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Análise dos resultados do 2T26 de RD Saúde (RADL3): crescimento forte, caixa em recuperação e o teste de sustentabilidade no 3T26

Luiz Guilherme Aboim

A RD Saúde (RADL3) apresentou um segundo trimestre de 2026 predominantemente positivo. O resultado combinou crescimento de receita, ganho de participação de mercado, aceleração do canal digital, recuperação de rentabilidade e forte geração de caixa.

A leitura mais adequada, contudo, não é simplesmente chamar o trimestre de “forte” e encerrar a análise: é necessário distinguir o desempenho das operações continuadas dos efeitos da venda da 4Bio, entender a qualidade do capital de giro e verificar se a companhia consegue preservar o ritmo quando a comparação com 2025 ficar mais exigente.

No 2T26, a receita bruta chegou a R$ 12,778 bilhões, alta de 18,3% na comparação anual. As vendas em mesmas lojas cresceram 12,5%, enquanto as lojas maduras avançaram 10,9%, muito acima do reajuste médio de 2,8% autorizado pela CMED. O EBITDA ajustado atingiu R$ 1,017 bilhão, crescimento de 17,9%, com margem estável em 8,0%. Excluindo a 4Bio de ambas as bases, o lucro líquido ajustado foi de R$ 424,4 milhões, alta de 23,4%, com margem de 3,3%.

A reação dos analistas foi, em geral, construtiva, destacando o trimestre como mais um período sólido, em que as vendas mesmas lojas maduras superaram suas expectativas e reiterou visão positiva sobre a ação. Notícias de mercado também ressaltaram o avanço do EBITDA, a desalavancagem e a reversão do consumo de caixa observado no 2T25.

O ponto central, portanto, é que a RD entregou crescimento com rentabilidade estável. Assim, o desafio para você é saber quanto desse desempenho pode continuar em um ambiente de preços menores para GLP-1, juros ainda elevados e expansão acelerada da rede.

Resumo dos principais indicadores

A tabela abaixo consolida os indicadores mais relevantes do trimestre. Sempre que possível, a comparação é feita em base homogênea, excluindo a 4Bio das operações continuadas. O lucro ajustado consolidado, por sua vez, inclui um mês da 4Bio no 2T26 e três meses no 2T25, razão pela qual sua leitura deve ser feita com cautela.

Indicador 2T26 Variação / comparação
Receita bruta R$ 12,778 bi +18,3% a/a
Vendas mesmas lojas +12,5% -1,9 p.p. t/t
Lojas maduras +10,9% +8,1 p.p. vs. CMED
Market share 19,7% +1,7 p.p. a/a
Receita digital R$ 3,938 bi +52,2% a/a; 31,0% do varejo
EBITDA ajustado R$ 1,017 bi +17,9% a/a; margem 8,0%
Lucro líquido ajustado ex-4Bio R$ 424,4 mi +23,4% a/a; margem 3,3%
Fluxo de caixa livre R$ 550,0 mi vs. consumo de R$ 60,8 mi no 2T25
Dívida líquida ajustada R$ 3,0 bi 0,8x EBITDA LTM
Rede 3.687 farmácias 76 aberturas e 3 fechamentos

Pontos positivos dos resultados

Em nossa análise, destacamos os seguintes pontos dos resultados de RD Saúde:

