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Análise dos resultados do 2T26 de Ser Educacional (SEER3): avanços positivos, mas custo da transição no EAD gera atenção

Luiz Guilherme Aboim

A Ser Educacional (SEER3) encerrou o segundo trimestre de 2026 com um resultado operacionalmente positivo e, em vários aspectos, melhor do que a evolução da receita sugere.

A companhia ainda enfrenta a transição estrutural provocada pelo novo marco regulatório da educação a distância, mas conseguiu compensar parte relevante da retração do ensino digital com o crescimento do ensino presencial, a maior participação de cursos de Saúde e Direito e a maturação das vagas de Medicina. O resultado foi uma combinação de receita em alta moderada, expansão de margens, lucro crescendo em ritmo de dois dígitos e forte redução do endividamento.

A principal mensagem do 2T26 é que a Ser está deixando de depender exclusivamente da expansão da base de alunos para buscar crescimento com qualidade. A estratégia passou a privilegiar cursos e unidades com maior ticket, menor evasão e melhor capacidade de diluição de custos fixos. Essa mudança aparece no aumento da participação do ensino presencial na base, no avanço do ticket médio consolidado e na melhoria da conversão de EBITDA em caixa. Ao mesmo tempo, ela também revela a principal fragilidade da tese: a perda de alunos e de captação no EAD tradicional ainda é muito intensa, e a transição para o formato semipresencial exige adaptação acadêmica, comercial e operacional.

O mercado em geral recebeu os números de forma favorável. As ações SEER3 subiram 5,96% no pregão posterior à divulgação, para R$ 11,55, com analistas destacando a expansão do lucro, do EBITDA e das margens, embora a receita tenha vindo em linha com as projeções. Portanto, o trimestre não foi interpretado como uma história de crescimento acelerado de volume, mas como uma evidência de execução e rentabilidade em um setor que passa por transformação regulatória.

Principais indicadores que chamaram a atenção

A receita líquida alcançou R$ 622,0 milhões no 2T26, crescimento de 5,6% sobre o mesmo período de 2025. O lucro bruto aumentou 7,5%, para R$ 381,8 milhões, enquanto a margem bruta subiu de 60,3% para 61,4%, alta de 1,1 ponto percentual. O EBITDA ajustado atingiu R$ 180,7 milhões, avanço de 10,8%, e a margem EBITDA ajustada chegou a 29,1%, contra 27,7% um ano antes.

O lucro líquido contábil foi de R$ 106,3 milhões, aumento de 30,7%, com margem líquida de 17,1%. No conceito ajustado, o lucro alcançou R$ 115,4 milhões, alta de 33,3%, e a margem ajustada foi de 18,5%. A diferença entre os dois números decorre principalmente de itens não recorrentes, que somaram R$ 9,1 milhões no trimestre. É importante, porém, não interpretar todo o crescimento ajustado como recorrente: a análise deve acompanhar se as despesas extraordinárias realmente diminuirão e se os ganhos operacionais se sustentarão sem novos ajustes.

A geração de caixa foi outro destaque. O fluxo de caixa operacional foi de R$ 81,8 milhões, alta de 47,4% na comparação anual. Depois de investimentos, a geração de caixa operacional líquida alcançou R$ 58,0 milhões, avanço de 68,6%, equivalente a 32,1% do EBITDA ajustado, contra 21,1% no 2T25.

Indicador 2T26 Variação anual
Receita líquida R$ 622,0 mi +5,6%
Lucro bruto R$ 381,8 mi +7,5%
EBITDA ajustado R$ 180,7 mi +10,8%
Margem EBITDA ajustada 29,1% +1,4 p.p.
Lucro líquido contábil R$ 106,3 mi +30,7%
Lucro líquido ajustado R$ 115,4 mi +33,3%
Caixa operacional após capex R$ 58,0 mi +68,6%
Dívida líquida R$ 443,0 mi -31,5%

No lado operacional, a base de alunos de graduação presencial chegou a 195,1 mil, alta de 4,4%. A base de Medicina alcançou 4.424 alunos, crescimento de 5,6%, enquanto as vagas anuais autorizadas permaneceram em 1.001. A participação dos cursos de Saúde na base presencial chegou a 65%, reforçando a importância do mix para a rentabilidade.

O contraponto foi a base de ensino a distância e semipresencial, que recuou 16,9% em relação ao 2T25. No primeiro semestre, a captação combinada dessas modalidades caiu 33,9%; isoladamente, a captação do EAD tradicional recuou 70,2%. A taxa de evasão do conjunto EAD mais semipresencial chegou a 29,2%, aumento de 6,1 pontos percentuais. Esses dados mostram que o crescimento de margem não deve ser confundido com uma operação homogênea: o presencial está compensando, mas a frente digital segue pressionada.

Pontos positivos dos resultados

O primeiro ponto positivo é a expansão de margem com crescimento de receita. A receita avançou 5,6%, mas o EBITDA ajustado cresceu 10,8%, sinal de alavancagem operacional. A companhia afirma que o aumento da ocupação dos campi e da quantidade de alunos por turma ajudou a diluir custos fixos. Essa é uma dinâmica importante em educação presencial: quando a capacidade instalada já existe, cada aluno adicional tende a contribuir mais para o resultado, desde que o ticket e a inadimplência permaneçam sob controle.

