A Ser Educacional (SEER3), um dos maiores grupos de ensino superior do Brasil com forte DNA nas regiões Norte e Nordeste, apresentou no primeiro trimestre de 2026 (1T26) um conjunto de resultados que consolida sua trajetória de recuperação e eficiência operacional iniciada nos anos anteriores.
O desempenho da companhia foi marcado por um crescimento robusto do lucro líquido e uma geração de caixa operacional expressiva, refletindo o sucesso de sua estratégia focada em cursos de alta rentabilidade, como Medicina, e na otimização de sua base de alunos presenciais.
O cenário para o setor educacional tem sido de adaptação a novos marcos regulatórios, e a Ser Educacional demonstrou agilidade ao reclassificar suas modalidades de ensino e focar na rentabilidade em detrimento do volume puro, especialmente no ensino digital. Com uma gestão disciplinada, a empresa conseguiu não apenas crescer suas receitas, mas também reduzir drasticamente seu endividamento, posicionando-se de forma favorável em um mercado ainda desafiador.
Resumo dos principais indicadores (1T26 vs. 1T25)
Os números do 1T26 vieram acima das expectativas em diversas linhas, com destaque para a rentabilidade e a saúde financeira. A tabela abaixo resume os indicadores que mais chamaram a atenção do mercado:
| Indicador | 1T26 | 1T25 | Variação (%) |
| Receita Líquida | R$ 583,8 milhões | R$ 540,0 milhões | +8,1% |
| EBITDA Ajustado | R$ 158,2 milhões | R$ 143,7 milhões | +10,1% |
| Margem EBITDA Ajustada | 27,1% | 26,6% | +0,5 p.p. |
| Lucro Líquido Contábil | R$ 75,9 milhões | R$ 43,6 milhões | +74,0% |
| Lucro Líquido Ajustado | R$ 81,9 milhões | R$ 51,8 milhões | +58,1% |
| Dívida Líquida | R$ 428,0 milhões | R$ 662,7 milhões | -35,4% |
| Dívida Líquida / EBITDA (UDM) | 0,75x | 1,35x | -0,60x |
| Base de Alunos Presencial | 196,8 mil | 185,3 mil | +6,2% |
Pontos positivos dos resultados
Os resultados do 1T26 da Ser Educacional evidenciam diversos pontos positivos que reforçam a solidez e a estratégia da companhia:
- Crescimento da base presencial e ticket médio: a companhia registrou o 5º ano consecutivo de crescimento na base de alunos presenciais. Mais importante que o volume, houve um aumento de 9,7% no ticket médio, fruto de uma estratégia comercial que prioriza a ocupação de vagas com maior valor agregado;
- Maturação dos cursos de Medicina: a expansão de vagas de medicina autorizadas nos últimos 18 meses começou a gerar efeitos significativos na receita e nas margens. Por ser um curso de ticket elevado e alta retenção, a medicina atua como um motor de estabilidade e rentabilidade para o grupo;
- Desalavancagem acelerada: a redução da dívida líquida em 35,4% na comparação anual é um dos maiores destaques. A relação Dívida Líquida/EBITDA de 0,75x é o menor nível desde 2021, o que reduz drasticamente as despesas financeiras e abre espaço para novos investimentos ou distribuição de dividendos;
- Eficiência operacional: a margem bruta subiu para 62,5% (ante 60,7% no 1T25), demonstrando controle de custos e melhor aproveitamento da infraestrutura física. A geração de caixa operacional (GOC) pós-capex cresceu 45,2%, atingindo 69,3% do EBITDA ajustado;
- Redução da evasão: mesmo com o aumento dos tickets, a taxa de evasão no ensino presencial caiu de 12,2% para 11,8%, sinalizando uma base de alunos mais engajada e resiliente.
