Já pensou em investir em empresas como Apple, Google e Coca-Cola desde o Brasil, sem precisar abrir conta no exterior nem enviar dinheiro para fora? E mais: em vez de escolher uma por uma, poder investir em várias delas de uma só vez?
É exatamente essa a proposta dos BDRs de ETFs. Esses ativos, negociados na Bolsa brasileira, representam fundos de índice do exterior, muitos deles atrelados ao mercado norte-americano. Você investe em reais, pela sua corretora, e passa a acompanhar o desempenho de índices como o S&P 500 ou o Nasdaq 100.
Se você quer entender melhor como isso funciona e se esse tipo de investimento faz sentido para você, este guia vai te ajudar. A seguir, você encontra um passo a passo completo sobre o tema:
- O que são BDRs de ETFs e como eles funcionam?
- Qual a diferença entre um ETF nacional e um BDR de ETF?
- Por que investir em BDRs de ETFs?
- Quais são os melhores BDRs de ETFs?
- Como investir em BDR de ETF?
- Quais as vantagens de investir em BDRs de ETFs?
- Quais os riscos de investir em BDRs de ETFs?
- BDR de ETF paga dividendos?
- Como declarar BDR de ETF no Imposto de Renda?
Bora descobrir uma das formas mais simples de acessar o mercado internacional?
O que são BDRs de ETFs?
Os BDRs de ETFs são ativos de renda variável negociados na Bolsa brasileira que representam, de forma indireta, cotas de fundos de índice do exterior – na maioria dos casos, dos Estados Unidos.
Mesmo sendo comprados em reais, eles acompanham dois movimentos ao mesmo tempo: o desempenho das empresas que fazem parte do fundo lá fora e a variação do dólar.
Pode parecer complicado à primeira vista, mas a ideia é mais simples do que parece. Uma boa forma de entender é separar os dois conceitos que formam esse tipo de investimento: BDR (Brazilian Depositary Receipt) e ETF (Exchange Traded Fund, conhecido no Brasil como fundo de índice). Olha só:
- BDRs: são certificados negociados na B3 que representam ativos do exterior. Ao investir em um BDR, você não compra diretamente a ação de uma empresa estrangeira, mas adquire um recibo desse ativo, custodiado fora do país;
- ETFs: são fundos que buscam replicar o desempenho de um índice de mercado, como o S&P 500. Ao investir em um ETF, você aplica em um conjunto de empresas de uma só vez, seguindo a composição daquele índice.
Quando esses dois conceitos se juntam, surgem os BDRs de ETFs: uma forma de investir em carteiras internacionais completas, diretamente pela Bolsa brasileira. Assim, caso você compre um BIVB39, por exemplo, é como se estivesse investindo indiretamente no iShares Core S&P 500 ETF (IVV) – que por sua vez replica as 500 maiores empresas norte-americanas.
Como funciona um BDR de ETF?
Para não restar nenhuma dúvida, vale ir além do conceito e entender como esse tipo de investimento é estruturado, ou seja, como ele nasce e chega até você. A forma mais simples de entender isso é acompanhando o processo passo a passo:
- Tudo começa no exterior: um ETF é criado e listado em uma Bolsa estrangeira, reunindo diversas empresas em uma única carteira;
- Uma instituição no Brasil faz a ponte: uma instituição depositária firma acordo com o gestor desse ETF no exterior e adquire cotas do fundo;
- Essas cotas ficam guardadas lá fora: os ativos são mantidos em custódia no exterior e servem de base para os certificados emitidos no Brasil, com equivalência entre as cotas do ETF e os BDRs negociados por aqui;
- Os BDRs são emitidos por aqui: com base nessas cotas, a depositária emite os BDRs de ETF no Brasil, mantendo essa correspondência;
- Ajuste entre emissão e cancelamento: quando há demanda, novos BDRs podem ser emitidos; quando há resgates, eles podem ser cancelados, mantendo o equilíbrio com os ativos no exterior;
- Toda a operação acontece na Bolsa brasileira: é pela B3 que ocorre a negociação, liquidação e custódia dos BDRs. A liquidação acontece em D+2 (dois dias úteis após a operação), e é possível investir a partir de 1 unidade.
Do ponto de vista de quem investe, tudo isso aparece de forma bem simples: basta acessar o home broker da sua corretora, digitar o código do ativo (geralmente com quatro letras + 39), escolher a quantidade e executar a ordem, assim como faria com uma ação. O preço é cotado em reais, mas reflete dois movimentos ao mesmo tempo: o desempenho do ETF no exterior e a variação do câmbio. Ambos impactam diretamente o resultado do investimento.
Ficou mais claro agora, não é? Então, bora para outra pergunta bem recorrente:
Qual a diferença entre um ETF nacional e um BDR de ETF?
