mar, 2026 Colunistas

Será que a festa dos fundos de crédito privado acabou?

Rodrigo Xavier

É inegável que os últimos anos foram um ótimo período para fundos de crédito privado no Brasil.

A taxa Selic em patamares historicamente elevados, combinada com uma demanda crescente por renda fixa, criou um ambiente quase perfeito: os investidores migravam em massa para a classe e os fundos entregavam retornos acima do CDI com certa tranquilidade.

Porém, como toda festa, esta também tinha hora para acabar, e aparentemente estamos vivendo a ressaca.

Imagine um restaurante que trabalhou com lotação máxima por anos. Por conta da fila de espera garantida, o dono foi gradualmente reduzindo a qualidade dos ingredientes sem que ninguém reclamasse e aumentando a margem de lucro do seu negócio.

Apesar da piora na qualidade dos pratos, os clientes continuavam procurando pelo restaurante e pagando um preço que talvez já estivesse muito alto para o que era oferecido.

No caso dos fundos, a captação era tanta, que os papéis disponíveis no mercado começaram a ficar mais escassos e a oferecer cada vez menos retorno excedente ao CDI.

A situação chegou a um ponto onde algumas empresas de alta qualidade passaram a ofertar taxas abaixo dos títulos públicos equivalentes.

Juros em 15% ao ano por um período prolongado cobram um preço das empresas. Companhias que pareciam sólidas começaram a mostrar rachaduras: Americanas em 2023, Light logo depois, e, mais recentemente, Raízen e GPA – que entraram com pedidos de recuperação extrajudicial neste mês.

O que parecia ser um risco controlado para investidores desavisados foi se tornando uma realidade complexa, um lembrete ao mercado que crédito privado carrega risco também.

Eis que a perspectiva de queda na Selic chega acompanhada de um ambiente onde diversos problemas já ocorreram. Daí surge um pensamento contraintuitivo: a queda dos juros reduz o risco de inadimplência das empresas, o que é positivo, mas ao mesmo tempo desloca investidores para outras classes de ativos mais atrativas.

A pergunta que se fazia é se valia a pena continuar exposto a esse risco por uma remuneração cada vez menor.

Os investidores simplesmente se sentiram desconfortáveis e passaram a resgatar gradualmente.

Esse movimento tem consequências diretas: menos demanda por debêntures significa pressão vendedora no mercado secundário, queda nos preços dos papéis e, consequentemente, queda no valor das cotas, o que gera ainda mais resgates – um ciclo que se retroalimenta.

Para quem migrou para a classe esperando um CDI turbinado com baixo risco, a surpresa foi desagradável.

Minha visão:

Faço diversas reuniões com gestores de crédito, e esta newsletter traduz minha visão sobre o momento, formada também a partir dos insights que eles me trazem nessas conversas. Mesmo fundos com ótimas equipes e estruturas sólidas sofreram retornos abaixo do CDI, pois o efeito de alguns eventos acabou contaminando o segmento como um todo.

O momento atual pede cuidado, mas não pânico. O crédito privado continua tendo papel relevante em carteiras bem construídas, e a abertura de spreads (diminuição do retorno dos ativos na carteira), apesar de doer no curto prazo, cria oportunidades reais para quem tem horizonte longo e gestores competentes.

O sentimento geral é de que, embora a festa tenha acabado e a ressaca ainda esteja presente, o pior pode já ter passado. A experiência desse ciclo traz aprendizados importantes que podem representar uma boa oportunidade à frente.

Um grande abraço e bons investimentos!

Rodrigo Xavier

Especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass e analista CNPI. É bacharel em Economia com pós-graduação em Mercados Financeiros, com passagens profissionais pela CDHU e Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos.
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