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Análise dos resultados do 2T26 de Suzano (SUZB3): resiliência operacional, pressão cambial e o teste da desalavancagem

Luiz Guilherme Aboim

A Suzano (SUZB3) encerrou o segundo trimestre de 2026 com um resultado que pode ser descrito como operacionalmente resiliente, porém, financeiramente pressionado. A companhia entregou receita líquida de R$ 11,6 bilhões e EBITDA ajustado de R$ 4,7 bilhões, números superiores aos do primeiro trimestre, mas inferiores aos observados um ano antes. O lucro líquido somou R$ 1,8 bilhão, queda de 64% na comparação anual, enquanto a margem EBITDA recuou para aproximadamente 40,6%, ante 45,6% no 2T25.

A leitura correta exige separar três camadas:

  • A primeira é a operação recorrente: preços internacionais de celulose mais altos e melhora sequencial de volumes ajudaram a companhia;
  • A segunda é o ambiente macroeconômico: o real valorizado reduziu a conversão da receita dolarizada para reais, enquanto petróleo, produtos químicos, madeira e logística elevaram custos;
  • A terceira é o resultado financeiro, que foi especialmente desfavorável porque o 2T25 havia sido beneficiado por ganhos cambiais e com derivativos, em grande parte sem efeito caixa, que não se repetiram em 2026.

Portanto, o trimestre não representa simplesmente uma deterioração estrutural da Suzano. Ao mesmo tempo, tampouco autoriza uma leitura complacente. A companhia ainda precisa demonstrar que o Projeto Cerrado e a aquisição da Arbex gerarão caixa suficiente para reduzir a alavancagem, sobretudo em um setor cíclico e exposto a um mercado chinês com maior capacidade integrada de produção de papel e celulose.

Principais indicadores e o que chamou a atenção do mercado

A tabela abaixo reúne os números centrais divulgados pela empresa e as principais variações do trimestre.

Indicador 2T26 Comparação ou comentário
Receita líquida R$ 11,6 bilhões +6% contra o 1T26 e -13% contra o 2T25
EBITDA ajustado consolidado R$ 4,7 bilhões +3% t/t e -23% a/a; margem de 40,6%
Lucro líquido R$ 1,8 bilhão -64% a/a; afetado pela ausência de ganhos financeiros do 2T25
Vendas totais 3,3 milhões de toneladas 2,9 milhões t de celulose e 406 mil t de papéis
EBITDA ajustado de celulose R$ 4,2 bilhões Margem de 47,8%, queda anual de 4,5 p.p.
EBITDA ajustado de papel R$ 521 milhões Queda anual de 27%; margem de 18,4%
Preço médio de exportação da celulose US$ 601/t Recuperação de preços, mas com menor volume vendido
Custo caixa de celulose sem paradas R$ 843/t +5% t/t e aproximadamente estável a/a; guidance de cerca de R$ 800/t para 2026
Fluxo de caixa livre ajustado R$ 3,3 bilhões Demonstra a capacidade de conversão de EBITDA em caixa, conforme o documento analisado
Dívida líquida R$ 66,1 bilhões Redução de aproximadamente R$ 1,9 bilhão no trimestre
Alavancagem em dólar 3,4x Acima dos 3,3x do 1T26 e próxima do limite de 3,5x da política financeira

 

O primeiro ponto de atenção do mercado foi o contraste entre preços melhores e volumes menores na celulose. O preço médio em dólar da fibra curta avançou 8% na comparação anual, mas as vendas de celulose caíram 11%, para 2,9 milhões de toneladas. A redução foi concentrada na Ásia, especialmente na China, onde a disponibilidade de celulose de fibra longa, a pequena diferença de preço entre fibras e a expansão de produtores integrados reduziram o apetite de compra no fim do trimestre.

O segundo destaque foi o custo caixa. A marca de R$ 843 por tonelada, sem considerar paradas, permaneceu próxima do 2T25, o que é positivo diante da alta de gás natural, soda cáustica, dióxido de cloro, madeira e transporte. Entretanto, o avanço de 5% em relação ao 1T26 confirma que a inflação de insumos continua sendo uma ameaça concreta à margem. A administração manteve a expectativa de custo médio próximo de R$ 800/t em 2026, de modo que o segundo semestre precisa apresentar alguma melhora operacional para que essa promessa seja cumprida.

Por fim, chamou atenção a combinação entre geração de caixa e alavancagem. A dívida líquida caiu, mas a relação dívida líquida/EBITDA em dólar subiu para 3,4x porque o EBITDA dos últimos doze meses diminuiu. Isso evidencia que a desalavancagem não depende apenas de pagar dívida em termos nominais, mas também de recuperar o resultado operacional e evitar novas aquisições relevantes no curto prazo.

Pontos positivos dos resultados

O primeiro ponto positivo é a melhora sequencial. Receita, EBITDA e vendas avançaram em relação ao 1T26, apesar de câmbio adverso, custos maiores e concentração de paradas de manutenção. O EBITDA consolidado cresceu 3% t/t, e a administração classificou o fluxo de caixa como forte, reforçando a capacidade do negócio de atravessar um período desfavorável sem ruptura de liquidez.

