Vendi meu carro e decidi fazer um intercâmbio na Austrália. Meu objetivo era simplesmente voltar com inglês avançado e ter algumas histórias para contar. Mas além disso, consegui algo bem maior: aprendi a me adaptar o mais rápido possível.
Eu estudava à noite, para poder trabalhar durante o dia. Só que eu não queria me comprometer com um emprego fixo tradicional. Minha ideia era trabalhar apenas o necessário para me manter.
Na prática, isso significava que eu trabalhava apenas três dias por semana para pagar as contas. Assim, eu conseguia aproveitar os outros quatro dias para conhecer o país e viver a experiência de verdade.
Pode parecer uma boa ideia, mas por outro lado, como eu não queria um emprego fixo, cada dia eu ocupava uma função diferente, sem contar que eu precisava ficar procurando emprego quase que diariamente até eu conseguir bater a minha meta de três dias trabalhados na semana.
Por isso, cheguei a fazer as mais diversas tarefas: entreguei panfleto, carreguei bastante peso fazendo mudanças, fiz pintura, limpei janelas de galpão nas alturas, passei dias cavando uma piscina, fiz jardinagem, removi caminhões de entulho e o serviço mais pesado de todos, foi fazer demolição na marretada. Até que cheguei na função mais tranquila, a de controlador de tráfego, que só consegui quando já tinha um inglês quase que fluente devido a necessidade de interação com os motoristas.
O mais interessante? É que em todos esses empregos, os salários eram relativamente parecidos. Desde a entrega de panfletos, que pagava bem pois ninguém queria, até os trabalhos pesados na obra, devido ao esforço físico.
O grande diferencial para eu ser chamado novamente, era entender as necessidades do ambiente e encontrar o melhor jeito de executar a tarefa da forma mais eficiente possível. Como eram serviços relativamente simples, de apenas “um dia”, não tinha tempo para alguém me ensinar, eu precisava aprender a me virar sozinho e entregar a tarefa até o final do dia.
Agora, olhando para o universo cripto, percebo que esse poder de adaptação tem bastante relação com esse mercado ao longo dos últimos anos.
1. Insistir no antigo pode sair caro
Se eu tivesse seguido os moldes tradicionais de emprego fixo, provavelmente eu não teria vivido nem metade de tudo isso. Seja nas mais diversas funções, mas principalmente na vivência do exterior. Eu precisei me reinventar.
Por outra perspectiva, essa é uma das diferenças entre a época em que muitas pessoas entravam em uma empresa e construíram carreira nela, e a realidade atual, na qual trocar de emprego e aprender novas habilidades com frequência se tornou algo comum.
Não necessariamente porque a estabilidade deixou de importar, mas porque as pessoas passaram a priorizar um equilíbrio entre qualidade de vida, saúde e flexibilidade. É tudo questão de adaptação ao mundo moderno.
Aplicando agora essa ideia ao mercado financeiro, até a minha geração dos Millennials, a gente fazia depósitos no banco pelo operador de caixa, precisava ir frequentemente ao caixa eletrônico sacar dinheiro, enfrentava uma tremenda burocracia para conseguir um cartão de crédito e realizava transferências por DOC e TED apenas em horário comercial, sem contar as diversas taxas operacionais que eram aplicadas. Nós aceitávamos o modelo, porque era o único que existia.
Com a chegada dos bancos digitais ficou nítida essa evolução. Não precisamos mais de uma infinidade de agências, filas de espera, temos uma análise de perfil agilizada, e agora, com o PIX, temos transferências instantâneas a qualquer hora.
O sistema financeiro está sendo pressionado constantemente a evoluir. Novas tecnologias, novos hábitos dos usuários e diferentes formas de movimentar valor. Percebe como até mesmo o sistema mais tradicional de todos, também precisa aprender a se adaptar?
A mudança provocada pelo mercado cripto
Durante muito tempo, o modelo de agências bancárias pareceu praticamente imutável. Apesar dessas evoluções recentes, o mercado cripto já está abrindo novas possibilidades.
Por exemplo, as aplicações das stablecoins — criptoativos lastreados em moeda fiat que buscam manter a paridade com o dólar — mostraram como o dinheiro pode circular digitalmente, em escala global e com disponibilidade imediata independente do volume financeiro.
Elas podem ser englobadas no setor de RWAs (Real World Assets – Ativos do mundo real digitalizados), que ajuda a trazer ativos financeiros tradicionais para a infraestrutura blockchain e contratos inteligentes, automatizando o que antes ficava preso a processos burocráticos. A tokenização já começou e na minha opinião, vai se tornar a principal veia do sistema financeiro nos próximos anos.
Nesse momento, a falta de clareza regulatória está sendo a principal barreira. Em um mercado que quer deixar de ser apenas um nicho e precisa ganhar relevância, regras mais claras podem representar maturidade. Elas ajudam a definir responsabilidades, aumentar a confiança dos investidores e separar projetos que buscam construir no longo prazo, daqueles que dependem apenas do entusiasmo momentâneo.
