É inegável que os últimos anos foram um ótimo período para fundos de crédito privado no Brasil.
A taxa Selic em patamares historicamente elevados, combinada com uma demanda crescente por renda fixa, criou um ambiente quase perfeito: os investidores migravam em massa para a classe e os fundos entregavam retornos acima do CDI com certa tranquilidade.
Porém, como toda festa, esta também tinha hora para acabar, e aparentemente estamos vivendo a ressaca.
Imagine um restaurante que trabalhou com lotação máxima por anos. Por conta da fila de espera garantida, o dono foi gradualmente reduzindo a qualidade dos ingredientes sem que ninguém reclamasse e aumentando a margem de lucro do seu negócio.
Apesar da piora na qualidade dos pratos, os clientes continuavam procurando pelo restaurante e pagando um preço que talvez já estivesse muito alto para o que era oferecido.
No caso dos fundos, a captação era tanta, que os papéis disponíveis no mercado começaram a ficar mais escassos e a oferecer cada vez menos retorno excedente ao CDI.
A situação chegou a um ponto onde algumas empresas de alta qualidade passaram a ofertar taxas abaixo dos títulos públicos equivalentes.
Juros em 15% ao ano por um período prolongado cobram um preço das empresas. Companhias que pareciam sólidas começaram a mostrar rachaduras: Americanas em 2023, Light logo depois, e, mais recentemente, Raízen e GPA – que entraram com pedidos de recuperação extrajudicial neste mês.
O que parecia ser um risco controlado para investidores desavisados foi se tornando uma realidade complexa, um lembrete ao mercado que crédito privado carrega risco também.
Eis que a perspectiva de queda na Selic chega acompanhada de um ambiente onde diversos problemas já ocorreram. Daí surge um pensamento contraintuitivo: a queda dos juros reduz o risco de inadimplência das empresas, o que é positivo, mas ao mesmo tempo desloca investidores para outras classes de ativos mais atrativas.
A pergunta que se fazia é se valia a pena continuar exposto a esse risco por uma remuneração cada vez menor.
Os investidores simplesmente se sentiram desconfortáveis e passaram a resgatar gradualmente.
Esse movimento tem consequências diretas: menos demanda por debêntures significa pressão vendedora no mercado secundário, queda nos preços dos papéis e, consequentemente, queda no valor das cotas, o que gera ainda mais resgates – um ciclo que se retroalimenta.
Para quem migrou para a classe esperando um CDI turbinado com baixo risco, a surpresa foi desagradável.
Minha visão:
Faço diversas reuniões com gestores de crédito, e esta newsletter traduz minha visão sobre o momento, formada também a partir dos insights que eles me trazem nessas conversas. Mesmo fundos com ótimas equipes e estruturas sólidas sofreram retornos abaixo do CDI, pois o efeito de alguns eventos acabou contaminando o segmento como um todo.
O momento atual pede cuidado, mas não pânico. O crédito privado continua tendo papel relevante em carteiras bem construídas, e a abertura de spreads (diminuição do retorno dos ativos na carteira), apesar de doer no curto prazo, cria oportunidades reais para quem tem horizonte longo e gestores competentes.
O sentimento geral é de que, embora a festa tenha acabado e a ressaca ainda esteja presente, o pior pode já ter passado. A experiência desse ciclo traz aprendizados importantes que podem representar uma boa oportunidade à frente.
Um grande abraço e bons investimentos!
Rodrigo Xavier