Recentemente vimos uma cena curiosa acontecer no cenário geopolítico internacional. Donald Trump desce do Air Force One em Pequim acompanhado por uma comitiva que parecia mais elenco de Hollywood do que delegação política. Elon Musk, da Tesla. Jensen Huang, da Nvidia. Tim Cook, da Apple. Larry Fink, da BlackRock. Ao todo, 17 CEOs das maiores empresas dos Estados Unidos sentados à mesma mesa que Xi Jinping.
O grande encontro aconteceu entre os dias 13 e 15 de maio e, mais importante do que o encontro em si, foi o que foi discutido na ocasião.
A presença daqueles executivos diz muito sobre o jogo que está sendo jogado em 2026. Quando o presidente da maior economia do mundo viaja com os homens mais ricos e influentes do planeta, fica evidente que política externa, tecnologia e mercado de capitais se fundiram em uma coisa só.
E o que esses senhores foram negociar, na prática, era o futuro de trilhões de dólares em investimentos.
Antes de seguir, deixe-me colocar todos na mesma página e entregar o resumo do que de fato saiu da reunião. Trump declarou que a visita foi “incrível” e que houve avanços. Xi falou em uma “nova era” nas relações entre os dois países. Mas quando você lê os comunicados oficiais lado a lado, percebe algo curioso: cada país destacou exatamente o que o outro não quis falar.
Para a China, a questão central era Taiwan. Xi foi categórico ao dizer que, se o tema não for tratado adequadamente, os dois países poderiam entrar em uma “situação extremamente perigosa”. Para os Estados Unidos, a prioridade era o Estreito de Ormuz, o combate ao fentanil e o fim das guerras em curso. Taiwan sequer foi mencionada no comunicado oficial americano.
De concreto mesmo, não temos muitos desfechos além de um acordo de compra de aeronaves: a China comprará 200 jatos da Boeing. Até aí tudo bem, parece uma boa sinalização de parceria comercial. O problema é que os Estados Unidos esperavam 500. O comprometimento de compra de menos da metade do que era esperado fez as ações da Boeing caírem mais de 4% no pregão seguinte ao anúncio. As ações da Nvidia, que vinham embalando expectativas de uma liberação ampla para venda dos chips H200 ao mercado chinês, atingiram máxima histórica de US$ 235,74 na quinta-feira passada e despencaram cerca de 3,4% na sexta, quando ficou claro que o acordo amplo não viria (pelo menos não nesta ocasião).
Esse é o primeiro aprendizado para você guardar. Em momentos de grande expectativa geopolítica, o noticiário cria narrativas que se incorporam aos preços muito antes da informação se materializar. Quando o investidor ou a investidora finalmente lê a manchete e decide agir, o movimento provavelmente já passou. É o famoso “comprar no rumor e vender no fato”.
Mas o que mais me chamou atenção nessa reunião foi outra coisa. Algo que o noticiário não está discutindo.
Para entender, preciso te apresentar duas variáveis que ficaram pairando sobre a mesa, mesmo quando ninguém estava falando delas diretamente. A primeira é Taiwan, que produz mais de 90% dos chips semicondutores mais avançados do mundo na TSMC. Sem esses chips, simplesmente não existe iPhone, não existe carro da Tesla rodando autonomamente, não existem servidores de inteligência artificial da Nvidia funcionando, entre muitas outras aplicações tecnológicas de ponta. Por isso a tensão sobre Taiwan é, na essência, uma tensão sobre toda a cadeia global de tecnologia.
A segunda variável são as terras raras. Talvez você nunca tenha ouvido falar nelas, mas vou te explicar rapidamente. Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos (com nomes complicados como neodímio, disprósio e térbio) usados na fabricação de ímãs potentes, baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, telas de celular e sistemas de defesa militar. Sem terras raras, não existe tecnologia moderna.
