Pense na situação onde esteja se planejando para comprar um ingresso para o show do seu artista favorito.
Pois bem, provavelmente os melhores lugares sumirão em minutos, e os que sobrarem, custarão valores bem elevados. Com fundos de investimento a lógica é parecida, com uma diferença interessante: os melhores gestores frequentemente costumam cobrar taxas parecidas com a dos “medianos”, mas costumam fechar para novos investidores rapidamente.
Entender a dinâmica disso pode mudar a forma como você investe em fundos.
O que faz um fundo ser realmente bom?
Um bom fundo não é apenas aquele que entregou retorno alto no último ano!
Na verdade, é a combinação de performance consistente e acima da média do mercado por um período razoável de tempo com um conjunto de fatores qualitativos.
Estes fatores costumam ser o fato de ter times de gestão experientes e coesos, processos de investimento bem definidos, cultura de risco saudável e uma estrutura que viabilize tudo isso de forma sustentável. Esses elementos juntos são raros, e quando aparecem, o mercado percebe rápido.
Por que ele não chega até você facilmente?
Imagine um médico especialista reconhecido como referência em sua área. Ele tem agenda lotada para os próximos seis meses, cobra mais caro que a média e não aceita qualquer convênio.
Ele não precisa se anunciar em outdoor, porque quem conhece o trabalho dele indica. Agora imagine que esse mesmo médico resolvesse atender 16 horas por dia, todos os dias incluindo os finais de semana, possivelmente visando um “lucro” maior.
Em pouco tempo, o cansaço comprometeria a qualidade das consultas, os diagnósticos ficariam menos precisos e a excelência que o tornou referência desapareceria.
Com fundos de investimento, a lógica é parecida.
Um gestor consegue operar com mais agilidade e aproveitar mais oportunidades quando o patrimônio sob gestão está no tamanho adequado. À medida que o fundo cresce demais, as decisões ficam mais lentas, as melhores oportunidades deixam de ser acessíveis e a qualidade do portfólio tende a cair.
Por isso, os melhores gestores fecham as portas para novos aportes antes que o potencial de retorno caia. Não é uma estratégia de marketing. É uma questão de sobrevivência da tese e diligência.
Isso pode parecer contraintuitivo em uma análise de primeira camada, já que quanto maior o patrimônio, maior tende a ser a receita do gestor. No entanto, passar demais do ponto pode comprometer a qualidade do fundo e fazer com que ele perca justamente o diferencial que o tornava tão bem-sucedido, provocando resgates que reduziriam a receita a patamares menores e, pior ainda, prejudicando os próprios cotistas ao longo do caminho.
A lógica perversa da distribuição
Quando um fundo cobra o tradicional 2% de taxa de administração com 20% de performance, o gestor precisa dividir boa parte disso com a cadeia de distribuição: a plataforma, a corretora, o assessor. Se o fundo for mediano, o distribuidor tende a receber altas taxas para “vender”, porque o gestor depende dele para captar. Se o fundo for excelente, a lógica se inverte: o distribuidor precisa ter acesso ao produto, e não o contrário.
É por isso que alguns dos melhores fundos do mercado nem chegam a aparecer no aplicativo do banco. Você precisa pedir para o assessor, que precisa pedir para a plataforma, que precisa ter um relacionamento com a gestora. E mesmo assim, dependendo do momento, a resposta pode ser não.
Outros fundos aparecem no app, mas jamais serão o alvo daquela mensagem insistente do assessor porque a margem do distribuidor é menor e o produto se vende sozinho para quem sabe o que está procurando.
Coisas boas ficam escassas rapidamente
Isso vale para restaurantes badalados, médicos renomados e, sim, para fundos de investimento de alta qualidade. Quando um produto realmente bom se torna altamente acessível ao grande público, duas coisas costumam acontecer: ou ele fecha rapidamente para captação, ou ele “cresce” além do que deveria e perde parte do que o tornava especial.
Nos dois casos, quem chegou tarde perdeu a oportunidade ou comprou uma versão “diluída” do original.
O que fazer então?
A resposta não é simples, mas começa com uma mudança de postura. Em vez de esperar que o melhor produto chegue até você por mensagem (que dificilmente ocorrerá), vale desenvolver o hábito de pesquisar, entender o que diferencia um gestor do outro, acompanhar o histórico de longo prazo e possivelmente seguir as recomendações de profissionais que tenham acesso e conhecimento real da indústria.
O bom fundo raramente bate na sua porta. Mas para quem sabe onde procurar, ele está lá.
Um grande abraço e bons investimentos!
Rodrigo Xavier
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