O segundo destaque é a qualidade do mix. A receita líquida do ensino presencial cresceu 10,2%, enquanto a receita digital caiu 30,2%. O ticket médio presencial subiu 5,5%, para R$ 881,86, e o ticket médio consolidado avançou 11,4%, para R$ 594,77. A migração da base para modalidades presenciais e para cursos de maior valor agregado aumenta a receita por aluno e pode reduzir evasão e inadimplência. O efeito, entretanto, é positivo apenas se a companhia conseguir manter ocupação, qualidade acadêmica e disciplina de descontos.

A Medicina continua sendo o principal vetor estrutural da tese. Os cursos têm ticket muito superior ao restante do portfólio e elevam as barreiras competitivas por exigirem laboratórios, professores e campos de prática. A Ser mantém 1.001 vagas anuais e já possui 4.424 alunos de Medicina. A maturação dessas vagas deve contribuir para o crescimento nos próximos períodos, embora o ticket médico tenha recuado 2,2% no trimestre, em parte por descontos de pontualidade e por efeitos de campanhas de captação.

O terceiro ponto positivo está no controle de custos e na recuperação de recebíveis. As despesas gerais e administrativas cresceram 2,4%, abaixo da receita, enquanto as despesas de publicidade caíram 14,5%. A provisão para perdas de crédito e perdas efetivas caiu de 9,9% para 9,0% da receita líquida, beneficiada pelo maior peso do presencial e por melhorias na cobrança. A companhia também observou redução de 3,4% na depreciação e amortização e queda de 3,2% nas despesas financeiras.

O quarto destaque é o balanço. A dívida líquida caiu 31,5% em doze meses, de R$ 647,1 milhões para R$ 443,0 milhões, e a relação dívida líquida/EBITDA ajustado dos últimos doze meses recuou de 1,24x para 0,75x. Além disso, a Ser substituiu debêntures com custo médio de CDI mais 2,0% por uma nova emissão a CDI mais 1,1%, reduzindo o custo de capital. Essa operação pode produzir benefício financeiro recorrente nos próximos trimestres.

Pontos de atenção e aspectos negativos

O principal ponto negativo é a deterioração do EAD. A retração de 70,2% na captação do EAD tradicional no primeiro semestre e a queda de 16,9% na base combinada representam mais do que um efeito pontual. Elas indicam que a empresa está em processo de reconstrução de sua oferta digital sob novas regras e em um ambiente competitivo mais difícil. A menor base reduz a diluição de despesas, pode pressionar a receita no curto prazo e exige investimentos para adequar polos, cursos e atividades presenciais.

O novo marco regulatório amplia a necessidade de presencialidade, define critérios para o formato semipresencial e exige maior estrutura de acompanhamento acadêmico. O Ministério da Educação informou que a consulta pública do novo marco tratou de atividades presenciais, docência, polos, mediação pedagógica e suporte aos estudantes. Para a Ser, isso significa que parte da escala e do baixo custo marginal que caracterizavam o EAD precisa ser substituída por uma estrutura mais complexa.

O segundo ponto de atenção é a evasão. Enquanto o índice presencial ficou praticamente estável, em 14,1%, a evasão de EAD e semipresencial subiu para 29,2%. A administração atribui o avanço à queda da captação em ciclos recentes e a uma comunicação financeira mais restritiva. A explicação é plausível, mas o efeito econômico é relevante: uma taxa de evasão elevada aumenta o custo de aquisição por aluno, reduz a previsibilidade da receita e pode limitar o retorno sobre investimentos em polos e tecnologia.

O terceiro risco é a qualidade da receita. O percentual de descontos e bolsas sobre a receita líquida subiu de 44,8% para 48,0%. Embora a empresa tenha elevado o ticket do presencial, a política comercial mais agressiva pode reduzir parte do benefício de preço. No caso de Medicina, o ticket caiu 2,2% no trimestre. Você deve observar se a expansão de margem vem de produtividade genuína ou se está sendo parcialmente sustentada por mudanças temporárias de descontos, campanhas e reconhecimento contábil.

Também merece atenção a conta de recebíveis. Os dias líquidos de recebimento subiram de 105 para 108 dias, principalmente por causa do FIES, cujo prazo médio passou de 235 para 248 dias. A Ser melhorou a provisão de perdas, mas o volume bruto de contas a receber aumentou para R$ 966,3 milhões. Em um cenário macroeconômico mais fraco, inadimplência e renegociações podem voltar a pressionar o caixa.

Por fim, a expansão de Medicina traz risco regulatório e de execução. Parte das vagas em operação está associada a decisões judiciais ainda sem decisão final. Além disso, a companhia precisa manter qualidade acadêmica, laboratórios, professores e campos de prática. A autorização de vagas não garante ocupação plena nem retorno imediato — existe investimento antecipado e risco de o ROIC ficar abaixo do esperado durante a maturação.

