Acordei nostálgico hoje, pois meus pensamentos remetiam ao início dos anos 2000. Ali, com meus 18 anos, iniciando o curso de Ciências Econômicas na Universidade Mackenzie, dava meus primeiros passos no mercado de trabalho.
Ainda longe do universo do mercado financeiro, minha jornada teve início como professor em uma rede de escolas de informática que até hoje é muito popular.
Os computadores de mesa, os famosos desktops, começavam a chegar aos lares das pessoas com maior intensidade. A popularização do uso, tanto na esfera profissional, quanto, a partir de então, no âmbito particular, foi uma mola propulsora para que mais e mais gente quisesse aprender sobre aquele novo equipamento que começava a se tornar parte vital de nossos dias.
Foram muitos os conteúdos de diversos cursos que ministrei nessa etapa de minha vida profissional. Ensinei alunos e alunas sobre construção de planilhas, preparação de apresentações, montagem e manutenção de computadores e redes, entre outros tantos assuntos.
Um dos cuidados que eu tinha com os marinheiros de primeira viagem era com a digitação. Sim, algo tão elementar, mas a própria popularização dos computadores nas casas das pessoas teve como efeito colateral um primeiro contato com esse processo, muitas vezes sem a devida preparação.
Não foram poucos os alunos e alunas que chegaram a mim com algum conhecimento prévio, mas com a famosa digitação “pega milho”, ou seja, fazendo uso apenas dos dedos indicadores das mãos.
Ensinar a digitar corretamente só tem um caminho: técnica da repetição usando o posicionamento correto das mãos e dedos. E aí surgiam as primeiras reclamações:
“Ricardo, eu digito mais rápido do meu jeito!”
Minha resposta era sempre a mesma: “velocidade sem técnica não é velocidade, é só pressa. Você não é veloz, é só uma pessoa apressada”.
Um ou outro olhar atravessado era a resposta imediata, mas o tempo era meu álibi. Com o passar dos dias usando a técnica correta, eis que a pessoa percebia que verdadeiramente se tornava mais veloz, e a razão era óbvia: o uso de todos os dedos, da forma correta, teria que gerar maior eficiência do que ficar “pegando milho” no teclado.
Essa nostalgia veio justamente porque, dia após dia, vejo inúmeras situações em que investidores e investidoras cedem à pressa, na esperança de verem seu patrimônio crescer mais rapidamente.
Promessas de ganhos elevados com pouco ou nenhum risco, irreais para quem conhece as verdadeiras possibilidades do mercado financeiro, ativam o modo pressa em pessoas que, cedo ou tarde, acabam se frustrando.
A verdadeira velocidade na acumulação de patrimônio está na conjunção dos dois fatores que ensinei aos meus alunos e alunas para otimizar a digitação: disciplina e técnica.
A disciplina está na aplicação verdadeira e genuína da técnica. O histórico de dados é farto para sustentar que investidores disciplinados, que construíram portfólios diversificados, mantiveram aportes e fizeram reinvestimentos durante a fase de acumulação, construíram patrimônio sólido e de qualidade.
A técnica mora na teoria de finanças, na boa diversificação, no respeito aos dados e indicadores técnicos. A teoria moderna de portfólio, conhecida como Teoria de Markowitz, por exemplo, tem por objetivo gerar uma alocação entre diversos ativos, visando a otimizar a relação risco versus retorno. Inclusive rendeu o Prêmio Nobel de Economia de 1990 ao seu criador, Harry Markowitz.
Onde você acha que mora o sucesso? No bom uso da teoria de finanças que, em alguns casos, como vimos, pode render o prêmio máximo da ciência, ou na dica quente de influencer, que diz que tal ativo vai “estourar”, mas apenas essa pessoa percebeu, ninguém mais viu? Curioso pensar que grandes bancos e gestoras com escala global, times de gestão com grande capacidade técnica e ferramentas tecnológicas de ponta não perceberam essa “molezinha”.
O bom portfólio, aquele capaz de gerar uma acumulação de patrimônio, é por essência um portfólio diversificado. Sim, respeita as individualidades de cada pessoa – dentre elas, perfil de risco, acesso aos produtos, disponibilidade de capital para investimento –, mas, independentemente de tais premissas, a diversificação é característica inerente.
O mercado financeiro vem se sofisticando de tal forma que cada vez mais um grupo mais heterogêneo de investidores tem acesso aos mais diversos tipos de produto. Não existe razão com respaldo técnico que sustente uma alocação em um só ativo ou uma só classe deles, não importa se for renda fixa, ações ou fundo imobiliário. E também não existe razoabilidade para nem sequer ter uma alta concentração em qualquer classe, independentemente de qual seja, quando se analisa à luz da boa teoria de finanças.
Da mesma forma que as “dicas quentes” do próximo ativo que irá bombar estão aí, ao alcance de qualquer investidor ou investidora, os dados para fundamentar uma boa análise também estão. As dicas estão ligadas à pressa; os dados, à velocidade – e você tem o livre arbítrio da escolha.
Se apenas um ativo ou uma classe de ativos bastasse, grandes investidores institucionais, muito antes de nós, já teriam percebido e teriam seus portfólios lastreados apenas nesses oásis. Tenhamos a humildade de admitir que dificilmente nós, investidores individuais, vamos nos posicionar antes e melhor do que os gigantes institucionais do mercado simplesmente porque pegamos aquela “dica preciosa” na rede social em que gastamos relevante parte do dia, parte inclusive que poderia ser alocada em melhorar nossa técnica em investimentos.
Dinheiro não aceita desaforo. Tenha capricho na gestão do seu, independentemente do tamanho do seu patrimônio, afinal, como diz o maravilhoso professor e filósofo Mario Sérgio Cortella, capricho é “fazer o seu melhor na condição que você tem, enquanto você não tem condições melhores para fazer melhor ainda.”
Se você tem a possibilidade, de forma disciplinada, de investir um pouquinho por mês, tenha capricho com seu dinheiro e procure investir com a melhor técnica que for possível, seja estudando, seja contando com a ajuda de especialistas. Mantenha a disciplina em relação ao respeito à técnica e na regularidade dos aportes.
Como o professor Cortella nos ensina, o capricho independe de padrões sociais. Com muito ou com pouco, tenha esmero na gestão de seus investimentos. E lembre-se de que capricho não combina com pressa, mas pode muito bem ser visto de mãos dadas com a velocidade. Isso porque ela é, na maioria dos casos, derivada da execução técnica em sua excelência.
Um grande abraço,
Ricardo Figueiredo