O segundo é a qualidade estrutural da operação de celulose. A Suzano continua apoiada em florestas de eucalipto produtivas, escala global e logística integrada. Mesmo com a pressão de custos e a queda de volume, o segmento de celulose gerou R$ 4,2 bilhões de EBITDA e margem de 47,8%. Essa rentabilidade é importante porque produtores de maior custo tendem a reduzir produção quando os preços se aproximam ou ficam abaixo do ponto de equilíbrio. Segundo a administração, cerca de 30% da produção global de celulose de mercado estaria operando abaixo do custo caixa nos preços vigentes na China, uma condição que pode estimular paradas e fechamento de capacidade.

O terceiro ponto favorável é a proteção financeira. A Suzano informou impacto positivo de aproximadamente R$ 150 milhões no caixa no trimestre por meio de hedge de petróleo, compensando quase 60% do efeito negativo de R$ 275 milhões provocado por preços mais elevados de derivados. Também houve ajuste positivo de R$ 480 milhões relacionado a hedge cambial. Essas proteções não eliminam o risco, mas reduzem a volatilidade do caixa e ajudam a companhia a atravessar choques externos.

O quarto é o espaço de recuperação no papel e nas embalagens. O EBITDA do segmento caiu 27% a/a, mas as operações brasileiras apresentaram melhora sequencial de 28%, favorecidas por volumes e preços domésticos. No Brasil, as vendas de papel para imprimir e escrever cresceram 4% a/a, enquanto o papel-cartão avançou 11%, segundo os comentários da administração. Nos Estados Unidos, a companhia iniciou o 3T26 com carteira de pedidos considerada forte e com perspectivas de melhora na relação entre oferta e demanda após reduções de capacidade no setor.

O quinto ponto é a conclusão da Arbex. A Suzano passou a deter 51% da joint venture de tissue formada com a Kimberly-Clark, mediante pagamento de US$ 1,3 bilhão. A operação iniciou em 1º de julho, reúne 22 fábricas em 14 mercados e atende mais de 70 países. A incorporação amplia a exposição a um produto menos comoditizado e menos dependente da exportação de grandes volumes, além de oferecer oportunidades de eficiência e cross-selling.

Pontos de atenção e aspectos negativos

O principal problema continua sendo a combinação de ciclo de celulose, demanda asiática e alavancagem. O ganho de preço em dólar não foi suficiente para compensar a queda de volume e o câmbio. A China é o maior mercado da Suzano e sua maior produção integrada de papel pode reduzir a necessidade de celulose de mercado. A administração argumenta que a demanda de papel, especialmente em embalagens e tissue, segue crescendo, mas a expansão da oferta chinesa pode limitar a velocidade da recuperação de preços.

O segundo ponto é a pressão de custos. O petróleo afetou resinas, químicos e fretes; a madeira ficou mais cara em algumas rotas; e o trimestre concentrou paradas de manutenção em unidades relevantes. O custo adicional de paradas foi de R$ 129/t, segundo a teleconferência, reduzindo a comparabilidade do trimestre. Embora a concentração de manutenção possa aliviar o 3T26, não se deve presumir que todos os efeitos desaparecerão: energia, químicos e logística continuam sensíveis a geopolítica e câmbio.

O terceiro ponto é o resultado financeiro. A queda do lucro líquido não deve ser interpretada como queda equivalente do caixa, porque o 2T25 contou com efeitos cambiais e derivativos sem caixa. Ainda assim, o episódio mostra que a dívida em moeda estrangeira produz volatilidade contábil. Em uma empresa com dívida líquida de R$ 66,1 bilhões, oscilações cambiais podem alterar significativamente o lucro reportado e a percepção de risco, mesmo quando o fluxo de caixa operacional permanece sólido.

O quarto é a alavancagem. A relação de 3,4x em dólar ficou próxima do limite de 3,5x da política financeira e acima do objetivo de longo prazo de 2,5x. A Arbex adicionará dívida ao balanço e, inicialmente, apenas um trimestre de EBITDA será consolidado. Isso pode elevar temporariamente a percepção de alavancagem, mesmo que a contribuição anualizada da joint venture seja maior. A administração declarou que a prioridade é reduzir dívida e que não há novas aquisições no pipeline, mas a execução dessa promessa será determinante para a confiança dos investidores.

Por fim, existe risco de execução na Arbex e no papel. A operação de tissue diversifica a Suzano, mas também traz integração internacional, exposição a diferentes mercados, custos de distribuição e necessidade de capturar sinergias. No papel, paradas mais longas na unidade Pine Bluff e instabilidade operacional após manutenção pressionaram o EBITDA. A diversificação reduz a dependência da celulose, mas não transforma a companhia em um negócio defensivo de um trimestre para o outro.

