jan, 2026 Investimentos

LPA: o que é, como calcular e como analisar o lucro por ação?

Luiz Guilherme Aboim

Quem compra ações quer lucrar – isso é fato. Para isso, antes a empresa emissora de ativos precisa registrar lucros, e uma das formas de analisar esse desempenho é por meio do LPA, sigla para lucro por ação.

No entanto, assim como acontece com outros indicadores, um número alto não necessariamente é uma boa notícia, assim como uma queda pontual não significa automaticamente que determinada ação não vale a pena.

É justamente para explicar essa dualidade que vamos abordar tudo o que é necessário para entender esse indicador e como ele pode fazer parte de uma análise.

O que é LPA?

O LPA (lucro por ação) é um indicador fundamentalista que mostra quanto do lucro líquido de uma empresa corresponde a cada ação emitida. Ele representa a parcela do lucro atribuída a um único papel.

Para você ter noção, investidores e analistas o utilizam na comparação de empresas de tamanhos diferentes, mas com uma métrica proporcional.

Inclusive, esse indicador também serve como base para outros cálculos importantes, como o P/L (Preço/Lucro), que usa o LPA como denominador. Além disso, o LPA ajuda a observar a evolução da lucratividade por ação ao longo do tempo, bem como identificar tendências positivas ou problemas estruturais nos resultados da companhia.

Qual o significado do LPA?

O LPA indica quanto lucro líquido efetivamente pertence a cada ação. Dessa maneira, quando o LPA cresce, significa que a empresa está aumentando sua capacidade de gerar lucro proporcionalmente ao número de ações em circulação.

Em termos mais simples, ele mede o quanto a companhia cria valor para o acionista em termos puramente contábeis.

O significado do indicador também está ligado à eficiência operacional e financeira da empresa. Um LPA crescente ao longo dos anos sugere que o negócio consegue expandir receitas, margens ou desempenho operacional. Já um LPA instável ou decrescente, por outro lado, tende a sinalizar fragilidades, aumento de custos, perda de competitividade ou diluição acionária.

Quais são os tipos de LPA?

Existem diferentes formas de analisar o Lucro Por Ação, que trazem perspectivas temporais distintas. Os analistas costumam dividir o LPA em três categorias principais: LPA corrente, LPA atual e LPA futuro.

LPA corrente

O LPA corrente usa o lucro líquido dos últimos 12 meses e é a forma mais utilizada no mercado, já que capta o desempenho recente da empresa. Aliás, esse período móvel de 12 meses ainda suaviza distorções sazonais e serve para comparar empresas de diferentes ciclos operacionais.

Como reflete o lucro já realizado, o LPA corrente é considerado mais sólido e menos sujeito a distorções do que projeções ou números pontuais trimestrais. Além disso, é frequentemente usado em indicadores como P/L corrente.

LPA atual

O LPA atual é calculado com base no lucro líquido do ano fiscal mais recente divulgado (geralmente o ano cheio anterior). Diferentemente do LPA corrente, ele não considera os últimos 12 meses, mas sim o resultado fechado do período contábil oficial.

Esse tipo de LPA é muito utilizado em relatórios anuais, comparações históricas e análises de longo prazo. Porém, pode ficar desatualizado rapidamente, especialmente em setores cíclicos.

LPA futuro

O LPA futuro corresponde à projeção de lucro por ação esperada para os próximos períodos – normalmente 12 meses à frente. Ele é estimado por analistas com base em guidance, desempenho recente, condições de mercado e modelos financeiros.

Embora seja útil para avaliar expectativas e precificação futura da ação, o LPA futuro depende de premissas e estimativas, logo, carrega maior incerteza. É comum ser usado em indicadores como o P/L futuro, além de ser bastante utilizado em análises de valuation.

Como se calcula o LPA?

A fórmula para calcular o lucro por ação é a seguinte:

LPA = lucro líquido / número de ações emitidas

Para entender melhor sua aplicação, vamos a um exemplo simples:

  • Lucro líquido anual: R$ 500 milhões;
  • Número total de ações: 250 milhões.

Nesse caso, a fórmula ficaria assim:

LPA = 500.000.000 / 250.000.000 = 2

Ou seja, o LPA é R$ 2. Mas atenção: esse valor isolado não diz se a empresa é boa ou ruim, apenas serve como base para comparações:

  • Se o LPA está crescendo ao longo dos anos, isso indica expansão da lucratividade por ação;
  • Se está caindo, pode sinalizar piora operacional, aumento de despesas ou diluição acionária;
  • Quando comparado ao preço da ação (no P/L), ajuda a avaliar se o papel está caro ou barato em relação ao lucro que produz.

