Você já deve ter ouvido ou lido em alguma rede social que “o CDI bate o IPCA+” ou que “IPCA+ é imbatível no longo prazo”.
As duas frases podem ser verdadeiras. E as duas podem ser enganosas. O problema é que os dados podem induzir a uma narrativa que o analista quer comprovar através da estatística.
A verdade é que essa disputa depende de pelo menos três variáveis que raramente aparecem juntas na mesma frase: a taxa real de entrada do título IPCA+, o prazo de carregamento e o nível da Selic no período. Mudar qualquer uma delas muda muito a conclusão.
Aqui vamos destrinchar cada uma dessas variáveis e mostrar o que os estudos mais robustos dizem sobre o tema e explicar por que escolher a janela histórica certa permite construir qualquer narrativa que você quiser.
Primeiro: o que exatamente estamos analisando?
Quando alguém diz “IPCA+”, essa pessoa pode estar se referindo a coisas muito diferentes. O IMA-B (índice da ANBIMA que mede o desempenho dos títulos públicos atrelados ao IPCA) é composto por dois subíndices com perfis radicalmente distintos:
- IMA-B 5: títulos com vencimento de até 5 anos, prazo médio em torno de 2 anos, menor volatilidade.
- IMA-B 5+: títulos com vencimento superior a 5 anos, prazo médio de cerca de 11 anos, muito mais sensível à marcação a mercado.
Um Tesouro IPCA+ 2029 e um Tesouro IPCA+ 2045 são, na prática, produtos com perfis de risco muito diferentes apesar do mesmo indexador e emissor.
Comparar esses dois como se fossem a mesma coisa é como tentar comparar no Waze um trajeto de 1km e outro de 50km. O impacto de um engarrafamento em uma pequena rua tende a ser muito menor do que o engarrafamento em uma estrada.
Do lado do CDI, a comparação também precisa ser honesta.
O retorno real do CDI não depende da Selic estar alta em termos nominais, 14,75%, 14,50% , 14,00%, etc, mas sim da diferença entre a Selic e o IPCA.
Uma Selic de 14,5% com inflação de 4% entrega um juro real muito diferente de uma Selic de 6,5% com inflação de 4%. E é ainda mais diferente de uma Selic de 2% com inflação de 4%, cenário que o Brasil viveu em 2020, quando tivemos juro real negativo de -0,78%.
Os estudos: a taxa de entrada importa mais que o indexador
Essa é, provavelmente, a variável mais importante e menos discutida no debate.
Diversos estudos convergem para a mesma conclusão: não é o indexador que define o resultado, mas o nível de taxa real no momento da compra.
Estudo 1: ASA Investments (Fabiano Zimmermann)
Fabiano Zimmermann, Head de Gestão dos fundos ASA Alpha, publicou um artigo técnico intitulado “IMA-B com IPCA+7%: Oportunidade ou armadilha?” que deveria ser leitura para qualquer pessoa que discute esse tema.
Zimmermann estratificou janelas móveis de 1 a 8 anos do IMA-B desde 2006, agrupando os resultados pela taxa real de compra. A conclusão:
| Taxa real de entrada | Probabilidade de superar o CDI |
| IPCA+7,5% | ~89% em janelas de 1 ano; 100% em 2 anos ou mais |
| IPCA+7,0% | 100% a partir de 3 anos |
| IPCA+6,5% | 100% a partir de 4 anos |
| Abaixo de IPCA+5,5% | Risco de underperformance cresce substancialmente |
Fonte: Anbima e BCB. Elaboração: ASA. Período: desde 2006.
A lógica: quando o mercado exige prêmios reais tão elevados, ele embute um nível de pessimismo que raramente se concretiza. Quem compra nesse momento está sendo remunerado pelo medo dos outros.
Mas o estudo é honesto: entre 2022 e 2024, investidores que alocaram em NTN-Bs longas a taxas entre 5,5% e 6,5% viram seus portfólios perderem para o CDI.
A Selic elevada por tempo prolongado dificultou qualquer superação no curto prazo.
Estudo 2: Tag Investimentos – Probabilidade por faixa de taxa
A Tag Investimentos analisou as taxas praticadas desde 2006 e mediu o percentual de tempo em que os títulos IPCA+ superaram o CDI.
Para entradas com taxas entre 6% e 6,5%:
- Em alocações de 1 ano: superou o CDI em 65,46% do tempo.
- Em alocações de 8 anos: a dominância sobe para 91,58% do tempo.
Tempo e taxa de entrada andam juntos. Quanto maior a taxa real de compra e maior o prazo, maior a probabilidade de vencer o CDI.
A Tag também publicou um estudo sobre rebalanceamento: usando uma carteira diversificada (Ibovespa, CDI, IRF-M, IMA-B5 e IMA-B5+) de 2006 a 2016, a carteira diversificada obteve rentabilidade real de quase 80%, contra 60% do CDI puro.
Lição: mesmo quem não quer escolher pode se beneficiar de ter os dois e rebalancear.
Fonte: https://taginvest.com.br/estudo-rebalanceamento/
Estudo 3: Quantum Finance – A raridade das taxas de 7%+
A Quantum Finance analisou os juros reais das NTN-Bs de 2015 a 2025: em 2.490 dias de negociação, a NTN-B 2035 era negociada com juro ≥ 7% em apenas 304 dias (12,21% do tempo).
Para a NTN-B 2045: 9,69%. Taxas de 8%+? Menos de 1% dos dias.
