abr, 2026 Colunistas

Qual é mais seguro, carro ou avião?

Thales Inada Thales Inada

Na véspera do último feriado, eu estava lá, parado no trânsito da Marginal por duas horas, a caminho da casa dos meus pais. Comecei a reparar no que acontecia ao meu redor.

Um carro trafega pelo acostamento, enquanto outro cola no meu para-choque. Ao redor, dezenas de caminhões parados irregularmente esperando o horário das 21h para poderem circular pela cidade. Nesse meio-tempo, uma moto passa no corredor a 90 km/h.

Tudo parece normal. Só mais um dia no trânsito de São Paulo.

Agora me diz: você sentiu aquele friozinho na barriga na sua primeira viagem de avião? Já pegou uma turbulência daquelas de dar medo?

Algumas pessoas até têm pavor de avião e se recusam a voar. Eu entendo, realmente parece perigoso: um tubo de metal voando a 900 km/h e a 12 mil metros de altitude. Sem contar que estamos nas mãos de outra pessoa e ficamos incapazes de reagir a qualquer situação.

Mas eu vou contar uma coisa que mudou minha forma de enxergar os riscos, não só na estrada, mas também na forma com que eu lido com o dinheiro.

Sou engenheiro civil com foco em transportes. Passei anos estudando como funcionam os aeroportos, rodovias e até portos, além do comportamento das pessoas e as principais causas de acidentes.

A partir disso, deixa eu fazer uma pergunta simples: o que é mais seguro, andar de carro ou de avião?

Se você respondeu “avião”, parabéns, a resposta está correta. Porém, provavelmente você não tem ideia da proporção.

O avião comercial é cerca de 100 vezes mais seguro que o carro, considerando a distância percorrida. A chance de morrer num voo comercial é de 1 em 13,7 milhões de embarques; em um acidente de carro, a estimativa é de 1 em 93 ao longo da vida.

Em 2025, aconteceram “apenas” oito acidentes de avião com vítimas fatais. Quando um avião cai, vira manchete mundial, justamente porque quase nunca acontece e o número de vítimas é sempre alto. Enquanto isso, segundo o Ministério da Saúde, mais de 100 pessoas morrem diariamente no trânsito brasileiro. Em termos de números, é como se tivéssemos o equivalente a um avião caindo a cada dois dias.

E por que a gente ignora esse risco? A resposta é simples: costume.

O carro faz parte da nossa rotina. A gente se acostuma a ele e cria a ilusão de que está controle da situação. Porém, no trânsito, a sua segurança não depende só de você.

Depende dos outros motoristas, que podem ou não estarem embriagados, correndo a 200 km/h, fazendo uma ultrapassagem irresponsável, ou até mesmo do caminhão que ficou sem freio por falta de manutenção e engavetou dez veículos.

Ou seja, você aceita esse risco enorme todos os dias sem perceber. Mesmo assim, o medo de voar é mais comum entre as pessoas, uma situação em que o risco é estatisticamente irrelevante.

No mercado financeiro, acontece algo parecido.

Pense no caso recente do Banco Master, que oferecia um CDB “inofensivo”, o investimento que atrai muitos investidores porque aprenderam que é o mais simples e seguro.

É você dirigindo o carro: entra nele achando que sabe onde está pisando, mas corre um risco desconhecido.

Até que vem o acidente: mais de 1,6 milhão de investidores impactados, cerca de R$ 50 bilhões imobilizados.

O CDB, que parecia seguro para tanta gente e que poucos questionavam, carregava um risco muito acima da média, mas quase desconsiderado por tanta gente.

Agora, vamos para o mercado cripto. Quando eu falo nas altcoins, a maioria das pessoas reage com receio: “isso é muito arriscado”, “é cassino” ou “pode cair 90%.”

De fato, pode cair mesmo. É volátil, agressivo e definitivamente – não é pra todo mundo.

O que importa é que, nesse caso, o risco é conhecido.

Você sabe onde está pisando e que o ativo pode cair bastante antes de colocar um centavo. Quando você conhece o tamanho do risco, você pode dimensionar melhor a sua exposição.

Com os 3% da carteira da Finclass alocados em alternativos, mesmo que essa classe caia 50%, o impacto na carteira como um todo é só de 1,5%. É uma perda que até a renda fixa consegue compensar rápido.

Você pode estudar, testar, errar pequeno e aprender. Inclusive, sugiro que experimente o risco. Isso faz parte do seu processo de evolução como investidor.

É a mesma lógica do avião. Parece perigoso, dá frio na barriga, mas quando você entende como ele funciona e os números que atestam sua segurança, entende que, por trás daquele medo, existe um dos sistemas mais seguros já criados pelo ser humano.

Então, você embarca e consegue ir mais longe de forma mais rápida, voando para lugares onde não conseguiria chegar de outro modo – ou pelo menos demoraria muito mais tempo.

Eu já fiz mais de 50 voos e nunca tive um problema sequer, nem mesmo como uma turbulência mais forte. Já no trânsito, quase todos os dias, vemos acidentes a qualquer hora, em qualquer lugar.

Curioso: a gente convive com um risco maior, mas ignorado, enquanto teme o baixo risco.

Do mesmo jeito que você se acostuma com o perigo de dirigir, você também pode aprender a lidar com o risco do mercado de ações ou do mercado cripto.

É muito comum no mercado financeiro as pessoas fugirem de ativos que são considerados “agressivos” e não tolerarem uma perda por menor que seja. Contudo, conhecendo o risco que você está correndo, basta adaptá-lo ao seu perfil. Aliás, a gestão desse risco é uma das etapas de análise que fazemos continuamente para vocês na Finclass.

Sair da sua posição extremamente conservadora e aumentar um pouco o risco da sua carteira de forma consciente pode te levar mais rápido para seu destino final.

Forte abraço e até a próxima,

Thales Inada

Thales Inada
Especialista em criptoativos e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro de formação, com MBA em investimentos e Asset Allocation, iniciou no mercado de criptoativos em 2017, com passagem por importantes exchanges como Binance, Mercado Bitcoin e XDEX.
Assine grátis