Como interpretar o LPA?

Algumas interpretações comuns para o LPA incluem:

  • LPA crescente: a empresa está aumentando sua geração de lucro por ação;
  • LPA estável: indica solidez ou crescimento moderado;
  • LPA decrescente: pode ser um alerta para queda de lucratividade;
  • LPA muito alto ou muito baixo repentino: pode vir de evento não recorrente, como ganho ou perda na venda de ativo;
  • Comparar empresas pelo LPA absoluto não faz sentido: deve ser observado evolução e relação com preço (P/L);
  • Diluição acionária afeta o LPA: aumento do número de ações reduz o lucro por ação.

Importante: o LPA, assim como outros índices, jamais deve ser analisado de maneira isolada. Sem outras informações para ampará-lo, o lucro por ação pode te levar a equívocos de análise ou imprecisões.

Dois vetores do LPA

Ao analisar a evolução do LPA, é fundamental decompor sua variação em dois componentes: o efeito lucro e o efeito quantidade de ações. Essa decomposição permite distinguir ganhos operacionais genuínos de movimentos decorrentes apenas de engenharia financeira.

Em condições “normais”, o LPA cresce quando o lucro aumenta e diminui quando o lucro recua. Contudo, como o LPA é definido como o lucro líquido dividido pelo número de ações, mudanças na base acionária podem distorcer a leitura da performance operacional. Veja alguns exemplos:

Recompra de ações e alta do LPA

Na recompra de ações (buyback), a empresa reduz o número de ações em circulação; mantendo-se o lucro líquido constante, o LPA aumenta mecanicamente. Assim, mesmo em um cenário de lucro estagnado – ou até de prejuízo menor em relação ao período anterior –, o LPA pode melhorar apenas pela contração do denominador, sem qualquer ganho real de geração de valor.

Quando a recompra utiliza caixa excedente que renderia menos que o custo de capital, o efeito econômico tende a ser positivo, e o aumento do LPA costuma ser sustentável.

Já recompras financiadas por dívida ou realizadas a múltiplos elevados podem pressionar o lucro futuro via maiores encargos financeiros ou alocação ineficiente de capital, tornando o ganho de LPA temporário ou até negativo.

Follow-on e queda do LPA

Em uma oferta subsequente de ações (follow-on), a empresa pode realizar um aumento de capital para reduzir endividamento. Nesse caso, o lucro pode até crescer, porém, se o número de ações aumentar em proporção maior, o LPA cai por efeito de diluição.

É o típico caso de desalavancagem: o risco financeiro diminui, mas o mesmo lucro passa a ser dividido por uma base acionária maior, comprimindo o LPA no curto prazo.

Conversão de dívida em ações

Na conversão de dívida em ações, credores tornam-se acionistas: a dívida é reduzida, o patrimônio líquido aumenta, mas há emissão de novas ações, gerando diluição dos acionistas originais. Com mais ações em circulação, o LPA tende a cair no curto prazo.

Entretanto, a redução das despesas financeiras pode elevar o lucro líquido nos períodos seguintes, mitigando ou até revertendo parte dessa queda.

Embora a diluição seja negativa para o LPA imediato, a operação pode ser economicamente racional se o alívio no serviço da dívida e a menor probabilidade de estresse financeiro criarem condições para a retomada sustentável do crescimento do lucro.

Para fins analíticos, é útil comparar o LPA pré e pós transação, bem como simular um LPA contrafactual – isto é, o LPA que a empresa teria mantendo a estrutura de capital anterior –, a fim de avaliar o trade-off entre risco de default e diluição.

Como analisar o LPA em diferentes setores?

Na hora de analisar o LPA, é necessário sempre levar em conta as particularidades do setor em que a empresa atua, porque cada segmento tem dinâmicas de custos, margens, ciclos de lucro e intensidade de capital completamente diferentes.

Veja só: um LPA alto não é automaticamente melhor e um LPA baixo não é necessariamente ruim. Tudo depende do padrão típico daquele setor e das expectativas de crescimento.

A seguir, veja como interpretar o indicador de forma contextualizada em alguns setores relevantes da Bolsa.