Quem argumenta que “CDI bate IPCA+” quase sempre olha para janelas com taxas médias de 4,5% a 5,5%. Nos momentos em que as taxas disparam para 7%+, os dados históricos contam uma história bem diferente.
O efeito da janela histórica: como construir qualquer narrativa
A janela de tempo que você escolhe para comparar CDI e IPCA+ determina quase completamente a conclusão.
Estudo 4: XP Research — 15 anos de dados
- Janelas de 12 meses a 5 anos: CDI teve desempenho superior na maioria das vezes.
- Janelas de 10 e 15 anos: IPCA+ mostrou maior capacidade de preservar poder de compra.
Na última década, o IMA-B ficou atrás do CDI apenas em 2015, 2021, 2022 e 2024, todos anos de estresse macro.
Dependendo da janela:
- 2022-2024: CDI ganha fácil. Selic elevada, marcação negativa para as NTN-Bs.
- 2016-2020: IPCA+ ganha com folga. Selic caiu de 14,25% para 2%.
- Últimos 10-15 anos: IPCA+ vence na maioria dos anos.
Estudo 5: A “fórmula mágica” do IMA-B 5 (InfoMoney)
Dado impressionante: em janelas móveis de 60 meses (5 anos), o IMA-B 5 superou o CDI em 100% das vezes historicamente.
O IMA-B 5 é a parcela “conservadora” dos títulos de inflação (até 5 anos). A comparação com o CDI é mais justa e, mesmo assim, o resultado é favorável.
O passado não garante o futuro, mas os ciclos econômicos são bem conhecidos: o Brasil convive com inflação pressionada.
Estudo 6: Banco do Brasil — O prazo como divisor de águas
Solange Cruz Zeglin, especialista do BB, traz uma regra prática:
- Até 2 anos: CDI costuma ter melhor desempenho.
- A partir de 3 anos: IPCA+ leva a melhor, com correção mensal pelo IPCA + juros compostos.
Ou seja:
Horizonte curto → CDI.
Horizonte longo com taxa atrativa → IPCA+.
Estudo 7: Sparta — A “pegadinha” do CDI alto
Natália Coura, da Sparta, alerta que títulos IPCA+ podem ter meses negativos, mas defende no mínimo 20% da carteira indexada à inflação.
Comprar IPCA+ com taxas elevadas é como comprar ação na queda: dói no curto prazo, mas o potencial se materializa na normalização.
Prazos segundo Coura:
Abaixo de 5 meses: CDI;
Até 12 meses: mix de IPCA+ e prefixados;
Sweet spot: 4 a 7 anos.
Ulisses Nehmi, CEO da Sparta, complementa: um IPCA+ com 7% real dobra o capital em termos reais em ~10 anos. R$ 100 mil viram R$ 200 mil em poder de compra — ou R$ 284 mil em valor nominal (IPCA de 4% a.a.).
Estudo 8: InvestNews — Panorama da renda fixa em 2026
O InvestNews publicou análise abrangente sobre 2026. Apesar da queda da Selic, o CDI ainda entrega juro real alto no momento do estudo (~13,6% a.a. médio).
A reportagem alerta para volatilidade em ano eleitoral: títulos longos podem oscilar com sinalizações sobre política fiscal.
Quem tem horizonte longo pode ver isso como oportunidade;
Quem precisa de liquidez pode se machucar.
A Sparta, ouvida na mesma matéria, reforça que estratégias indexadas ao IPCA, especialmente debêntures incentivadas, devem ser o principal motor de retorno no médio prazo.
Selic em maio de 2026
O Banco Central cortou a Selic para 14,50% a.a. no final de abril, no segundo corte consecutivo.
O mercado projeta 13% no final de 2026 e 11% em 2027.
IPCA projetado: 4,89% (8ª alta consecutiva).
- O CDI ainda entrega juro real elevado no curto prazo. Selic de 14,5% vs. IPCA ~4,9% = juro real de ~9,6%.
- Mas a tendência de cortes pode favorecer quem travar IPCA+ agora. Com taxas reais de 7%+, a probabilidade histórica de superar o CDI no médio/longo prazo é muito alta.
A taxa real neutra para o Brasil é estimada entre 4,5% e 5,5%. Estar em 7%+ representa um prêmio de risco que historicamente tende a se comprimir — gerando ganhos de marcação a mercado.
Conclusão
O debate entre CDI e IPCA+ não tem vencedor definitivo.
O que os 8 estudos que analisamos nesta edição mostram é que o investidor que entende as três variáveis-chave (taxa real de entrada, prazo e ciclo de juros) tem uma vantagem enorme sobre quem opera no piloto automático.
No cenário de maio de 2026, com a Selic iniciando um ciclo de queda e os títulos IPCA+ ainda oferecendo taxas reais historicamente elevadas, existe uma assimetria favorável para quem consegue ter disciplina e paciência.
O CDI continua sendo excelente para liquidez e proteção de curto prazo e ninguém deveria abandoná-lo.
Mas alocar 100% do patrimônio no pós-fixado é abrir mão de um prêmio real de longo prazo das NTN-Bs que, historicamente, aparece em janelas cada vez mais raras.
A resposta inteligente não é “um ou outro”. É entender quando, quanto e a que preço faz sentido ter cada um.
Apesar dos fortes indícios dos IPCA+ longos performarem melhor em janelas maiores de tempo, a gente precisa se lembrar que retorno passado não é garantia de retorno futuro e cada janela histórica e cenário analisados precisam de um estudo sobre os motivos reais por trás de da performance.
Espero ter ajudado,
Um abraço!
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