E aqui está o ponto: a China produz cerca de 69% das terras raras do mundo e controla por volta de 92% do refino global. Refinar terras raras é o gargalo verdadeiro, porque é um processo complexo, caro e poluente que a China dominou ao longo de quatro décadas. Em 2025, ela impôs controles de exportação sobre sete tipos desses elementos. A China entendeu o poder que tem nas mãos. O poder de estrangular a cadeia tecnológica ocidental sempre que quiser.
Os Estados Unidos entenderam que isso é uma vulnerabilidade estratégica inaceitável e começaram a injetar bilhões de dólares na tentativa de construir uma cadeia alternativa. E adivinha onde foi parar boa parte desse dinheiro?
Em nosso querido Brasil.
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com aproximadamente 21 milhões de toneladas. Ficamos atrás apenas da própria China. E em abril deste ano, a empresa norte-americana USA Rare Earth anunciou a aquisição da Serra Verde, mineradora de terras raras que opera em Minaçu, em Goiás, por US$ 2,8 bilhões em dinheiro e ações. A Serra Verde é a única produtora fora da Ásia capaz de fornecer em escala os quatro elementos magnéticos mais críticos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
Para você ter uma noção do peso disso, a Serra Verde também firmou um contrato de fornecimento de 15 anos para vender toda a produção de sua fase inicial a uma empresa de propósito específico capitalizada por diversas agências do governo norte-americano. Em outras palavras, o solo brasileiro acaba de virar peça estratégica na disputa entre as duas maiores economias do mundo.
E enquanto isso, o investidor médio brasileiro (não você que acompanha os conteúdos da Finclass) segue completamente alheio ao que está se desenrolando no próprio quintal.
A pergunta que fica é: como você se posiciona diante de tudo isso?
A primeira coisa a entender é que esse tipo de movimento, em que uma empresa estrangeira investe bilhões em uma mineradora brasileira que poucas pessoas conheciam, raramente chega às manchetes dos grandes jornais antes do fato consumado. Quando vira notícia popular, o preço já se moveu. Aliás, esse é exatamente o tipo de leitura que separa o investidor que enxerga o tabuleiro daquele que só percebe a peça depois que ela já se moveu.
A segunda coisa é não tentar virar a carteira do avesso para apostar em uma única tese, por mais convidativa que ela pareça. Existem ETFs internacionais como o VanEck Rare Earth and Strategic Metals ETF (REMX), que já se valorizou de forma expressiva em 2026. Existem cases pontuais que podem despontar no mercado local. Mas tudo isso precisa ser dimensionado dentro da sua alocação estrutural, sem virar aposta concentrada.
E aqui chegamos ao terceiro e mais importante ponto. Estresses geopolíticos como esse não são exceção. São parte do jogo. A reunião entre Trump e Xi não resolveu Taiwan, não destravou amplamente a venda de chips e não eliminou o controle chinês sobre as terras raras. Apenas adiou o próximo capítulo. E o próximo capítulo já está marcado: Xi visitará a Casa Branca em setembro.
Uma carteira global diversificada entre diferentes classes de ativos, geografias e moedas tem capacidade de atravessar esse tipo de turbulência sem que você precise se desesperar a cada manchete. Mais que isso, ela tende a se beneficiar dos solavancos, porque cada ciclo desses cria oportunidades para quem está atento e mal-pega quem está distraído.
Por isso, da próxima vez que você ler manchetes carregadas sobre a relação entre Estados Unidos e China, lembre-se de que existe uma diferença enorme entre o que acontece no telão da política e o que acontece no balanço das empresas. A imagem dos CEOs em Pequim é poderosa, mas o que realmente moverá o seu patrimônio no longo prazo são os fundamentos, a diversificação e a disciplina com que você executa o seu plano.
Tecnologia, inteligência artificial, transição energética e a nova geopolítica das matérias-primas seguem como teses seculares. As manchetes mudam toda semana, mas os fundamentos continuam firmes. Cabe a você não se deixar levar pelo ruído, e contar com uma boa equipe independente ao seu lado, como nós aqui da Finclass, para te ajudar a separar o joio do trigo.
Um grande abraço,
Felipe Arrais
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