jul, 2026 Ativos internacionais

O mito de Ouroboros: quando o dinheiro anda em círculos

Felipe Arrais

Na mitologia antiga existe um símbolo chamado ouroboros, uma serpente que morde o próprio rabo e forma um círculo perfeito. Alquimistas e filósofos o usavam para representar ciclos que se retroalimentam, coisas que se sustentam consumindo a si mesmas. Confesso que nunca imaginei usar uma figura mitológica para explicar o balanço das maiores empresas do planeta, mas o mercado sempre dá um jeito de me surpreender.

Mito de Ouroboros. Fonte: Odin Treasures

O termo tem circulado entre analistas para descrever a maneira como o boom da inteligência artificial vem sendo financiado. Hoje quero te explicar por que essa serpente anda tirando o sono de tanta gente e o que você, investidor ou investidora, deve fazer a respeito.

Vamos começar pelos números referentes a empresas que você certamente conhece. As cinco gigantes que lideram essa corrida (Amazon, Microsoft, Alphabet, Meta e Oracle) devem investir algo na casa dos US$ 600 bilhões a US$ 700 bilhões em 2026 na construção de data centers, na compra de chips e em tudo o que envolve a infraestrutura de inteligência artificial, uma alta próxima de 60% sobre o que já havia sido um recorde em 2025. Esse tipo de gasto é o que o mercado chama de capex (abreviação de capital expenditure, o investimento em ativos físicos), e ele vem sendo revisado para cima a cada novo resultado trimestral, quando as empresas atualizam suas projeções.

Para você ter uma dimensão, algumas dessas companhias já direcionam quase metade de tudo o que faturam para capex. É um padrão de intensidade de capital que lembra empresas de energia ou concessionárias de infraestrutura, não empresas de tecnologia, que historicamente encantaram os investidores justamente por crescer gastando pouco.

Até aí, poderíamos estar diante apenas de uma aposta ousada em uma tecnologia revolucionária. O problema é o desenho do fluxo do dinheiro. A Nvidia, fabricante dos chips (as famosas GPUs, unidades de processamento gráfico usadas para treinar os modelos), anuncia investimentos bilionários na OpenAI, que usa esse dinheiro para contratar capacidade de computação da Oracle, que por sua vez compra chips da Nvidia para entregar essa capacidade. A serpente morde o próprio rabo. As receitas de todos sobem, as ações de todos sobem, e fica cada vez mais difícil separar quanto daquela demanda é orgânica e quanto é o próprio setor comprando de si mesmo.

Esse arranjo tem nome nos livros de finanças: vendor financing, ou financiamento pelo fornecedor, quando quem vende empresta o dinheiro para o cliente comprar. Quem viveu a bolha da internet no fim dos anos 1990 lembra que as fabricantes de equipamentos de telecomunicações faziam exatamente isso com as operadoras. Quando a demanda real se mostrou menor do que a imaginada, o castelo desmontou de forma dolorosa.

E há mais um ingrediente nessa receita, este um pouco mais escondido. Nas últimas semanas, uma pesquisa do jornal japonês Nikkei ganhou o noticiário ao estimar que essas mesmas cinco empresas carregam cerca de US$ 1,65 trilhão em compromissos que não aparecem como dívida em seus balanços, valor superior ao total de US$ 1,35 trilhão em dívida oficialmente reportada. No caso da Meta, essas obrigações fora do balanço chegariam a US$ 420 bilhões, quase o triplo da dívida visível.

Como isso é possível? Por meio de estruturas conhecidas como financiamento conduíte. Em vez de tomar a dívida diretamente, a empresa se junta a um fundo para criar um veículo de propósito específico, que capta o dinheiro no mercado, constrói o data center e o aluga de volta para a gigante de tecnologia por contratos de longuíssimo prazo. No papel, a big tech é apenas uma inquilina pagando aluguel. Na prática, ela se comprometeu a pagar por aquela capacidade durante muitos anos, haja demanda ou não. É tudo legal e permitido pelas regras contábeis, mas reduz a visibilidade sobre a alavancagem real do setor. E alavancagem escondida é uma velha conhecida das crises passadas.

Some a isso as expectativas embutidas nos preços. A consultoria Bain estimou que, para justificar o ritmo atual de construção, o setor precisaria gerar algo em torno de US$ 2 trilhões por ano em receitas de inteligência artificial até 2030, mais do que a soma do faturamento de Amazon, Apple, Alphabet, Microsoft, Meta e Nvidia em 2024.

Há quem estime que, para todas essas empresas entregarem o lucro que os preços já embutem, o bolo da economia precisaria crescer muito mais rápido, ou a fatia das empresas precisaria tomar o espaço de alguém. Simplesmente não há bolo suficiente para todo mundo comer o que já foi prometido.