Essa é uma dúvida bastante comum, mas a diferença é bem simples de entender. Um ETF nacional é um fundo criado no Brasil, regulado pela CVM e pela Anbima, com CNPJ brasileiro. Ele investe em uma carteira de ativos, que pode incluir empresas brasileiras ou estrangeiras, de acordo com a sua estratégia. Nesse caso, você investe em um fundo que existe no próprio país.
Já o BDR de ETF não é um fundo. Ele é um recibo que representa cotas de um ETF que existe no exterior. Ou seja, em vez de investir em um fundo brasileiro, você passa a ter acesso indireto a um fundo de índice listado fora do país.
Esse ETF estrangeiro segue suas próprias regras, taxas e política de dividendos. O que é negociado na B3 é um certificado que acompanha esse ativo lá fora.
Mas essa diferença não é só conceitual. Ela também aparece em aspectos práticos do investimento, como estrutura, tributação e funcionamento. Veja o comparativo abaixo:
| ETF Nacional | BDR de ETF | |
| Tipo de ativo | Fundo de investimento (cotista) | Certificado que representa cotas de ETF estrangeiro |
| Natureza jurídica | Condomínio de investimento (fundo) | Recibo lastreado em ativo no exterior |
| Gestora responsável | Gestora brasileira | Gestora estrangeira (ETF original) |
| Regulação | CVM e Anbima | Estrutura via B3 no Brasil + ativo regulado no exterior |
| Código na B3 | Terminação 11 | Terminação 39 |
| Dividendos | Geralmente reinvestidos no próprio fundo | Podem ser pagos na conta da corretora (já com retenção no exterior) |
| Custos | Taxa de administração do fundo | Taxa do ETF estrangeiro + taxa de custódia do emissor do BDR |
Por que investir em BDRs de ETFs?
Indo direto ao ponto: porque eles permitem diversificar a carteira com ativos globais de forma simples, como se estivesse comprando uma ação na B3. Mas vale entender isso com um pouco mais de calma.
Quando você compra um único BDR de ETF, pode estar investindo em centenas ou até milhares de empresas ao mesmo tempo – de diferentes países, setores e moedas. Em vez de escolher ação por ação no exterior (com toda a pesquisa e custos que isso envolve), você acessa uma carteira inteira de uma só vez.
Outro ponto é o câmbio. Quando o dólar se valoriza frente ao real, isso aumenta o valor da sua posição em reais. Por isso, os BDRs de ETFs também acabam funcionando como uma forma de exposição ao dólar dentro da carteira, algo que pode ser interessante no longo prazo.
Além disso, o mercado norte-americano concentra setores que ainda são pouco representados na B3, como biotecnologia, semicondutores, defesa e inteligência artificial. Investir em BDRs de ETFs pode, portanto, abrir portas que o mercado local não tem.
Quais são os melhores BDRs de ETFs?
Não existe um ranking definitivo de melhores BDRs de ETFs. Em se tratando de renda variável, isso muda com o tempo, e o que faz sentido hoje pode não fazer amanhã. Assim, qualquer resposta definitiva corre o risco de ficar defasada no momento em que você estiver lendo este artigo.
Mais importante do que pensar em “o melhor” é entender o tipo de exposição que cada um oferece. Existem categorias de ETFs com diferentes propostas, e a escolha certa do BDR depende do seu perfil e dos seus objetivos.
Exposição ampla ao mercado norte-americano e global
- BIVB39: com lastro no iShares Core S&P 500 ETF, acompanha o desempenho das 500 maiores empresas dos EUA, que compõem o índice S&P 500;
- BEGU39: lastreado no iShares MSCI USA ETF, segue o desempenho do mercado acionário americano de forma ampla;
- BACW39: certificado com lastro no iShares MSCI ACWI ETF, índice que acompanha ações globais de países desenvolvidos e emergentes;
- BIJR39: lastreado no iShares S&P Small-Cap 600 ETF, foca em empresas menores do mercado americano (small caps).
Exposição por setor
- BIYW39: com lastro no iShares U.S. Technology ETF , esse BDR acompanha empresas do setor de tecnologia dos EUA;
- BIXJ39: certificado com lastro no iShares Global Healthcare ETF, com exposição ao setor de saúde global;
- BIYF39: lastreado no iShares U.S. Financials ETF, segue performance do setor financeiro norte-americano;
- BDVY39: certificado lastreado no iShares Select Dividend ETF, foca em empresas com histórico de pagamento de dividendos.