Tese de investimento em Suzano e principais riscos

A tese de investimento em Suzano combina quatro elementos:

  • Liderança global e a vantagem de custo na celulose de eucalipto;
  • Possibilidade de reequilíbrio do ciclo, caso preços baixos provoquem cortes de produção e a demanda sazonal do segundo semestre melhore;
  • Passagem de uma fase de capex elevado para uma fase de maior geração de caixa, após a entrada do Projeto Cerrado em operação;
  • Diversificação em papel, embalagens e tissue, que pode reduzir a exposição à commodity ao longo do tempo.

Essa tese, contudo, é cíclica e alavancada. Os riscos principais são uma queda adicional dos preços da celulose, crescimento menor da China, substituição de fibra curta por fibra longa, valorização persistente do real, inflação de insumos, eventos climáticos sobre florestas, incêndios, pragas e restrições ambientais. Também devem ser monitorados riscos regulatórios, licenciamento, questões fundiárias e a capacidade de entregar sinergias na Arbex.

Uma forma equilibrada de avaliar a ação é perguntar não apenas quanto a Suzano lucra no ponto alto do ciclo, mas quanto caixa consegue gerar no ponto baixo e quão rapidamente converte esse caixa em redução da dívida. O fato de a companhia ter alcançado R$ 3,3 bilhões de fluxo de caixa livre ajustado no trimestre é encorajador; o fato de a alavancagem ter subido para 3,4x impede, por enquanto, uma conclusão de conforto.

O que observar nos resultados do 3T26

Em relação aos resultados do 3T26, alguns indicadores já estão em nosso radar:

  • Volume de celulose: a administração afirmou que julho apresentou retomada saudável dos pedidos e que esperava agosto acima do padrão médio, com demanda sazonal mais forte no segundo semestre. O 3T26 deve mostrar se a recuperação asiática foi efetiva ou apenas uma recomposição pontual de estoques. Será especialmente importante comparar crescimento de volume com evolução do preço médio, porque um aumento de toneladas comprado com descontos agressivos não necessariamente melhora o EBITDA;
  • Curva de preços na China: a administração observou que preços na faixa de meados de US$ 500/t estimularam compradores e que a celulose de fibra curta ganhou competitividade quando o diferencial para a fibra longa aumentou. O cenário positivo depende de novas altas de preço, anúncios de reajuste de papel e cortes de capacidade. Caso a China permaneça com excesso de oferta e estoques elevados, a recuperação poderá ser adiada;
  • Custo caixa: o mercado deve verificar se o custo por tonelada se aproxima do guidance anual de R$ 800/t, com menor impacto de paradas e eventual normalização de químicos, energia e madeira. O hedge de petróleo também merece atenção: a companhia tinha cobertura de 85% da exposição hedgeável no segundo semestre de 2026 e 35% em 2027, conforme a teleconferência;
  • Efeito da Arbex: o 3T26 será o primeiro trimestre com consolidação dos resultados da joint venture. A análise deve separar crescimento orgânico de crescimento adquirido, observar receita, EBITDA, margem, dívida incorporada e despesas de integração. A pergunta central será se o ativo realmente amplia a qualidade do fluxo de caixa ou apenas adiciona complexidade e endividamento antes de entregar sinergias;
  • Desalavancagem: deve-se acompanhar dívida líquida em reais e dólares, fluxo de caixa livre após capex, capital de giro, custo da dívida e eventuais vendas de ativos. A administração estabeleceu 2,5x como nível mais saudável para discutir retorno mais agressivo aos acionistas. Por isso, dividendos extraordinários e recompras parecem secundários enquanto o múltiplo permanecer perto do limite da política.

Conclusão

O 2T26 da Suzano foi um trimestre de resiliência, mas não de vitória completa. A empresa mostrou capacidade de gerar caixa e melhorar sequencialmente seus indicadores mesmo sob pressão cambial e de custos. A qualidade da base florestal, a escala, os hedges e a perspectiva de demanda mais forte no segundo semestre sustentam a tese de recuperação.

Por outro lado, a queda anual de 23% no EBITDA, o recuo de 11% no volume de celulose, a margem menor e a alavancagem de 3,4x mostram que a recuperação ainda não está consolidada. O 3T26 será decisivo porque reunirá sazonalidade favorável, possível recuperação da Ásia, menor concentração de manutenção e a entrada da Arbex no balanço. Você deve avaliar simultaneamente volume, preço, custo, caixa e dívida, evitando concluir a partir do lucro líquido isoladamente.

Em síntese, Suzano continua sendo uma companhia competitiva e com ativos de alta qualidade, mas a avaliação final depende de disciplina financeira. Se a empresa elevar volumes sem sacrificar preço, reduzir o custo caixa, capturar sinergias da Arbex e transformar geração de caixa em desalavancagem, a tese ganha força. Se a China continuar pressionando os preços, o real permanecer valorizado e a nova aquisição adicionar dívida antes de gerar resultado, o desconto da ação poderá refletir não uma oportunidade, mas o risco estrutural de uma empresa cíclica alavancada.

Economista, especialista em valuation. Professor convidado do Coppead/UFRJ, FGV e Faculdade HUB. É sócio-fundador da ConfianceTec e da Escola de Finanças Aboim.