E quando parecia faltar apenas um teste de estresse, a China apareceu para lembrar que vantagem competitiva em tecnologia pode ser mais frágil do que parece. Neste mês, a startup Moonshot AI lançou o Kimi K3, modelo de código aberto com 2,8 trilhões de parâmetros, o maior do gênero já divulgado, que, segundo os primeiros testes, briga de igual para igual com os melhores sistemas americanos em diversas tarefas. Foi um eco do susto que o DeepSeek deu no mercado no início de 2025. Afinal, se um modelo aberto e barato entrega resultado parecido, o que sustenta as margens gordas embutidas nas projeções?

Dias depois, veio um episódio digno de ficção científica. Um modelo da OpenAI, durante um teste interno de segurança, escapou do ambiente controlado e invadiu os sistemas da Hugging Face, a maior plataforma de modelos abertos do mundo. O detalhe mais simbólico: para investigar o ataque, a vítima recorreu justamente a um modelo chinês de código aberto, rodando em seus próprios servidores, depois que as travas de segurança dos modelos comerciais americanos impediram o trabalho. Para além das discussões sobre segurança, o caso reforça a mensagem do Kimi K3: os fossos que protegem esses castelos podem ser mais rasos do que os preços sugerem.

Diante de tudo isso, a pergunta inevitável: estamos em uma bolha? A resposta honesta, e que talvez até se possa chamar de correta, é que ninguém sabe, e desconfie de quem cravar com certeza. Os próprios autores que defendem a tese da bolha reconhecem que os participantes de mercado são péssimos em identificá-las e que, mesmo quando acertam o diagnóstico, quase sempre erram o momento. Howard Marks, um dos investidores que mais admiro, publicou seu famoso memorando alertando sobre a bolha da internet no início de 2000 e costuma lembrar que, nos mercados, estar muito adiantado é indistinguível de estar errado. Em outras palavras, estar certo na hora errada é estar errado.

Aliás, a história da bolha ponto-com guarda uma lição pouco contada. Quem saiu do mercado em 1997, quando os primeiros alertas soaram, perdeu três anos de valorizações extraordinárias. Quem concentrou tudo em empresas de internet viu ações caírem 80%, 90%, muitas para nunca mais voltar. Mas quem manteve uma carteira ampla e diversificada, com aportes disciplinados, atravessou o estouro e colheu, anos depois, os frutos de uma tecnologia que de fato mudou o mundo. A internet cumpriu a promessa. Só que boa parte do valor foi capturada por empresas que nem existiam no auge da euforia.

Enxergo um paralelo direto com o momento atual. A inteligência artificial provavelmente transformará a economia, mas isso não garante que as vencedoras de hoje serão as vencedoras de amanhã, nem que os preços atuais sejam um bom ponto de entrada para apostas concentradas.

É por isso que aqui na Finclass não fazemos stock picking, a seleção individual de ações. Ao investir por meio de ETFs (fundos de índice negociados em bolsa) amplos e diversificados, você abre mão dos ganhos astronômicos de acertar a empresa da vez, é verdade. Em troca, elimina o risco de quebrar junto com ela e garante que, se a tecnologia cumprir o que promete, você estará posicionado nas vencedoras, sejam elas quais forem, incluindo as que ainda nem abriram capital. John Bogle, fundador da Vanguard, defendia essa ideia com uma imagem que adoro: em vez de procurar a agulha no palheiro, compre o palheiro inteiro.

A diversificação ainda te entrega um mecanismo automático de proteção que pouca gente valoriza: o rebalanceamento. Se o setor de tecnologia cresce além do peso planejado na sua carteira, o rebalanceamento te obriga a vender um pouco na alta e realocar no que ficou para trás. Sem previsões, sem adivinhação de topo, sem depender de manchete.

Portanto, meu convite é o de sempre. Observe a serpente com curiosidade, acompanhe o noticiário com senso crítico, mas não deixe que nem o medo nem a ganância reescrevam o seu plano. Mantenha sua alocação estrutural, siga com os aportes recorrentes e deixe o rebalanceamento fazer o trabalho pesado. Se a bolha existir e estourar, sua carteira diversificada foi desenhada para atravessar a tormenta. Se não estourar, você estará lá para colher os ganhos.

Um grande abraço,

Felipe Arrais

*Este conteúdo foi produzido de forma independente por seu autor e publicado sem qualquer alteração pelo site.

Especialista em investimentos globais da Finclass e analista CNPI. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Tem experiência em consultoria financeira autônoma e análise de fundos de investimento.