jul, 2026 Ações

Análise dos resultados da Ultrapar (UGPA3) no 1T26 e perspectivas para o 2T26

Luiz Guilherme Aboim

A Ultrapar Participações S.A. (UGPA3), uma das maiores holdings brasileiras com atuação nos segmentos de mobilidade, energia e infraestrutura logística através de suas subsidiárias Ipiranga, Ultragaz, Ultracargo e Hidrovias do Brasil, divulgou resultados robustos no primeiro trimestre de 2026 (1T26).

O período foi marcado por um desempenho significativamente positivo, impulsionado principalmente pela forte recuperação e expansão operacional da Ipiranga, bem como pela consolidação dos resultados da Hidrovias do Brasil.

Estes fatores contribuíram para um crescimento expressivo do lucro líquido e do EBITDA ajustado, superando as expectativas do mercado e evidenciando a resiliência e a capacidade de adaptação da companhia em um cenário macroeconômico dinâmico.

Resumo dos principais indicadores

O 1T26 da Ultrapar foi caracterizado por um crescimento notável em suas principais métricas financeiras. A receita líquida consolidada atingiu R$ 36,75 bilhões, representando um aumento de aproximadamente 10% em comparação com o 1T25. O EBITDA ajustado recorrente consolidado demonstrou um avanço ainda mais impressionante, alcançando R$ 2,324 bilhões, o que significa um crescimento de cerca de 96% ano a ano.

O lucro líquido consolidado disparou para R$ 914,2 milhões, um aumento de aproximadamente 152% em relação ao mesmo período do ano anterior. O lucro atribuível aos acionistas da Ultrapar foi de R$ 875,6 milhões.

A tabela a seguir resume os principais indicadores financeiros e de mercado da Ultrapar:

Indicador Valor (1T26) Comparativo (1T25) Variação Anual
Receita Líquida Consolidada R$ 36,75 bilhões R$ 33,33 bilhões +10%
EBITDA Ajustado Recorrente R$ 2,324 bilhões R$ 1,186 bilhões +96%
Lucro Líquido Consolidado R$ 914,2 milhões R$ 363,2 milhões +152%
Lucro Líquido (acionistas) R$ 875,6 milhões R$ 333,8 milhões +163%
Margem Bruta 7,1% 6,6% +0,5 p.p.
Margem EBITDA Recorrente 3,7% 3,2% +0,5 p.p.
Margem Líquida 2,1% 1,7% +0,4 p.p.
Dívida Líquida/EBITDA Ajustado 1,5x 1,7x -0,2x

Pontos positivos dos resultados

O excelente desempenho da Ultrapar no 1T26 foi alavancado por diversos fatores, com destaque para a performance da Ipiranga e a contribuição da Hidrovias do Brasil:

Ipiranga: recuperação e margens recordes

A Ipiranga, distribuidora de combustíveis da Ultrapar, foi a principal locomotiva dos resultados do trimestre. O aumento de cerca de 8% no volume total vendido, tanto em ciclo Otto quanto em diesel, foi impulsionado por um ambiente competitivo mais saudável. Ações governamentais e operações policiais de combate a fraudes no mercado de combustíveis (como a operação Carbono Oculto) contribuíram para a redução de práticas irregulares, resultando em maior disciplina de preços e margens no setor.

Além disso, a alta nos preços internacionais do petróleo entre dezembro de 2025 e março de 2026 gerou um ganho de estoque significativo para a Ipiranga. O CFO da Ultrapar destacou que a margem por litro aumentou de aproximadamente R$ 0,18 para R$ 0,28 ao final do trimestre, impulsionando o EBITDA da operação.

A capacidade da Ipiranga de triplicar seu volume de importação de diesel para manter o abastecimento da rede, mesmo implicando um investimento de capital de giro de R$ 2 bilhões, demonstra a agilidade e a capacidade de gestão da empresa em um cenário de mercado volátil.

Consolidação da Hidrovias do Brasil

A consolidação da Hidrovias do Brasil (HBSA3) também foi um fator crucial para o crescimento do EBITDA consolidado da Ultrapar. A Ultrapar aumentou sua participação na Hidrovias do Brasil, passando a deter 50,15% da empresa, o que fortalece sua presença no agronegócio e expande suas operações logísticas. A Hidrovias do Brasil tem demonstrado uma trajetória de redução de dívida e aumento de receita, contribuindo positivamente para os resultados do grupo.

Redução da alavancagem e solidez financeira

A Ultrapar conseguiu reduzir sua alavancagem para 1,5x Dívida Líquida/EBITDA Ajustado no 1T26, em comparação com 1,7x no 1T25 e 4T25. Essa melhora é um reflexo da forte geração de caixa operacional e da disciplina financeira da companhia. O nível de endividamento é considerado moderado, com dívida líquida em torno de R$ 12,27 bilhões e um perfil de amortização bem distribuído, o que contribui para a manutenção do rating de grau de investimento.

