Você acorda em uma segunda-feira de manhã e começa a semana de trabalho se preocupando em dar conta de todos os seus afazeres. Será que tem comida suficiente em casa para os próximos dias? O tanque do carro está cheio? Vou dar conta de entregar a demanda que o/a chefe pediu?
No nosso dia a dia, há tantas coisas que tomam nossa atenção que parece até impossível que possamos acompanhar a fundo algo tão complexo como o mercado financeiro e temas correlatos que interferem no cenário macroeconômico.
Confesso que para mim é mais fácil, afinal, enquanto você se preocupa em se tornar um ou uma profissional de excelência na sua área de atuação, tenho a sorte de já estar inserido no próprio mercado.
Isso, de forma alguma, me dá algum tipo de superpoder. Na verdade, acompanhar o mercado de perto, nem sempre ajuda a rentabilidade da sua carteira.
Sei que o noticiário e as variações diárias do saldo na corretora trazem grande carga de ansiedade. Ainda mais quando esse é o único feedback para avaliar se as coisas estão dando certo ou não
Saldo diminuiu, mercado está ruim. Saldo aumentou, mercado vai bem.
Nós, humanos, temos essa necessidade de domínio das coisas mesmo que não possamos controlá-las. Por isso, tendemos a preferir uma situação que possamos gerenciar de alguma forma mesmo que o resultado da nossa ação seja inútil ou até mesmo capaz de agravar ainda mais o problema.
Vamos a um exemplo?
No livro Freakonomics, o economista Steven Levitt discute, através da análise de dados e profundo embasamento, situações de causa e efeito que costumam contrariar o senso comum.
Em um dos capítulos, Levitt fala sobre essa questão do controle, citando exemplos como o fato de termos mais medo de um acidente de avião, mesmo que um revés desse tipo seja mais provável estando em um carro.
Segundo o autor, se compararmos o número de acidentes por horas de voo com o de ocorrências fatais de carro por horas de trajeto, teremos um resultado muito semelhante. Mas, como a maioria de nós passa mais tempo dentro de um carro do que voando, há muito mais chances de nos envolvermos em um acidente automotivo do que aéreo.
Ainda assim, ouvimos com muito mais frequência a frase “tenho medo de avião” do que “tenho medo de andar de carro”.
E qual seria a razão disso?
A resposta passa pela sensação de controle (ou a falsa sensação) que temos sobre algumas situações.
Você não está pilotando o avião, e isso gera uma grande ansiedade, como se você estivesse à mercê do acaso. Por outro lado, nos sentimos mais seguros ao dirigir um carro pelo fato de acreditar que temos a habilidade de escapar de um acidente.
Com nossos investimentos, passamos por uma reação psicológica semelhante.
Sabemos que não podemos controlar o mercado, mas temos a falsa sensação de que estamos no comando dos investimentos que fazemos, como se fossemos capazes de fugir de grandes quedas se estivermos atentos o bastante e mudarmos de posição com agilidade.
Temos, sim, domínio sobre a escolha de comprar ou vender ativos, mas, na prática, essa tentativa de tentar fazer market timing dá errado na maioria das vezes. Ou seja, para que a gente se sinta melhor, acabamos seduzidos pela vontade de reagir aos acontecimentos de mercado mesmo que, em média, isso faça com que a rentabilidade obtida no longo prazo seja pior.
Uma boa carteira não se torna ruim por se desvalorizar em um momento ruim de mercado, mas, sim, se ela cair de maneira descontrolada e irrecuperável. Agora, se ela sofre quedas moderadas e, principalmente, é capaz de capturar a retomada quando o mercado se recupera, no longo prazo ela se provará eficiente.
Ainda assim, queremos controlar nossos retornos todos os dias, pois, da mesma forma que nos sentimos mais seguros ao pilotar um carro do que andar de avião por estarmos dirigindo, se o mercado está ruim, nos sentimos mais confortáveis quando fazemos alguma mudança em nossa carteira.
Eu costumo dizer que gosto de uma carteira robusta e que tenha o objetivo de atravessar as crises, e não fugir delas.
Assim, desapegue dessa necessidade de querer controlar demais as coisas, mas nem tanto a ponto de não se preocupar em ter um bom plano e uma boa carteira para o longo prazo.
Na verdade, a única preocupação que você deveria com seus investimentos é se você já possui um bom plano de alocação para o longo prazo e em continuar com a disciplina de aportes recorrentes e rebalanceamento.
Se sim, concentre sua atenção em outras esferas de sua vida, ainda mais sabendo que tem o time da Finclass para se preocupar com os mercados por você.
Um grande abraço,
Felipe Arrais