ago, 2026 Ações

A Ditadura do fluxo estrangeiro

Evandro Medeiros

O BTG Pactual divulgou um dos melhores resultados da sua história. Lucro ajustado de R$ 5,1 bilhões, alta de 23% em um ano, receita recorde e um ROE de 26,7%. Rentabilidade dessas você encontra em pouquíssimos bancos no mundo. No dia seguinte, a ação caiu.

E hoje, enquanto escrevo, a VAMO3 cai 2%, após divulgar de um resultado bastante positivo, com crescimento da receita ano a ano, enquanto desalavanca e continua aumentando a taxa de ocupação.

E não somente essas ações que citei têm sofrido no mercado atual. As que entregaram bons resultados, caíram. Resultados ruins, mas esperados? Também caíram. Se você tentar explicar os dois movimentos olhando para as empresas, vai enlouquecer. Porque não é sobre as empresas.

Fonte: B3 e Economatica. Elaboração: Finclass

O que está acontecendo é mais simples: o fluxo estrangeiro está indo embora.

No primeiro trimestre, o estrangeiro despejou R$ 53,4 bilhões na , foi esse dinheiro que sustentou a alta que todos comemoramos. Em maio, virou de vez, com a saída de R$ 14,9 bilhões, a pior do ano. Junho tirou outros R$ 7,8 bilhões, julho ensaiou uma volta timidamente positiva, e agosto retomou a sangria com força, R$ 7,2 bilhões em apenas seis pregões. Desde abril, são R$ 24,2 bilhões que saíram do país.

Fonte: B3, Dados de Mercado. Elaboração: Finclass.

São seis pregões consecutivos de queda, o IBOV voltou para a casa dos 167 mil pontos, o pior nível em sete meses. E como o investidor estrangeiro responde por mais de 60% do volume negociado na bolsa brasileira, quando ele decide reduzir exposição em “Brasil”, ele não reduz exposição em “empresa boa” ou “empresa ruim”, já que de forma abrangente não está preocupado com os fundamentos das empresas.

Não existe explicação micro para a queda de cada ativo, mas existe explicação para o fluxo. As duas coisas convivem, procurar o motivo para PRIO3 ter caído mais de 3% ontem, dia 11, após lançar um resultado fenomenal é procurar sentido onde não há. Já entender por que o dinheiro está saindo do país é perfeitamente possível.

O Copom cortou a Selic para 14%, mas deixou claro que não está confortável para acelerar. Quando você tira da mesa a possibilidade de uma sequência relevante de cortes, tira também parte do prêmio que estava embutido nos ativos de risco.

Na terça-feira, o JPMorgan rebaixou o Brasil de overweight para neutro, posição que o banco mantinha desde março de 2025, e reduziu seu alvo para o Ibovespa de 190 mil para 185 mil pontos. Os argumentos: o ciclo de queda de juros está perto do fim, o crescimento desacelera, o crédito começa a se deteriorar, o fiscal continua incomodando e estamos entrando de vez no período eleitoral.

Não significa que todo estrangeiro vai vender tudo amanhã, significa que a percepção mudou e o apetite diminuiu.

Agora repare no que esse mesmo investidor fez nos últimos meses. Ele comprou bolsa brasileira com entusiasmo acima dos 195 mil pontos. Hoje vende com desespero abaixo dos 170 mil.

Existe um livro que eu recomendo muitíssimo para quem quer entender de verdade a filosofia do Value Investing que se chama O Portfólio de Warren Buffett, de Robert Hagstrom, e o ponto central do livro é justamente o que este momento exige. Buffett construiu sua fortuna carregando poucas empresas por muito tempo, e ele foi explícito sobre isso: quem não suporta ver uma posição cair 50% não deveria estar na bolsa. Não porque cair 50% seja bom, mas porque é inevitável e porque a cotação de curto prazo não carrega quase nenhuma informação sobre o valor intrínseco de um negócio.

O mercado leva tempo para reconhecer valor. O risco não está na volatilidade, mas sim em pagar caro por um ativo ruim.

Neste caso o caminho claro e mais recompensador, é reconhecer que o mercado está exagerando no pessimismo e que, eventualmente voltará a exagerar no otimismo. Desta forma, eu seguirei comprando.

Os deixo por aqui com desejos de que invistam com sabedoria.

*Este conteúdo foi produzido de forma independente por seu autor e publicado sem qualquer alteração ou edição pelo site.

Analista CNPI, economista e especialista em mercado acionário da Finclass. Começou sua carreira cobrindo o mercado brasileiro e, posteriormente, ampliou seu escopo para os mercados globais, com foco especial em ativos dos Estados Unidos e da Argentina, países onde também teve a oportunidade de residir.