set, 2026 Colunistas

Não compre Bitcoin

Fabrício Tota

Por Fabrício Tota

Antes de começar, um oi. Esta é minha primeira coluna aqui no Investimentos.com.br, então me apresento: sou Fabrício Tota, VP de Negócios Cripto do Mercado Bitcoin. Comecei a investir e pesquisar cripto em 2013, ainda por conta própria. Depois de quase vinte anos no mercado financeiro tradicional, cheguei ao MB em 2018. Escrevo há alguns anos sobre o mundo cripto, e a proposta aqui é a mesma de sempre: falar de cripto sem hype e sem catastrofismo, com números na mesa e sem esconder de onde eu venho. Sim, trabalho numa corretora. Sim, sou apaixonado pelo universo cripto.

Não compre Bitcoin.

Pelo menos não porque ele acabou de subir quase 20% em uma semana. Não compre porque seu amigo mandou um print no grupo do WhatsApp dizendo “eu avisei!”. Não compre porque as manchetes voltaram, porque bateu aquela sensação incômoda de que todo mundo está ganhando dinheiro menos você, ou porque desta vez “parece que vai”.

O Bitcoin bateu US$ 81 mil esta semana e, enquanto escrevo essa coluna, opera perto dos US$ 78 mil. É exatamente nesses momentos que o varejo reaparece.

No Mercado Bitcoin, vimos isso acontecer de novo nos últimos dias. E não digo como crítica. É natural, faz parte do comportamento humano. Durante meses o ativo cai, anda de lado, some das conversas e ninguém quer saber. Basta subir 20% para a curiosidade voltar.

Não há absolutamente nada de errado nisso.

Às vezes é justamente um rali que dá o empurrão para alguém finalmente olhar com mais atenção um ativo que observa há anos. Se for o seu caso, compre um pouco. Conheça. Acompanhe. Coloque a pele em jogo. Ter R$ 1.000 investidos ensina mais sobre volatilidade do que ler dez artigos sobre ela.

Só não confunda esse primeiro passo com uma estratégia.

Não compre Bitcoin porque ele subiu. Compre porque você decidiu quanto quer ter.

Não é mais uma aposta

Talvez você esteja há anos ensaiando entrar. Primeiro achava Bitcoin esquisito. Depois faltava regulação. Depois tinha medo das corretoras. Depois vieram juros altos, quedas fortes, eleição americana, guerras, tarifas.

Pois bem. A regulação brasileira chegou: desde fevereiro, o Banco Central regula, autoriza e supervisiona as prestadoras de serviços de ativos virtuais, com regras específicas sobre governança, proteção do cliente, controles e, principalmente, custódia. O mercado institucional chegou. Os ETFs chegaram nos EUA. Bancos e gestoras chegaram.

E você?

Quando o Mercado Bitcoin foi fundado, em 2013, comprar Bitcoin era outra coisa. Havia uma assimetria quase absurda: o potencial era gigantesco, mas perguntas muito básicas seguiam sem resposta. Bitcoin sobreviveria? Haveria liquidez? Governos conseguiriam simplesmente acabar com ele? Alguém além de um punhado de entusiastas enxergaria valor ali?

É preciso admitir: muita coisa podia dar errado.

Treze anos depois, Bitcoin continua sendo um ativo assimétrico, e eu continuo achando que o potencial compensa o risco. Mas seria intelectualmente desonesto dizer que a assimetria é a mesma de 2013.

Não é.

E isso não é ruim. Parte daquele retorno potencial extraordinário foi trocada por algo que todo investidor deveria valorizar: menos incerteza existencial.

Por isso também acho que chegou a hora de aposentar uma frase que ouvi durante anos: “vou colocar um troquinho em Bitcoin para ver o que acontece”.

Não.

Isso fazia sentido quando cripto era quase um experimento. Hoje estamos falando de uma classe de ativos global, líquida, disponível 24 horas por dia e progressivamente incorporada ao sistema financeiro tradicional.