  1. Crescimento orgânico acima da inflação e ganho de mercado. O dado mais importante talvez não seja a receita consolidada, mas a qualidade do crescimento. As lojas maduras cresceram 10,9%, ou 8,1 pontos percentuais acima da CMED, e 6,3 pontos acima do IPCA acumulado em 12 meses. Isso indica expansão real de volume, mix e/ou participação, e não apenas repasse de preços. A RD também ganhou 1,7 ponto percentual de market share no Brasil, chegando a 19,7%, com avanço em todas as regiões. A companhia afirma que os ganhos permanecem mesmo quando se exclui a influência dos GLP-1, o que reduz o risco de interpretar o resultado como dependente de uma única categoria;
  2. Digitalização com escala e integração física. A receita digital cresceu 52,2%, alcançando R$ 3,938 bilhões e 31% das vendas do varejo. O aplicativo respondeu por 83% das vendas digitais, e 96% dos pedidos foram entregues ou coletados em menos de 60 minutos. A combinação de 3,7 mil farmácias, estoque próximo do consumidor e canais proprietários cria uma proposta difícil de replicar por plataformas exclusivamente digitais. A própria administração tratou o digital como uma “fortaleza”, pois a capilaridade física melhora a velocidade, o clique-e-retire e a disponibilidade de produtos;
  3. Preservação da margem EBITDA. A margem bruta recuou apenas 0,1 ponto percentual, para 28,9%, mesmo com maior participação de GLP-1, menor reajuste da CMED e efeitos não caixa do ajuste a valor presente. Ganhos comerciais e menor pressão de perdas de estoque compensaram grande parte dessas dificuldades. Nas despesas, houve pressão em pessoal, last mile e serviços de terceiros, mas as despesas gerais e administrativas diluíram 0,3 ponto percentual, para 2,4% da receita. O resultado foi EBITDA de R$ 1,017 bilhão, com margem de 8%, acima da estimativa da XP em 6%;
  4. Redução de despesas financeiras e expansão do lucro ajustado ex-4Bio. As despesas financeiras líquidas ajustadas caíram de R$ 204,0 milhões para R$ 197,3 milhões e passaram a representar 1,5% da receita, uma diluição de 0,4 ponto percentual. Com isso, o lucro antes do imposto cresceu 33,4%, para R$ 542,7 milhões. Na visão comparável, o lucro líquido ajustado ex-4Bio cresceu 23,4%, acima do crescimento da receita. É um sinal de que o benefício da recuperação operacional começa a chegar ao resultado final, embora a alíquota efetiva tenha subido para 21,8% no trimestre por menor proporção de juros sobre capital próprio e efeitos pontuais;
  5. Forte geração de caixa e desalavancagem. O fluxo de caixa livre foi de R$ 550 milhões, ante consumo de R$ 60,8 milhões no 2T25, mesmo após R$ 329,4 milhões de investimentos. O ciclo de caixa caiu para 51,7 dias, redução de 10,7 dias em um ano. A dívida líquida ajustada terminou em R$ 3,0 bilhões, e a alavancagem recuou para 0,8 vez o EBITDA dos últimos 12 meses. A geração total de R$ 1,190 bilhão incluiu efeitos da transação da 4Bio; por isso, a geração orgânica do core deve ser analisada separadamente, sem desmerecer a melhora estrutural do balanço.

Pontos de atenção e aspectos negativos

Em contrapartida, nossa avaliação também encontrou alguns pontos de alerta:

