Era uma tarde comum. Peguei um baita trânsito no pedágio da Castelo Branco e, de repente, a embreagem simplesmente se foi. Só ficou aquela sensação de apertar o pedal e sentir que ele não responde mais. Fiquei ali, no meio da estrada, atrapalhando o fluxo, com o pisca-alerta ligado — até que um motoqueiro parou e me ajudou a empurrar o carro para o acostamento.
Não foi a primeira vez que esse carro me deixou na mão. Antes disso, depois de passar a noite em um valet, fui ligar o Versa no dia seguinte e ele simplesmente não ligava. A bateria estava morta. Estava nítido que tinham passado algum produto nos contatos na noite anterior para reviver o carro. Menos dramático que o episódio da Castelo, mas suficiente para deixar aquela sensação de que as manutenções começaram a ficar recorrentes e que eu já deveria ter trocado de carro.
Esse carro tinha 13 anos. Mas estava com apenas 50 mil quilômetros, tudo praticamente novo por dentro. Pra ser honesto, eu não queria vendê-lo, dois problemas em tantos anos, para um carro dessa idade, até que foram poucos.
Como você pode perceber, nunca fui tão louco por carro. Gosto de acompanhar as tendências do mercado, mas não sonho com um esportivo na garagem. Pra mim, carro sempre foi simplesmente transporte. O Versa 2012 me dava exatamente o que eu precisava: sair do ponto A e chegar ao ponto B, e um porta malas grande. Simples assim.
Ele nem tinha seguro. Não valia o custo, pois carro antigo tende a dar mais custo para a seguradora, foi um modelo pouco vendido, peças difíceis de achar, e por isso, o seguro era proporcionalmente caro. A solução foi simples: coloquei uma margem maior na reserva de emergência e pronto.
No fim, só vendi porque meus pais trocaram de carro e eu peguei o deles. Pelo estado de conservação do Versa, acreditem, a revendedora me pagou a tabela. Isso quase nunca acontece.
Eu prorroguei essa troca de carro intencionalmente por cerca de cinco anos. Isso porque, adiar o aumento na qualidade de vida é uma das estratégias mais subestimadas para quem quer construir patrimônio.
Não precisa ser algo radical como eu fiz, pode ser simplesmente adiar a troca de carro por um ano, ou se mudar para um aluguel mais caro só depois de dois anos da sua promoção. Pequenos adiamentos com consciência fazem uma diferença enorme no longo prazo.
E tem outro lado dessa moeda que pouca gente considera: o risco de subir o padrão cedo demais. Imagina que você se mudou para um apartamento com aluguel 20% mais caro, comprou os móveis novos no parcelado e dois meses depois perdeu o emprego. Retroagir para o imóvel anterior, ou para o carro anterior, é extremamente frustrante.
A verdade é que a gente se acostuma fácil com coisas boas. Quando você experimenta um nível de conforto melhor, ele vira o novo normal muito rápido. O problema é o caminho inverso. Se precisar voltar ao patamar anterior no futuro, isso dói de um jeito que nenhuma planilha financeira consegue estimar.
Então a ideia é simplesmente não acelerar demais o padrão de vida antes de ter uma base financeira sólida. Mas também não precisa ser tão paranoico quanto eu, que adiou por cinco anos. Meu caso era um pouco diferente, o carro ainda estava novo e esses cinco anos fizeram uma diferença considerável no meu patrimônio.
Quando comecei a cogitar a ideia, o Versa estava na casa dos R$ 40mil e o carro que comprei R$ 90 mil, uma diferença de R$ 50 mil. Como não troquei, vamos dizer que esse valor ficou investido da forma mais simples de todas, a 100% do CDI, durante cinco anos. Esses R$ 50 mil viraram cerca de R$ 84 mil. Um ganho de mais de R$ 34 mil fazendo absolutamente nada, só esperar.
Do outro lado da conta, se eu tivesse comprado o carro de R$ 90 mil e ficado com ele por esses cinco anos, teria um custo expressivo. IPVA de 4% ao ano, seguro em torno de 3%, manutenção perto de 3%, mais a depreciação natural do veículo, em torno de 5% ao ano. Somando tudo, estamos falando em algo próximo de 15% do valor do carro consumidos por ano. Em cinco anos, os custos operacionais e depreciação, chegariam a aproximadamente R$ 69 mil.
O Versa, no mesmo período, me custou bem menos. IPVA baixo de carro popular, cerca de R$ 1,5mil por ano, R$ 2 mil em manutenção e imprevistos no total, e uma depreciação menor de 3% ao ano. Custo total nos cinco anos em torno de R$ 23 mil.
Fazendo uma conta de padaria, a diferença entre as duas decisões chegou a cerca de R$ 80 mil, sendo R$ 46 mil economizados em custos a mais do carro novo, mais R$ 34 mil ganhos investindo a diferença ao ficar com o carro velho. É o equivalente a anos de aporte, a uma reserva de emergência robusta, uma fatia relevante de patrimônio construída simplesmente por ter adiado a troca de um carro.
Eu gosto da ideia de que o veículo não deveria representar mais do que 10% do seu patrimônio total. Pois com os custos reais girando em torno de 15% do valor do carro ao ano, isso representa um impacto de apenas 1,5% do patrimônio por ano, o que é aceitável e sustentável. Por isso, na minha opinião, não faz sentido ter um carro de R$ 100 mil, mesmo que ainda te sobre R$ 200 mil investidos, pois só o veículo te geraria um custo significativo de 5% do seu patrimônio por ano.
Essa lógica vai além do carro. Você pode adaptar para qualquer custo relevante ou upgrade na qualidade de vida, como quem vai fazer uma festa de casamento, um intercâmbio, ou quem quer sair do aluguel e comprar um imóvel, fazer uma viagem internacional por ano, ou até mesmo quem come em restaurantes com frequência e pede delivery recorrentemente. É muito fácil se acostumar com coisas boas. Tirar, depois, é extremamente dolorido.
E tem algo que essa conta não mostra, mas é claro: o “tempo comprado”. Cada real que rende enquanto você dorme é menos tempo que você precisa trabalhar. Cada decisão financeira responsável hoje é um passo a menos para você se aposentar mais cedo e aproveitar a vida de verdade. Essa é minha maior motivação.
Ninguém quer trabalhar a vida toda. Fazendo as contas pelo menos no que mais te gera custo, você toma a decisão certa, constrói um patrimônio duradouro, que te dá um suporte sólido para a virada de chave e ainda adianta a sua aposentadoria.
Dito isso, não quero te deixar na paranoia de guardar cada trocado. Eu tenho minha meta do quanto quero guardar por mês. Mas quando vejo que estou fechando o mês guardando mais do que o planejado, a partir deste momento, a nova meta passa a ser gastar o excedente. Sem culpa.
Cada um deve encontrar o seu ponto de equilíbrio em cada decisão para saber o momento certo da virada de chave.
Forte abraço,
Thales Inada
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