Entretanto, o grande desafio está na regulação, de conseguir dialogar tanto com o sistema financeiro tradicional, empresas de ambos mercados, governos, e com os investidores. Todos precisam se adaptar às novas obrigações e mudanças regulatórias.
Por isso, precisamos tomar cuidado. Pois regras excessivamente rígidas podem sufocar soluções antes que elas amadureçam. Isso pode estar acontecendo no Brasil este ano. O alto nível de exigências, já começou a expulsar as pequenas empresas de cripto, e isso vem freando o desenvolvimento e a inovação do mercado por aqui.
A lição, é que até mesmo o sistema financeiro tradicional precisa compreender novas ferramentas. Enquanto isso, os projetos cripto precisam demonstrar que a inovação chegou e que já possuem responsabilidade suficiente para assumir essa mudança. E quando menos percebemos, aquilo que parecia distante já começará a fazer parte da nossa rotina.
Sobreviver é indispensável para a vitória
Cada dia de trabalho na Austrália tinha apenas uma função: manter a minha experiência de pé. E no mercado cripto, sobreviver é uma das palavras mais importantes.
O setor já enfrentou desconfiança, quedas intensas, de mais de 80%, empresas quebrando, projetos desaparecendo, críticas de todos os lados e um cenário regulatório que ainda está em construção ao redor do mundo.
Para quem olha de fora, isso pode parecer motivo suficiente para ignorá-lo por enquanto. Mas grandes transformações raramente acontecem de forma tranquila, sempre é preciso passar por um choque inicial.
No universo cripto a pergunta mais importante é: quais casos de uso vão sobreviver ciclos após ciclo?
Isso porque, esse é um mercado muito dinâmico. Novos projetos surgem a cada dia. Novas soluções tentam ser disruptivas no sistema financeiro tradicional. Até mesmo um criptoativo atacando a fragilidade do outro. Novas ideias são propostas a todo momento e quem não se adapta, fica para trás. Assim, 99,9% dos criptoativos existentes hoje, devem sumir no futuro.
Projetos que conseguem segurar seus usuários, manter o ritmo de desenvolvimento nos momentos difíceis, que continuam oferecendo utilidade e até mesmo absorver o que deu certo no concorrente, consegue ser minimamente resiliente e tendem a cair menos. É neles que devemos prestar bastante atenção.
É justamente nesses períodos desafiadores, de baixa, como o atual, que fica mais clara a diferença entre quem está construindo algo sólido e continua entregando soluções, daqueles que apenas faziam promessas vagas e estavam simplesmente aproveitando o entusiasmo de uma narrativa momentânea.
Sobreviver em um ambiente em constante transformação exige um forte poder de adaptação.
A maior lição é manter a mente aberta
A Austrália é o país com maior diversidade cultural, com cerca de 30% da sua população composta por imigrantes e também é considerado um dos países mais felizes do mundo. Pessoas ao redor do mundo inteiro, fazem o que é preciso ser feito para ficarem por lá: mudam de área, aceitam trabalhos temporários, aprendem novas funções constantemente e encontram seu espaço em uma economia extremamente dinâmica.
Lá era necessário entender o contexto, ajustar a rota e continuar avançando em direção ao objetivo. Para isso, aceitei trabalhos que eu não queria e também recusei oportunidades de emprego fixo para preservar minha liberdade. Eu precisava me reinventar todo dia, e fazia o que era necessário para continuar no jogo.
No mercado cripto é a mesma história.
Apesar dos altos e baixos de cada ciclo, dos hacks frequentes de projetos, o mercado cripto segue avançando e se adaptando às questões regulatórias. Aos poucos, vem mudando o sistema financeiro tradicional.
A principal aplicação hoje, são as stablecoins, mas a tokenização de ativos reais já vem crescendo de forma consistente. Essas soluções já mostraram ao mundo que existem outras maneiras de movimentar, registrar e acessar valor.
O mercado financeiro tradicional resistiu à mudança o máximo que pôde. Agora, podemos estar vivenciando a maior mudança de todo sistema financeiro do século. Até o grande cruzeiro do mercado financeiro tradicional já começou a mudar de direção, você que está em um jet ski consegue se adaptar muito mais rápido.
Os projetos cripto que conseguirem atravessar períodos difíceis, como a atual temporada de baixa, continuar se desenvolvendo, adaptar-se, aprender com os erros alheios e seguir construindo quando quase todo mundo já foi embora, têm grandes chances de se destacar no futuro.
No fim, a lição que ficou da Austrália foi sobre não depender de uma única narrativa. O mundo muda rápido e sobreviver não é se agarrar ao que sempre funcionou, é sair da zona de conforto e se adaptar o mais rápido possível à mudança.
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