  1. Desaceleração sequencial e comparação mais difícil. O crescimento de mesmas lojas caiu de 14,3% no 4T25 para 12,5% no 2T26, enquanto as lojas maduras recuaram de 12,8% para 10,9% no mesmo intervalo. A desaceleração era esperada, pois a base de comparação passou a incorporar o forte lançamento e a rápida expansão do Mounjaro no ano anterior. Ainda assim, para o mercado, o número decisivo será saber se o crescimento estabiliza em patamar elevado ou se continua convergindo para níveis mais próximos da inflação;
  2. Mix de GLP-1 favorece receita, mas pode pressionar margem. Medicamentos de marca cresceram 24,3%, puxados principalmente por GLP-1, que representou cerca de 12% das vendas. A administração informou que a margem da categoria permaneceu em torno de 17% a 18%, mas também reconheceu queda de 22% no preço médio da semaglutida no trimestre, parcialmente compensada por volume. A tirzepatida mostrou maior proteção competitiva, enquanto novos produtos e versões similares tendem a ampliar a oferta de semaglutida. A consequência é ambígua: o mercado total pode crescer muito, mas a receita e o lucro por unidade podem cair. Você deve acompanhar não somente o faturamento de GLP-1, mas preço médio, volume, margem e participação de cada molécula;
  3. Capital de giro melhorou, porémm parte da alta do caixa não é repetível na mesma intensidade. A redução do ciclo de caixa foi ajudada pelo aumento de 10,9 dias no prazo de fornecedores, pela redução de 1,2 dia nos estoques e pelos efeitos do fim do regime de ICMS-ST em São Paulo. A administração considera parte desse ganho estrutural, mas prazos com fornecedores podem variar e o efeito de transição tributária não deve ser projetado como uma fonte infinita de melhoria. Além disso, a geração total de caixa incluiu recebíveis da venda da 4Bio. O indicador mais importante no 3T26 será o fluxo de caixa livre ex-4Bio e sua conversão em relação ao EBITDA;
  4. Despesas com vendas e retorno da expansão. As despesas com vendas subiram para 18,6% da receita, 0,2 ponto acima do ano anterior, pressionadas por pessoal, benefícios aos funcionários, entregas e serviços terceirizados. A companhia manteve a meta de 330 a 350 aberturas brutas em 2026 e já tinha 25% da rede em maturação ao final do trimestre. Essa expansão aumenta o potencial de receita, mas requer capital, contratação, abastecimento e disciplina na escolha de pontos. O risco é que a rede cresça mais rápido do que a produtividade, comprimindo margem e ROIC (retorno sobre o capital investido) antes da maturação das unidades;
  5. Valuation elevado e sensibilidade à frustração. A tese é de qualidade, mas o preço importa. O painel anexado destaca que os múltiplos da RD Saúde negociam acima da mediana dos pares, o que significa que o mercado já atribui valor a crescimento, ganho de participação, maturação das lojas e preservação de retornos elevados. Quando uma empresa é precificada como compounder, resultados positivos em termos absolutos podem não ser suficientes: basta uma desaceleração abaixo do esperado ou uma revisão de margem para o múltiplo sofrer. Esse é o principal risco para os acionistas, mais do que a solvência do negócio.

Tese de investimento e principais riscos

A tese de investimento da RD Saúde se apoia em quatro pilares:

  • Escala: a companhia encerrou o trimestre com 3.687 farmácias, presença em 684 municípios e 16 centros de distribuição, criando poder de compra, disponibilidade e proximidade.
  • Execução de lojas: o crescimento de maduras acima da inflação e o baixo número de fechamentos durante a maturação sugerem que a expansão está mais assertiva;
  • Modelo omnicanal, em que a rede física funciona como infraestrutura para o digital;
  • Possibilidade de ampliar a relação com o consumidor para além da venda de medicamentos, com serviços farmacêuticos, vacinação, fidelidade via Stix e jornadas de saúde associadas a GLP-1.

A tese também contempla um componente de consolidação setorial. Juros altos e maior exigência operacional podem favorecer grandes redes em relação a independentes, especialmente em tecnologia, logística, negociação com fornecedores e capacidade de oferecer medicamentos de maior demanda. A venda da 4Bio reforça a concentração no varejo principal e simplifica a estrutura, enquanto a aquisição integral da Stix fortalece dados e fidelização.

No entanto, esses vetores não eliminam os riscos de execução. Concorrência de grandes redes, marketplaces e farmácias digitais pode elevar promoções e custo de aquisição de clientes; mudanças regulatórias ou tributárias podem afetar preços e capital de giro; e a sensibilidade da dívida bruta a juros permanece relevante, ainda que a alavancagem ajustada esteja baixa.

O risco de GLP-1 merece tratamento específico. A oportunidade é grande, pois a penetração ainda é baixa e a administração vê migração do mercado informal para canais regulados, além de novos princípios ativos e formas farmacêuticas. Por outro lado, semaglutida já mostrou pressão de preço, a categoria tem margem menor e há riscos de abastecimento, regulação, segurança sanitária e competição. A tese não deve depender de que GLP-1 mantenha indefinidamente a margem atual: sua sustentabilidade precisa vir de volume, participação, serviços complementares e crescimento de outras categorias.