Pontos de atenção dos resultados

Embora o trimestre tenha sido majoritariamente positivo, alguns pontos merecem atenção:

Desempenho da Ultragaz

Enquanto a Ipiranga brilhou, a Ultragaz, distribuidora de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), apresentou um recuo no EBITDA ajustado. O EBITDA da Ultragaz reportado foi de R$ 385 milhões, uma queda de 2% ano a ano. Esse resultado foi pressionado por maiores custos do GLP e um aumento de 5% nas despesas com vendas, gerais e administrativas.

Apesar de estável em relação às estimativas, o desempenho da Ultragaz não acompanhou o ritmo de crescimento dos outros segmentos, indicando a necessidade de monitoramento de suas margens e custos.

Volatilidade do preço do petróleo

Embora a alta do preço do petróleo tenha gerado ganhos de estoque para a Ipiranga no 1T26, a volatilidade inerente a essa commodity representa um risco contínuo. Flutuações nos preços podem impactar as margens futuras, tanto positiva quanto negativamente, exigindo uma gestão de risco e de estoques eficiente por parte da Ultrapar.

Tese de investimento em Ultrapar e principais riscos

A tese de investimento na Ultrapar baseia-se na sua posição de liderança em mercados essenciais, na diversificação de seus negócios (mobilidade, energia e logística) e na sua capacidade de gerar caixa. A empresa tem demonstrado resiliência e adaptabilidade, especialmente na Ipiranga, que se beneficiou de um ambiente competitivo mais racionalizado e de uma gestão eficiente de estoques.

A consolidação da Hidrovias do Brasil adiciona uma nova camada de crescimento e diversificação, especialmente no agronegócio, um setor robusto no Brasil. A disciplina na alocação de capital e a busca por eficiência operacional são pilares que sustentam a atratividade da UGPA3.

No entanto, a Ultrapar não está isenta de riscos. Os principais incluem:

  • Volatilidade dos preços de commodities: a dependência do preço do petróleo e do GLP expõe a empresa a flutuações que podem afetar suas margens;
  • Ambiente regulatório e concorrência: mudanças na regulamentação do setor de combustíveis e GLP, bem como a intensidade da concorrência, podem impactar a rentabilidade;
  • Cenário macroeconômico: a correlação com a atividade econômica e a mobilidade urbana torna a Ultrapar sensível a desacelerações econômicas;
  • Investimentos em capital de giro: a necessidade de investimentos em capital de giro, como observado na Ipiranga para importação de diesel, pode pressionar o fluxo de caixa em determinados momentos.

O que esperar para o 2T26

Para o segundo trimestre de 2026 (2T26), o mercado estará atento a alguns fatores-chave:

  • Manutenção das margens da Ipiranga: será crucial observar se a Ipiranga conseguirá sustentar as margens elevadas alcançadas no 1T26, especialmente em um cenário de possíveis variações nos preços do petróleo e na dinâmica competitiva. A continuidade do combate a fraudes no setor será um ponto positive;
  • Desempenho da Ultragaz e Ultracargo: a recuperação ou estabilização do EBITDA da Ultragaz será importante. Para a Ultracargo, que tem realizado expansões em suas bases, espera-se uma contribuição positiva e estável, com o aumento da capacidade de armazenamento;
  • Contribuição da Hidrovias do Brasil: a plena integração e a contribuição operacional da Hidrovias do Brasil continuarão a ser monitoradas, esperando-se que a sinergia com as operações da Ultrapar se aprofunde;
  • Nível de alavancagem: a manutenção da trajetória de desalavancagem e a gestão da dívida líquida serão indicadores importantes da saúde financeira da companhia;
  • Política de dividendos: a Ultrapar aprovou recentemente a distribuição de R$ 1,08 bilhão em dividendos, o que demonstra a confiança da gestão e a capacidade de geração de valor para os acionistas. A continuidade de uma política de dividendos atrativa será um ponto a ser observado.

Conclusão da análise

Os resultados da Ultrapar no 1T26 foram inegavelmente fortes, marcados por um crescimento expressivo do lucro líquido e do EBITDA, impulsionados pela Ipiranga e pela consolidação da Hidrovias do Brasil. A empresa demonstrou capacidade de se beneficiar de um ambiente de mercado mais favorável e de gerenciar seus negócios de forma eficiente. A redução da alavancagem e a manutenção de um rating de grau de investimento reforçam a solidez financeira da companhia.

Para a avaliação final da Ultrapar, é fundamental considerar a continuidade da disciplina operacional, a gestão dos riscos inerentes à volatilidade das commodities e a capacidade de integração e geração de sinergias com as novas aquisições. O 2T26 será um termômetro importante para confirmar a sustentabilidade do desempenho da Ipiranga e a contribuição dos demais segmentos. Investidores devem acompanhar de perto esses desenvolvimentos para uma análise completa do potencial de valorização da UGPA3 no longo prazo.

Economista, especialista em valuation. Professor convidado do Coppead/UFRJ, FGV e Faculdade HUB. É sócio-fundador da ConfianceTec e da Escola de Finanças Aboim.