Tese de investimento e principais riscos

A tese de investimento em SEER3 combina quatro elementos:

  • A possibilidade de crescimento do presencial e da Medicina, com ticket e margem superiores ao EAD tradicional;
  • Expansão de margem decorrente da ocupação dos campi, da seleção de cursos e da disciplina de despesas;
  • Desalavancagem, que reduz risco financeiro e abre espaço para dividendos, investimentos ou novas iniciativas estratégicas;
  • Possibilidade de reprecificação caso o mercado reconheça que a companhia pode crescer com menos volume e mais rentabilidade.

Em relação a indicadores, temos múltiplo EV/EBITDA de 2,49x e P/L de 5,34x para SEER3, abaixo ou próximo das medianas setoriais apresentadas. Esses múltiplos sugerem uma ação aparentemente barata em relação à rentabilidade atual, mas o desconto pode refletir justamente o risco de transição do EAD, a liquidez da ação, a exposição regional, o risco regulatório de Medicina e a necessidade de provar que as margens são sustentáveis.

Dessa forma, os principais riscos à tese são:

  • Regulatório: regulação desfavorável pode limitar vagas ou exigir investimentos adicionais;
  • Competitividade: a competição com outras empresas pode elevar bolsas e reduzir ticket;
  • Operacional: a queda do EAD pode ser mais longa do que o esperado;
  • Crédito: a inadimplência pode pressionar o caixa;
  • Execução: a expansão de Medicina pode consumir capital antes de gerar retorno.

A tese é positiva, mas depende de acompanhamento trimestral de indicadores operacionais, não apenas de lucro e EBITDA.

O que observar no 3T26

O resultado do 3T26 será divulgado em 11 de novembro de 2026, com teleconferência prevista para 12 de novembro, segundo o calendário oficial de eventos da companhia. Estes são alguns indicadores que estarão no nosso radar:

  • Captação do presencial (especialmente ex-PROUNI): no 1S26, a captação presencial ex-PROUNI ficou praticamente estável, mas a captação total caiu 19,2% devido à redução intencional de vagas do PROUNI. Será importante verificar se a empresa consegue crescer com ticket maior sem sacrificar volume;
  • Base de EAD e semipresencial: o mercado deve procurar sinais de estabilização após a forte queda do primeiro semestre. Uma nova retração relevante pode indicar que a transição regulatória ainda está destruindo demanda; uma estabilização, mesmo com base menor, seria um primeiro sinal de que a nova oferta está encontrando equilíbrio;
  • Evasão: a expectativa mais construtiva seria uma redução da taxa de 29,2% em EAD e semipresencial. Também vale observar se a evasão presencial continua próxima de 14%. Caso o presencial mantenha estabilidade e o digital pare de piorar, a qualidade da receita tende a melhorar;
  • Margem EBITDA ajustada: o 2T26 entregou 29,1%, e você, se investe em SEER3 ou pretende investir, deve avaliar se a empresa mantém esse patamar mesmo em um trimestre com maior sazonalidade comercial. É necessário separar o efeito de descontos, campanhas, publicidade e itens não recorrentes dos ganhos permanentes de ocupação e produtividade.

Por fim, devem ser acompanhados também geração de caixa, capex, contas a receber e dívida líquida. A conversão de 32,1% do EBITDA ajustado em caixa após capex foi boa, mas ainda existe necessidade de investimentos em equipamentos, laboratórios, tecnologia e licenças. A companhia também precisa continuar reduzindo a dívida sem deteriorar a qualidade acadêmica ou limitar o crescimento.

Conclusão

O 2T26 foi um trimestre forte para a Ser Educacional porque confirmou uma melhora ampla: receita em alta, lucro crescendo mais de 30%, expansão de margens, geração de caixa superior e alavancagem em nível confortável. O mercado reagiu positivamente porque a companhia entregou rentabilidade acima do crescimento da receita e mostrou que a reestruturação operacional está produzindo resultados.

A avaliação final, entretanto, deve ser equilibrada. A Ser não está apresentando crescimento uniforme em todas as modalidades. O presencial e a Medicina estão compensando a retração do EAD, mas a queda de captação digital, o aumento da evasão e a pressão regulatória continuam sendo problemas relevantes. A tese de investimento é mais convincente para quem acredita na maturação da Medicina, na estabilização do novo formato semipresencial e na continuidade dos ganhos de eficiência.

Em síntese, SEER3 parece ter melhorado de qualidade operacional e financeira, mas ainda precisa provar a durabilidade desse avanço. Para o 3T26, a pergunta central não será apenas se o lucro continuará crescendo, mas se a Ser conseguirá transformar a atual expansão de margem em um modelo sustentável, com crescimento presencial, digital adaptado à regulação, caixa recorrente e retorno adequado sobre o capital investido.

Economista, especialista em valuation. Professor convidado do Coppead/UFRJ, FGV e Faculdade HUB. É sócio-fundador da ConfianceTec e da Escola de Finanças Aboim.