O que acompanhar nos resultados do 3T26

Como a RD Saúde não apresentou um guidance numérico detalhado para receita ou EBITDA do 3T26, a avaliação deve ser construída sobre indicadores antecedentes e não sobre uma meta oficial. Entre os principais focos, destacamos:

  • O primeiro será o crescimento de mesmas lojas e, sobretudo, de lojas maduras. Um resultado ainda próximo de dois dígitos, acima da CMED e do IPCA, confirmaria que o ganho de participação é estrutural; uma queda acentuada sugeriria normalização mais rápida ou maior pressão competitiva;
  • O segundo será o market share sem o efeito de GLP-1. O ganho de 1,7 ponto percentual no 2T26 foi expressivo, mas a administração reconheceu que a contribuição dos medicamentos pode diminuir à medida que a categoria cresce e que a comparação se normaliza. Portanto, você deve observar se a RD continua ganhando participação em genéricos, OTC, perfumaria e nas regiões fora de São Paulo. A aceleração da perfumaria no 2T26 foi um sinal positivo, mas precisa ser confirmada;
  • O terceiro foco será a economia do canal digital. Receita digital acima do crescimento total, penetração próxima ou superior a 31%, participação do aplicativo, NPS digital e prazo de entrega ajudarão a testar se o digital é realmente uma vantagem competitiva ou apenas uma atividade de alto crescimento com custos elevados. Também será importante acompanhar a despesa de last mile: crescimento digital só cria valor se a margem de contribuição e a recorrência do cliente melhorarem;
  • O quarto será a margem. O cenário positivo seria margem bruta estável, com a pressão de GLP-1 compensada por ganhos comerciais, e despesas gerais continuando a diluir. O cenário negativo seria a combinação de preços menores em semaglutida, mais promoções em perfumaria e aumento de despesas com pessoal e logística. A administração sinalizou que os próximos ganhos devem vir mais de eficiência e diluição de SG&A do que de grande expansão da margem bruta; o 3T26 será um teste dessa alavanca;
  • O quinto e último: será necessário separar caixa recorrente de caixa extraordinário. Deve-se acompanhar o fluxo de caixa livre ex-4Bio, estoque, prazo de fornecedores, recebíveis, CAPEX e a evolução da dívida líquida ajustada. A manutenção de alavancagem em torno de 0,8x, sem sacrificar expansão e tecnologia, reforçaria a flexibilidade financeira. Já uma reversão do capital de giro ou uma aceleração do CAPEX sem melhora proporcional do EBITDA seria um sinal de atenção.

Conclusão

O 2T26 reforçou a imagem da RD Saúde como uma empresa capaz de crescer com consistência, capturar participação e preservar rentabilidade mesmo em um ambiente competitivo. Receita bruta de R$ 12,8 bilhões, EBITDA ajustado de R$ 1,017 bilhão, margem de 8%, market share de 19,7%, digital crescendo 52,2% e fluxo de caixa livre de R$ 550 milhões formam um conjunto operacional forte. A melhora do lucro ex-4Bio e a queda da alavancagem também ajudam a reduzir preocupações sobre balanço e capacidade de investimento.

A avaliação final, contudo, deve ser equilibrada. O trimestre não elimina a desaceleração sequencial, a pressão de preços em semaglutida, a margem menor de GLP-1, os custos de expansão e a dependência de ganhos de capital de giro. Tampouco transforma automaticamente o preço da ação em oportunidade: se o valuation embute crescimento elevado, a companhia precisa continuar entregando crescimento real, ganhos de market share, maturação rentável das lojas e disciplina de despesas.

Para o 3T26, a melhor leitura será aquela que combinar quatro perguntas:

  • O crescimento de lojas maduras continua acima da inflação?
  • O market share avança sem depender de GLP-1?
  • A margem EBITDA permanece próxima de 8%?
  • O caixa livre continua forte depois de separar efeitos da 4Bio?

Se as respostas forem majoritariamente afirmativas, o 2T26 terá sido não apenas um bom trimestre, mas evidência de uma recuperação operacional sustentável. Se houver deterioração conjunta de vendas, margem e conversão de caixa, o mercado poderá revisar as expectativas rapidamente, especialmente porque a qualidade da empresa já é amplamente reconhecida no preço.

Economista, especialista em valuation. Professor convidado do Coppead/UFRJ, FGV e Faculdade HUB. É sócio-fundador da ConfianceTec e da Escola de Finanças Aboim.