Exposição por região
- BIEU39: com lastro no iShares MSCI Europe ETF, segue o mercado acionário europeu;
- BCHI39: lastreado no iShares MSCI China ETF, com exposição ao mercado acionário chinês;
- BEWJ39: lastro no iShares MSCI Japan ETF, acompanha o mercado japonês;
- BEEM39: BDR com lastro no iShares MSCI Emerging Markets ETF, que reúne mercados emergentes globais;
- BILF39: certificado com lastro no iShares Latin America 40 ETF, índice que foca nas principais empresas da América Latina;
- BEWG39: com lastro no Ishares MSCI Germany ETF, índice composto por 62 companhias do país;
- BEWJ39: lastreado no Ishares MSCI Japan, índice com foco em ações de empresas de grande e média capitalização do mercado japonês.
Essa, porém, é apenas uma pequena amostragem das opções que você pode ter acesso. No total, a Bolsa brasileira disponibiliza mais de 200 BDRs de ETFs para o investidor brasileiro. A lista completa pode ser consultada diretamente no site da B3, na seção de BDRs de ETFs listados.
Como investir em BDR de ETF?
Investir em BDRs de ETF é bastante simples e não exige nada além do que você já precisa para aplicar na Bolsa brasileira. O processo pode ser resumido em cinco passos:
- Abra uma conta em uma corretora habilitada: você vai precisar de uma conta em uma corretora com acesso à B3 – é por ela que você compra e vende os BDRs. A abertura costuma ser rápida e 100% online. Não é preciso conta no exterior;
- Complete o cadastro e o suitability: conta aberta, o próximo passo é preencher o questionário de perfil (conservador, moderado ou arrojado), exigido pelas corretoras. Como os BDRs de ETFs são investimentos de renda variável, é importante que você tenha algum grau de tolerância a risco antes de investir;
- Deposite o valor que pretende investir: os preços variam bastante entre os BDRs. Alguns custam menos de R$ 50, outros passam de R$ 100 ou mais. Vale conferir antes de investir;
- Acesse o home broker e busque pelo código: procure pelo código do BDR – a maioria termina em 39 (como BIVB39 ou BIYW39). Depois, é só escolher a quantidade e enviar a ordem;
- Acompanhe sua posição: você pode acompanhar tudo pelo aplicativo da corretora. O valor varia conforme o desempenho do ETF no exterior e também com o câmbio.
A liquidação acontece em D+2 (dois dias úteis após a ordem). O lote mínimo é 1 unidade. Não há valor mínimo fixo além do preço da própria cota.
Quais as vantagens de investir em BDRs de ETFs?
Acesso prático a indicadores globais, diversificação instantânea da carteira, e proteção contra o risco-Brasil e a desvalorização do real. Esses são apenas alguns dos motivos pelos quais você deveria considerar investir em BDRs de ETFs. Veja abaixo as vantagens mais notáveis desse tipo de produto de investimento:
- Diversificação em mercados globais: com um único BDR de ETF, você acessa uma carteira inteira de ativos estrangeiros de forma simples e em reais;
- Proteção cambial natural: a posição em BDR de ETF sobe (em reais) quando o dólar se valoriza, funcionando como um proteção (hedge) parcial contra a desvalorização do real;
- Acesso a setores inexistentes na B3: é uma forma simples de investir em áreas pouco presentes no Brasil, como tecnologia, semicondutores, biotecnologia, defesa e inteligência artificial;
- Liquidez garantida pela B3: tudo acontece no ambiente da Bolsa brasileira, com regras conhecidas, liquidação padronizada e acompanhamento pela própria corretora;
- Possibilidade de receber dividendos: alguns BDRs de ETFs podem repassar dividendos ao investidor, já com retenções aplicáveis no exterior e custos do emissor.
Interessante, não é mesmo? Porém, antes de investir em BDRs de ETFs, é preciso girar a moeda e conhecer o outro lado, ou seja, as desvantagens e riscos desses produtos. Vamos lá?
Quais os riscos de investir em BDRs de ETFs?
Nenhum investimento em renda variável é isento de risco, e com os BDRs de ETFs, obviamente, isso não é diferente. Antes de investir, vale entender os principais pontos de atenção:
- Risco de mercado: se as Bolsas lá fora caem, o BDR acompanha esse movimento. Crises como a de 2008 mostram que até os maiores mercados estão sujeitos a períodos de queda relevante;
- Risco cambial nos dois sentidos: o dólar pode ajudar quando sobe, mas também pode pesar quando cai frente ao real. Uma valorização do real pode neutralizar ganhos no ETF original;
- Sem isenção de IR para vendas pequenas: diferentemente das ações brasileiras, que têm isenção para vendas mensais abaixo de R$ 20 mil, qualquer lucro com BDRs é tributado, mesmo em valores menores;
- Liquidez menor que ETFs nacionais: o volume de negociações de BDRs de ETFs, apesar de crescente, ainda é inferior ao de ETFs domésticos. Isso pode fazer o preço oscilar um pouco mais entre compra e venda (o chamado spread);
- Sem proteção jurídica local: como o ativo está ligado a um ETF estrangeiro, você não tem acesso direto às mesmas proteções legais que teria em um fundo constituído no Brasil. A instituição depositária atua apenas como intermediária na emissão dos BDRs.
