jul, 2026 Colunistas

Qual o momento certo de sair de um fundo?

Rodrigo Xavier

Talvez você já tenha se deparado com alguma dúvida sobre quais rumos deveria tomar na sua vida.

Por exemplo, será que devo continuar em um emprego seguro, previsível e confortável para arriscar em algo novo com grande potencial?

Eu mesmo vivi isso quando deixei a Anbima para trabalhar na Spiti, empresa que depois se juntou à Finclass, local que amo trabalhar, sou sócio atualmente e estou até hoje.

Passei 13 anos na Anbima, me formei como profissional, conheci pessoas incríveis e fiz amigos que carrego para a vida. Porém, entretanto, todavia…

Dadas as pretensões que eu tinha para a minha carreira e a vontade de experimentar novos ambientes, tive que tomar uma decisão difícil: sair de um lugar onde estava estabilizado e tinha a confiança de todos.

Não é fácil. Seus amigos e familiares vão te alertar dos riscos, você vai sentir medo e possivelmente terá alguns julgamentos, mas há momentos na vida em que precisamos fazer o que tem que ser feito.

Eu costumo brincar com pessoas mais próximas que por vezes vale a pena arriscar para conhecer o extraordinário, então fiz jus às minhas palavras.

Se minha antiga empresa fosse ruim, não me oferecesse oportunidades de crescimento nem perspectivas de futuro, a escolha seria mais óbvia. Mas não era esse o meu caso, e talvez seja justamente aí que está o ponto mais interessante da analogia.

No mercado de fundos, o investidor pode enfrentar um dilema parecido. A analogia funciona porque o conforto muitas vezes é o maior inimigo das boas decisões, tanto na carreira quanto nos investimentos.

Um fundo às vezes pode ter certa estabilidade nas oscilações, mas não entregar o que prometeu quando você entrou, sem contar aqueles casos em que as perdas são de fato relevantes.

Para tomar uma decisão correta sobre se manter investido num fundo ou resgatá-lo, é necessário analisar uma série de fatores. Em linhas gerais, existem sinais que pedem atenção redobrada e que podem indicar que é hora de rever a posição.

Uma mudança relevante na equipe de gestão, especialmente a saída de pessoas-chave que eram o principal motivo da sua alocação, é um dos mais importantes.

Perda de consistência de performance em janelas longas, e não apenas em um período mais curto ruim, também merece análise cuidadosa.

Desvio de mandato, quando o fundo começa a operar de forma diferente do que foi proposto originalmente, é outro sinal de alerta.

Deterioração dos processos internos da gestora, que muitas vezes só aparece após conversas com o time ou leitura atenta das cartas de gestão, pode ser um indicativo silencioso, mas muito relevante também.

Há uma diferença crucial entre sair na hora certa e sair por impulso.

Assim como quem pede demissão nas primeiras dificuldades pode se arrepender, o investidor que resgata um fundo após um período adverso pode estar cometendo um grande erro.

A decisão precisa ser baseada em tendência e perspectiva de futuro, não em episódios pontuais. Uma boa análise observa o que mudou na estrutura, não apenas para o resultado do período.

O risco de ficar em um investimento simplesmente por inércia é real e costuma ser subestimado. É extremamente comum ouvir investidores dizendo que não querem sair no prejuízo do fundo X ou Y, e isso pode ser uma forma bem equivocada de pensar.

Uma pergunta mais útil seria: “Se eu tivesse que montar minha carteira de fundos hoje do zero, eu compraria este fundo?” Se a resposta for não, você já tem sua resposta.

No final, o que separa uma saída coerente de uma saída precipitada é exatamente a clareza de diagnóstico, paciência para esperar a evidência e coragem para agir quando os sinais são inequívocos.

Um grande abraço e bons investimentos.

*Este conteúdo foi produzido de forma independente por seu autor e publicado sem qualquer alteração pelo site.

Especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass e analista CNPI. É bacharel em Economia com pós-graduação em Mercados Financeiros, com passagens profissionais pela CDHU e Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos.