A computação quântica ainda pode parecer um tema distante. Mas a verdade é que ela já começou a mudar o comportamento de governos, empresas e especialistas em segurança digital.
A pergunta que está no ar é: quem estará preparado quando ela chegar?
Isso porque, a computação quântica não ameaça apenas o BTC. Ela representa um risco para tudo aquilo que depende de criptografia: governos, bancos centrais, sistema financeiro e até aplicativos de mensagens. No final das contas, toda a infraestrutura digital do planeta.
A própria Agência de Segurança Nacional dos EUA já está se adaptando. Todos os equipamentos que forem adquiridos a partir de 1º de janeiro de 2027, precisarão ser compatíveis com as normas de segurança baseadas em criptografia pós-quântica. E todo o sistema do governo precisará se adequar até 2035.
Isso mostra que o risco ainda pode estar distante, e também nos dá uma boa referência de quando deve acontecer.
O computador quântico vai surgir de repente?
Provavelmente não.
A tendência é que essa evolução aconteça de forma gradual. Para causar impacto significativo, pelo menos no Bitcoin, esse computador ainda precisaria evoluir 100 mil vezes em relação ao estágio atual.
Parece muito, mas existe um detalhe importante: o avanço tecnológico costuma acontecer de forma exponencial, não linear. Conforme algumas expectativas analisadas, o prazo fica entre entre 2028 e 2035.
Ou seja: ainda há tempo. Mas todos já precisam ir se preparando para essa transição.
Alguém poderia minerar todos os Bitcoins restantes?
Não.
O algoritmo de mineração do Bitcoin utiliza o SHA-256, e esse não é o principal ponto fraco diante da computação quântica.
Mesmo com uma máquina muito superior, a rede ainda permaneceria bastante segura. No máximo, poderia haver uma aceleração temporária na mineração. Pois o próprio protocolo do Bitcoin ajusta sua dificuldade aproximadamente a cada 15 dias.
Na prática, isso significa que qualquer vantagem seria temporária e causaria um impacto mínimo.
Seria possível um ataque de 51%?
Tecnicamente, é possível imaginar esse cenário. Mas, na prática, ele não seria eficiente.
Um ataque de 51% acontece quando alguém controla mais da metade do poder computacional da rede e, com isso, poderia tentar reverter transações ou priorizar operações próprias.
O problema é que, para isso ter efeito duradouro, seria necessário criar uma blockchain paralela, ou seja, um fork. Foi isso que aconteceu em casos como Bitcoin Cash, Bitcoin Gold e Ethereum Classic.
Na prática, esse novo “Bitcoin” precisaria conquistar usuários, confiança e adoção. Sem isso, será apenas uma rede isolada, centralizada em apenas um computador e sem valor relevante.
O verdadeiro calcanhar de Aquiles
O ponto mais sensível está nas carteiras antigas.
Os endereços mais antigos do Bitcoin utilizaram um código que ainda é seguro hoje, mas que não serão resistentes a um computador quântico no futuro. Aqui entram todas as carteiras criadas até 2013.
E isso inclui um ponto especialmente delicado: as carteiras de Satoshi Nakamoto.
Estima-se que elas guardam cerca de 1 milhão de BTC, o equivalente a aproximadamente 5% do total de moedas que serão criadas. Esses ativos estão espalhados em mais de 30 mil endereços diferentes e nunca foram movimentados. Além deles, cerca de 5 milhões de BTC aparentemente estão dormentes em carteiras perdidas.
Se esses Bitcoins não forem migrados para novos endereços, em algum momento no futuro, eles certamente serão roubados.
E aí não estamos falando só de um problema técnico. Estamos falando de um possível choque de oferta.
Devido a esse possível impacto, o Bitcoin já está reagindo. A comunidade está se mobilizando para solucionar isso.
Desde 2025, a proposta BIP-360 foi adicionada ao repositório de melhorias do Bitcoin para debate. Ela propõe o modelo P2MR, um novo formato de endereço resistente à computação quântica.
De forma simplificada, essa solução elimina a chave pública dos endereços e cria automaticamente uma nova carteira a cada movimentação, aumentando a privacidade e a segurança.
Assim que essa atualização acontecer, todos os investidores que fazem auto custódia, precisarão migrar seus ativos para esse novo tipo de endereço. Quem não fizer isso, continuará vulnerável.
Além disso, exchanges, carteiras, softwares e toda a infraestrutura do mercado cripto também precisarão se adaptar. Não é um ajuste trivial. É um movimento coordenado em massa.
Então, devo me preocupar?
A resposta mais honesta é: sim, mas sem desespero.
A computação quântica é o maior risco estrutural do Bitcoin hoje. Mas isso não significa, necessariamente, o fim do ativo.
O que realmente importa agora é a capacidade da comunidade de chegar a um consenso o mais rápido possível, para que os programadores desenvolverem a solução, a comunidade validar o código, e o mercado se adaptar em tempo hábil.
O BTC já fez mudança no formato dos endereços algumas vezes e então não seria esse o maior problema no caso.
O cenário começará a ficar tenso, quando as carteiras antigas começarem a serem esvaziadas, pois a partir deste momento, existe a possibilidade desses ativos voltarem a entrar em circulação, e causar um aumento da oferta. Isso com certeza deve assustar o mercado.
Se isso realmente acontecer, sem dúvida que vai impactar os preços. Por outro lado, esse medo e despejo de moedas, será um momento de grande oportunidade para quem souber aproveitá-lo.
Thales Inada
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