BDR de ETF paga dividendos?
Sim, BDRs de ETFs podem pagar dividendos (e em dólar). Esses valores são repassados aos investidores no Brasil quando o ETF lá fora distribui seus proventos.
Um exemplo real: o BIVB39 (lastreado no IVV, que replica o S&P 500) distribui proventos em abril, junho, outubro e dezembro. O dividend yield atual é de aproximadamente 0,83%, com uma média de 1,11% nos últimos 5 anos. Ou seja, não pode ser visto como um produto pensado para quem vive de dividendos, mas o repasse existe e acontece de forma recorrente.
Como funciona o repasse de dividendos de BDRs de ETFs?
O processo funciona assim: o ETF original recebe os dividendos das empresas da carteira e faz a distribuição em dólar. Antes de chegar ao investidor brasileiro, há uma retenção de imposto nos Estados Unidos, que pode chegar a cerca de 30%, dependendo da estrutura do ativo.
Depois disso, a instituição depositária do BDR realiza um novo desconto referente aos seus serviços de intermediação. Essa taxa varia de acordo com o emissor, mas fica geralmente entre 3% e 5% do valor bruto.
O que sobra é convertido para reais e creditado na sua conta, já líquido de ambas as deduções.
Observação: como os dividendos de BDRs são classificados como lucros distribuídos por empresas estrangeiras, eles não seguem a regra de isenção dos dividendos de ações brasileiras. Entram na tabela progressiva do Imposto de Renda. Portanto, a depender do valor recebido, podem ser tributados entre 7,5% e 27,5%.
Como declarar BDR de ETF no Imposto de Renda?
A declaração de BDRs de ETFs no IR segue a mesma estrutura dos BDRs de ações, mas com algumas especificidades importantes. O IR incorre tanto com os lucros obtidos com a venda, como também com dividendos. Veja abaixo como funciona:
Declaração da posse (Bens e Direitos)
Para informar que você possui BDRs de ETFs, acesse a ficha Bens e Direitos no programa da Receita Federal e siga este caminho:
- Grupo 04 – Aplicações e Investimentos;
- Código 04 – Ativos negociados em bolsa no Brasil (BDRs, opções e outros, exceto ações);
- Discriminação: informe o nome do BDR, o código de negociação, a quantidade e a corretora onde está custodiado;
- Situação em 31/12: informe o custo de aquisição total (não o valor de mercado).
Como o ativo representa um investimento no exterior, não há CNPJ para preenchimento. Esse campo pode ser deixado em branco ou zerado.
Venda com lucro
Qualquer ganho na venda de BDRs é tributado. Diferente das ações, não existe isenção para vendas mensais abaixo de R$ 20 mil.
- Operações comuns: 15% sobre o lucro
- Day trade: 20% sobre o lucro
O imposto é pago via DARF (código 6015), até o último dia útil do mês seguinte à operação. O cálculo é responsabilidade do investidor — a corretora não faz esse recolhimento automaticamente.
Dividendos recebidos
Os dividendos recebidos de BDRs de ETFs seguem a tabela progressiva do Imposto de Renda:
| Base de cálculo mensal | Alíquota |
| Até R$ 2.259,20 | Isento |
| De R$ 2.259,21 até R$ 2.826,65 | 7,5% |
| De R$ 2.826,66 até R$ 3.751,05 | 15% |
| De R$ 3.751,06 até R$ 4.664,68 | 22,5% |
| Acima de R$ 4.664,68 | 27,5% |
Atenção: o imposto retido nos EUA (30%) pode ser compensado no Brasil, evitando bitributação. Para isso, é importante informar corretamente esses valores na ficha de Rendimentos Recebidos de Fontes no Exterior.
Recapitulando os pontos mais importantes…
Os BDRs de ETFs são uma forma simples e acessível de o investidor brasileiro se expor ao mercado internacional. Com a praticidade da B3, sem precisar de conta no exterior e com possibilidade de começar com valores baixos, eles reduzem bastante as barreiras que antes afastavam as pessoas físicas do mercado global.
Isso não significa ausência de riscos. O câmbio, a volatilidade dos mercados externos e a forma de tributação fazem parte do caminho. Ainda assim, para quem entende como esse tipo de investimento funciona, eles podem ser uma boa ferramenta para diversificar e ampliar a carteira.