Você não precisa colocar sua vida financeira em Bitcoin. Mas, se decidiu investir, trate esse ativo como investimento.

Não compre um troquinho para ver o que acontece. Compre uma posição que faça sentido dentro do seu patrimônio.

Primeiro quanto, depois o quê

A pergunta deixou de ser “será que compro Bitcoin?”.

A pergunta é: quanto?

Eu gosto de simplificar. Se alguém me perguntasse hoje, usaria uma régua bem simples como ponto de partida:

– 5% do patrimônio investível para um perfil conservador

– 10% para um perfil moderado

– 15% para um perfil arrojado

Não são números mágicos, e isso aqui não é uma recomendação de investimento que funciona para todo mundo. É o ponto de partida que eu uso nesse tipo de debate, e cada pessoa tem patrimônio, renda, horizonte e tolerância a risco diferentes.

Bitcoin é para todos, mas não precisa ocupar o mesmo espaço na carteira de todos.

Cinco por cento já permitem participar de uma valorização relevante sem transformar a volatilidade do Bitcoin na volatilidade da sua vida. Quinze por cento já fazem diferença de verdade no resultado da carteira, para cima ou para baixo.

Primeiro você determina seu orçamento de risco. Só depois escolhe os ativos.

Fazer o contrário é a receita clássica para descobrir, no meio de uma queda de 30%, que você tinha muito mais cripto do que imaginava suportar.

E, por ora, fico só no Bitcoin. Ethereum, stablecoins e o resto da carteira cripto ficam para uma próxima conversa. Começar pelo começo já é bastante coisa.

Eu compraria hoje. E amanhã também

A próxima pergunta inevitável: depois dessa alta toda, devo esperar uma correção?

Sinceramente? Não sei. E você também não sabe. A verdade é que ninguém sabe.

Por isso, se estivesse começando, eu usaria DCA. O nome parece sofisticado, mas a ideia é quase banal e talvez familiar se você já investe em algum outro ativo de renda variável: em vez de tentar adivinhar o melhor dia, você compra um pouco periodicamente. Todo mês, toda semana, no intervalo que fizer sentido pra você. 

Chegou o seu dia de comprar? Compra.

Preço subiu? Compra. Preço caiu? Compra. Mercado eufórico? Compra. Manchete apocalíptica? Compra.

É trocar uma habilidade que ninguém tem, de prever o mercado consistentemente, por uma que qualquer investidor pode desenvolver: disciplina.

Escrevi algo muito parecido em fevereiro deste ano, quando o Bitcoin tinha desabado, o índice de medo estava perto do fundo e todo mundo perguntava se aquilo era o fim. Naquele momento, o argumento era não vender por pânico. Hoje é não comprar por euforia. No fundo, é o mesmo argumento. Só mudou de lado.

Faço isso, inclusive, com meus filhos. Metade da mesada deles é recebida em Bitcoin, todos os meses, sem tentar decidir se “agora está caro” ou se “seria melhor esperar”. Eles acumulam satoshis periodicamente, em autocustódia.

Talvez a melhor aula de educação financeira que eu possa dar a eles não seja descobrir qual investimento rende mais. É entender cedo que patrimônio se constrói com tempo, regularidade e disciplina.

Não compre tentando acertar o fundo. Compre todo mês, sem olhar o preço.

E onde guardar?

Aqui existe uma discussão que o universo cripto transformou quase em guerra religiosa: *not your keys, not your coins* (“se as chaves não são suas, o ativo não é seu”, em tradução livre).

Concordo com o princípio. Bitcoin nasceu, entre outras coisas, para permitir que uma pessoa tenha controle direto sobre seu patrimônio sem depender da autorização de um intermediário. Autocustódia importa. Soberania individual importa. Vou brigar com todas as forças para que qualquer pessoa possa sacar seus criptoativos para uma carteira própria, a qualquer momento, sem burocracia desnecessária.

