Quem já pegou uma estrada esburacada no interior do Brasil sabe a diferença que faz um bom amortecedor. Ele não faz com que os buracos da via sumam, mas pode tornar a viagem muito mais segura e confortável, maximizando as chances de você não interromper a viagem no meio do caminho.
Guarde essa analogia, porque é mais ou menos isso que uma fatia internacional faz em uma carteira montada no Brasil. E, convenhamos, os últimos meses por aqui tiveram mais buraco do que asfalto de boa qualidade.
Em 14 de abril o Ibovespa fechou no maior nível de toda a sua história. De lá para cá, até o fechamento da última sexta-feira, 14 de agosto, o índice devolveu algo em torno de 16%. No mesmo intervalo os juros futuros subiram, parte do capital estrangeiro tomou o caminho da saída e o dólar, que em maio esteve no menor patamar em dois anos, voltou a se firmar. Os motivos você já deve imaginar: ruído em torno da trajetória fiscal, dúvidas sobre as contas públicas e uma disputa eleitoral que se aproxima e que, como sempre acontece, antecipa ansiedade.
Apesar da queda desde abril, o Ibovespa ainda acumula alta em 2026, ainda que de forma modesta, com pouco mais de 3,5% no acumulado. E o dólar, mesmo tendo subido desde a mínima de maio, continua mais barato do que estava quando o ano começou.
O que eu quero trazer como discussão pertinente hoje, no entanto, é menos sobre o que aconteceu em abril e mais sobre uma relação antiga e teimosa entre o dólar e os ativos brasileiros. Quando o Brasil piora, o dólar se valoriza.
Correlação é uma medida estatística que vai de -1 a 1 e mostra se dois ativos costumam andar na mesma direção ou em direções opostas. Desde a adoção do câmbio flutuante, em janeiro de 1999, a correlação entre o dólar e o Ibovespa ficou perto de -0,5 na média e permaneceu negativa em cerca de 96% do tempo. Não é uma curiosidade estatística de um período específico. É um comportamento que atravessou governos, crises, planos econômicos e ciclos de juros inteiros.
Nos dias de maior estresse a relação fica ainda mais visível. Desde 1999 o Ibovespa teve 599 pregões com queda superior a 2%. Em 87% deles o dólar subiu, com alta média em torno de 1%. Quando o pânico bate por aqui, ele costuma vir acompanhado de corrida para moeda forte, e isso costuma amortecer parte do impacto na sua carteira.
O exemplo mais didático que encontrei está em um único pregão, o de 18 de maio de 2017, que ficou conhecido como Joesley Day. Naquele dia o Ibovespa caiu perto de 9% e o IMA-B 5+, índice que acompanha os títulos públicos atrelados à inflação com vencimentos acima de cinco anos, caiu quase 10% no mesmo dia. Ou seja, a diversificação clássica do investidor brasileiro, um pouco de bolsa e um pouco de renda fixa longa, não protegeu os investidores, porque as duas classes de ativos responderam negativamente ao mesmo susto.
Enquanto isso, uma carteira internacional simples, montada com índices e composta por um pedaço em ouro, um pedaço em ações globais e um pedaço em renda fixa global, subiu cerca de 7% em reais naquele pregão. E quanto ela subiu em dólar? Praticamente nada, ficou de lado. Os ativos lá fora ficaram inabalados, afinal o estresse partia de um fator doméstico que não tinha praticamente nenhuma influência sobre os fundamentos das ações e títulos de renda fixa internacionais.
Agora, se eu parasse por aqui estaria te vendendo uma ilusão de proteção fácil, e não é assim que trabalhamos. A fatia internacional não é um seguro que paga toda vez que a bolsa brasileira cai. Na crise financeira de 2008 aquela mesma carteira internacional caiu 30% em dólar. Para o investidor brasileiro, o câmbio atuou como amortecedor e transformou aquilo em uma perda de cerca de 4%, contra uma queda de 60% do Ibovespa. Amorteceu muito, mas não impediu a queda. Na pandemia foi parecido: enquanto o Ibovespa perdia quase metade do valor em dois meses, a carteira internacional em reais terminou o período praticamente empatada.
Voltando à analogia do amortecedor, ele não faz o buraco desaparecer e, em algumas estradas, você vai sentir o solavanco de qualquer jeito. O que ele faz é reduzir a chance de você abandonar o carro no meio do caminho.
Vale agora um olhar mais detalhado sobre o dólar. Pelo que expliquei até aqui, o câmbio é uma das principais variáveis de defesa que a carteira internacional carrega, e é sabido que o investidor brasileiro costuma especular demais sobre qual seria o patamar apropriado do preço do dólar para investir lá fora.
Desde já vale o aviso de que, em minha humilde opinião, você não deveria tentar acertar os melhores patamares para comprar ou vender ativos só por conta do preço atual do dólar.
Olhando todos os meses desde o fim de 2004, simulei duas carteiras teóricas com abordagens de compra e venda diferentes. A primeira efetuava compras quando o dólar se apresentava acima da própria média dos últimos doze meses, já a outra carteira fazia o contrário, efetuando os investimentos quando o dólar se encontrava abaixo dessa média.
Quem comprou com o dólar “caro” teve retorno mediano maior nos doze meses seguintes, e não menor. A diferença diminui conforme a janela se alonga, mas em nenhum momento a estratégia de tentar acertar os momentos de “câmbio barato” apareceu como a mais vantajosa.
Não leia isso como um convite a sair correndo para comprar dólar caro, porque essa não é a conclusão. A leitura correta é de que o patamar do câmbio simplesmente não funcionou como sinal de compra, nem para um lado nem para o outro.
Para deixar a coisa ainda mais concreta, simulei três investidores aportando R$ 1.000 por mês na fatia internacional desde janeiro de 2004, um total de R$ 272 mil aportados ao longo de vinte e dois anos.
- O primeiro aportou todo mês sem nunca olhar a cotação e terminou com cerca de R$ 1,62 milhão.
- O segundo só aportou nos meses em que o dólar estava abaixo da média, deixando o dinheiro restante rendendo CDI, a taxa de referência do mercado interbancário brasileiro, e terminou praticamente com o mesmo valor do primeiro.
- O terceiro é uma ficção: ele acertou o fundo do dólar todo santo ano, com uma precisão impossível na vida real, e terminou com cerca de R$ 1,72 milhão.
Vinte e dois anos de bola de cristal perfeita valeram algo em torno de 6% a mais. É pouco, e é um pouco que ninguém no mundo real vai capturar. John Bogle, que fundou a Vanguard e é frequentemente citado por mim em newsletters, lives e relatórios, passou a vida defendendo a disciplina de aportes e dizia que interromper o aporte recorrente por causa do humor do mercado é matar o motor de crescimento do próprio investimento. O raciocínio vale igualzinho para o câmbio.
Na semana que vem publicarei na plataforma da Finclass o relatório completo sobre diversificação internacional e seus impactos dentro de uma carteira de ativos brasileiros, com diversos episódios de estresse do mercado brasileiro desde 2002 analisados um a um, simulações de diferentes estratégias de investimento e o estudo sobre o que aconteceu com quem parou de aportar esperando o câmbio melhorar. Se o assunto te interessa, vale acompanhar (sempre há um bom desconto disponível para você participar da comunidade de investidores da Finclass).
Enquanto isso, fica o convite mais simples. Da próxima vez que o noticiário brasileiro pegar fogo, em vez de perguntar o que vender, pergunte quanto da sua carteira está trabalhando fora do Brasil. A resposta a essa pergunta explica boa parte de como você vai atravessar os próximos meses.
Um grande abraço,
Felipe Arrais