores.
Dito isso, o modelo 1/30 não está isento de críticas, e é importante reconhecê-las. A principal delas é que 30% de taxa de performance é um número bastante elevado.
Em períodos específicos, o gestor pode se beneficiar de uma maré favorável e o cotista pode acabar pagando mais caro do que o próprio modelo 2/20, a depender dessa “geração de alfa”.
O modelo ideal, portanto, não é simplesmente trocar 20% por 30% na performance, mas combinar essa mudança com janelas de apuração mais longas, algum ajuste nessas proporções de taxas e maior transparência sobre o que de fato é alfa gerado pelo gestor.
Uma indústria menor, mais concentrada nos gestores realmente competentes, com taxas mais alinhadas ao desempenho e com menor tolerância ao medíocre é, no fim, uma indústria mais saudável para todos.
E é esse o destino para onde a evolução está nos levando, ainda que o caminho seja longo e não linear.

Elaboração: Finclass | Representação ilustrativa
Assim como na natureza, a seleção não acontece de um dia para o outro, mas os sinais já estão dados. Caberá ao investidor atento identificar quais gestores estão de fato evoluindo e quais apenas sobrevivendo até o seu encerramento.
Um grande abraço e bons investimentos!
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