Pontos de atenção e riscos
Apesar do desempenho positivo, alguns pontos merecem atenção na análise dos resultados da Ser Educacional:
- Retração no ensino digital (EAD): a captação total (EAD + semipresencial) caiu 37,3%. Embora a empresa justifique essa queda como uma “racionalização” para focar em cursos mais rentáveis e se adaptar ao novo marco regulatório, a perda de volume no digital pode limitar o ganho de escala a longo prazo se não for estabilizada;
- Dependência do segmento de Medicina: embora seja um ponto forte, a crescente dependência do segmento de Medicina pode expor a empresa a riscos regulatórios específicos desse setor. Mudanças nas políticas de abertura de vagas, credenciamento ou financiamento de cursos de Medicina podem impactar os resultados;
- Redução de vagas PROUNI: a queda de 6,1% na captação total do presencial foi influenciada pela redução deliberada de vagas do PROUNI. Embora ajude na margem, isso pode impactar a ocupação total de algumas unidades menos nobres;
- Cenário macroeconômico: o setor de educação é sensível à renda disponível das famílias e às taxas de juros. Uma manutenção de juros altos por tempo prolongado pode pressionar a inadimplência, embora a Ser tenha mostrado bom controle até aqui;
- Concorrência: o mercado de educação superior no Brasil é altamente competitivo, com a presença de grandes grupos educacionais. A capacidade da Ser Educacional de manter sua diferenciação e atratividade para os alunos é fundamental para sustentar o crescimento;
- Adaptação regulatória: as novas regras do MEC para o EAD e cursos semipresenciais exigem investimentos em polos e mudanças curriculares que podem trazer volatilidade operacional nos próximos trimestres.
Tese de investimento e principais riscos
A tese de investimento em Ser Educacional baseia-se na recuperação de valor através da eficiência. Após anos de pressão pós-pandemia, a empresa provou que consegue operar com margens elevadas e baixo endividamento.
A forte presença regional (Norte/Nordeste) garante uma vantagem competitiva onde a concorrência de grandes players do Sudeste é menor. Além disso, o foco na vertical de saúde (Medicina) transforma o perfil da companhia para um negócio de maior qualidade e previsibilidade.
Os principais riscos associados à tese de investimento incluem:
- Riscos regulatórios: mudanças nas regulamentações do Ministério da Educação (MEC) e nas políticas de financiamento estudantil (como o FIES) podem impactar o setor e, consequentemente, a Ser Educacional. A dependência de cursos de Medicina, embora lucrativa, aumenta a exposição a regulamentações específicas;
- Cenário econômico: uma deterioração do cenário macroeconômico brasileiro, com aumento do desemprego e queda da renda, pode afetar a capacidade dos alunos de pagar mensalidades e a demanda por novos cursos;
- Concorrência e disrupção tecnológica: a intensa concorrência e a rápida evolução tecnológica no ensino podem exigir investimentos contínuos e adaptação para manter a relevância e a competitividade;
- Gestão da inadimplência: embora a empresa tenha um bom histórico, a inadimplência é um risco inerente ao setor e pode impactar os resultados financeiros se não for bem gerenciada.
O que esperar para o 2T26
Para o segundo trimestre de 2026, os investidores devem monitorar:
- Continuidade da desalavancagem: com a nova emissão de debêntures a taxas menores (CDI + 1,10%), espera-se uma melhora adicional no resultado financeiro;
- Desempenho da captação do 2º ciclo: embora o 1T seja o mais forte para o presencial, o 2T mostrará a resiliência da base e a eficácia das campanhas de rematrícula;
- Impacto do novo marco do EAD: observar se a estratégia de priorizar rentabilidade no digital começará a estabilizar a queda de volume ou se novas quedas ocorrerão;
- Inadimplência: verificar se o aumento do ticket médio impactará a capacidade de pagamento dos alunos em um cenário de economia estável, mas ainda com crédito caro.
Balanço final
Os resultados do 1T26 da Ser Educacional (SEER3) demonstram uma empresa em um momento de recuperação consolidada e crescimento estratégico. Os pontos positivos, como o forte crescimento da receita e do lucro, a expressiva desalavancagem financeira e a expansão no segmento de Medicina, superam os pontos de atenção, que são inerentes ao setor e ao cenário macroeconômico. A tese de investimento permanece robusta, ancorada na capacidade da empresa de gerar valor e se adaptar às demandas do mercado educacional.
Para a avaliação final da Ser Educacional, é fundamental considerar a continuidade da gestão eficiente, a capacidade de mitigar os riscos regulatórios e macroeconômicos, e a execução da estratégia de crescimento, especialmente no promissor segmento de Medicina. O 2T26 será um teste para a resiliência da empresa em um trimestre sazonalmente mais desafiador, mas as bases para um desempenho positivo parecem estar bem estabelecidas.