Isso não significa que todo iniciante precise comprar Bitcoin numa segunda e na terça decorar doze palavras, comprar uma hardware wallet, fazer o backup, ter um plano de sucessão para seus criptoativos e assumir sozinho toda a responsabilidade pela segurança do próprio patrimônio.

Autocustódia também traz risco. Perdeu sua chave? Não existe “esqueci minha senha”. Transferiu para o endereço errado? Não há gerente para ligar e pedir estorno. Caiu em um golpe de engenharia social? Na maioria dos casos, a transação é irreversível.

Existe valor real em ter um intermediário que resolva essa complexidade. E aqui vale um princípio que acho fundamental para a próxima fase do mercado: você não precisa entender a infraestrutura para usufruir dela.

Você sabe exatamente o que acontece, tecnicamente, quando sua corretora aluga suas ações? Conhece no detalhe a infraestrutura que possibilita que você compre um título no Tesouro Direto?

Provavelmente não. E tudo bem.

A função de uma boa instituição financeira é esconder a complexidade sem esconder os riscos.

Para quem está começando, uma plataforma séria e regulada costuma ser o caminho mais simples. Conforme patrimônio e conhecimento crescem, a autocustódia pode, e em muitos casos deve, entrar na estratégia. As duas coisas não são contraditórias. Liberdade é justamente poder escolher.

 Três coisas que eu não faria

  • Não usaria alavancagem. Bitcoin já é suficientemente volátil sem você pegar dinheiro emprestado para multiplicar essa volatilidade. Antes de pensar em ganhar mais, sobreviva.
  • Não começaria pela moedinha da vez. Você não precisa de quinze criptoativos para estar diversificado, muito menos daquela memecoin que alguém jura ser “o próximo Bitcoin”. Comece pelo simples. Sofistique quando, e se, tiver conhecimento e apetite para isso.
  • Não buscaria rentabilidade que eu não consigo explicar. Se alguém oferece retorno espetacular em qualquer ativo e você não sabe responder de onde vem aquele dinheiro, há boa chance de o risco estar apenas escondido.

E uma quarta…

Ficar de fora.

Talvez o Bitcoin caia amanhã. Pode cair 10%, 20%, 30%. Quem já passou alguns ciclos por aqui sabe que isso vem no pacote.

Mas começar a investir não é acertar o menor preço do ano. É construir uma posição compatível com sua carteira, comprar periodicamente, entender o ativo e deixar o tempo trabalhar a seu favor.

Se você estava esperando coragem, talvez o rali tenha servido para isso. Se estava esperando regulação, ela chegou. Se estava esperando Wall Street, ela chegou. Se estava esperando o Bitcoin deixar de ser uma aposta excêntrica da internet, essa discussão também ficou para trás.

Então, uma última vez, ao contrário:

Não deixe de comprar porque está esperando o momento perfeito para isso. Compre porque esse momento simplesmente não existe.

Depois de mais de uma década acompanhando esse mercado, sigo achando que o maior risco não é comprar Bitcoin hoje e vê-lo cair amanhã.

O maior risco é passar os próximos dez anos sem ter nenhum.

*Este conteúdo foi produzido de forma independente por seu autor e publicado sem qualquer alteração ou edição pelo site.

Fabrício Tota é Vice-Presidente de Negócios Cripto do MB, a maior plataforma de ativos digitais da América Latina. Desde 2018, atua na linha de frente da inovação em criptoativos no Brasil, trabalhando com ativos digitais, tokenização, stablecoins e infraestrutura blockchain. Atualmente, lidera iniciativas de parcerias estratégicas, desenvolvimento de produtos cripto e inovação aberta no MB. Fabrício também é membro do Conselho da BRL1, stablecoin lastreada em reais, colunista do Estadão E-Investidor e integrante do Conselho Editorial do Portal do Bitcoin.