1 – Setor bancário e financeiro

O setor financeiro costuma apresentar lucros elevados e relativamente estáveis, o que leva a LPAs historicamente robustos. Nesse segmento, um LPA alto é esperado porque bancos têm margens amplas, escalabilidade e receitas recorrentes de crédito (receitas de intermediação financeira), receitas de prestação de serviços (tarifas bancárias, seguros, previdência, serviços para empresas e serviços de investimentos) e outras receitas.

Por isso, uma análise eficiente envolve observar se o LPA cresce de forma consistente e se acompanha indicadores como inadimplência, margem financeira e eficiência operacional – qualquer deterioração nesses itens tende a refletir diretamente no lucro por ação.

Além disso, é importante comparar o LPA do banco com seus concorrentes diretos, pois instituições grandes, médias e digitais têm estruturas de lucro bastante distintas.

Um LPA menor em um banco digital, por exemplo, pode ser aceitável se a empresa estiver em fase de forte expansão e reinvestimento. Já nos grandes bancos tradicionais, quedas sucessivas no LPA são um sinal relevante de alerta, especialmente se acompanhadas de retração na carteira de crédito ou aumento de provisões.

2 – Setor de energia elétrica (utilities)

Empresas de energia elétrica costumam ter LPAs mais estáveis, afinal, operam em um setor altamente regulado, com receitas previsíveis e contratos de longo prazo.

Isso significa que o LPA não costuma variar de forma brusca. Logo, pequenas oscilações já valem uma análise mais cuidadosa. Aqui, investidores devem verificar se o LPA acompanha a evolução da base de ativos regulatórios, revisões tarifárias e eficiência operacional.

Outro ponto importante é que, nesse setor, o LPA não é o principal destaque isolado. Empresas de energia são intensivas em capital, e grande parte do lucro é direcionada a investimentos. Por isso, é comum ver LPAs moderados, mas dividendos consistentes.

3 – Setor de varejo

O varejo é um setor que geralmente trabalha com margem mais modesta e alta sensibilidade econômica, o que faz com que o LPA seja naturalmente mais volátil. Um trimestre ruim de consumo, aumento de juros ou pressão de custos pode derrubar o resultado, e tudo isso aparece rapidamente no LPA.

Por isso, o ideal é observar tendências mais longas, na missão de avaliar se a empresa cresce consistentemente o lucro por ação ao longo de diversos ciclos econômicos.

Além disso, é preciso contextualizar o LPA com fatores como expansão de lojas, digitalização e despesas logísticas. Muitas empresas em expansão apresentam um LPA menor no curto prazo (por causa dos investimentos), mas isso pode ser positivo se gerar crescimento futuro.

4 – Setor industrial e de bens de capital

Esse setor costuma ter resultados cíclicos, fortemente afetados por demanda global, câmbio e preços de matérias-primas. Assim, o LPA tende a oscilar bastante.

Nos setores industriais e de bens de capital, a demanda está fortemente associada ao ciclo econômico: a receita tende a cair quando a economia desacelera ou entra em recessão e a se recuperar quando o crescimento é retomado.

Além disso, quanto maior a participação de custos fixos na estrutura de produção, maior é a sensibilidade do lucro às variações da receita.

Nesse caso, a recomendação é avaliar se a empresa consegue manter rentabilidade aceitável mesmo em momentos de ciclo baixo, interpretando o LPA em conjunto com carteira de pedidos, eficiência produtiva e custos operacionais.

Além disso, é importante comparar o LPA com o histórico da própria empresa ao longo de diferentes ciclos econômicos. Um LPA alto durante uma fase positiva do ciclo é comum, e o fator mais relevante é observar como o indicador se comporta em fases desfavoráveis. Empresas mais resilientes tendem a manter um LPA mínimo aceitável, enquanto outras “desaparecem” nos trimestres ruins.

5 – Setor de tecnologia

Empresas de tecnologia frequentemente apresentam LPAs baixos ou até negativos nas fases iniciais, já que priorizam investimento e crescimento acelerado.

Por isso, nesse setor, o mais relevante é observar a evolução da receita, o tamanho do mercado endereçável (TAM) e a curva de maturação do negócio. Um LPA negativo não é necessariamente um problema se a empresa estiver expandindo rapidamente e apontando para rentabilidade futura.

empresas de tecnologia mais maduras costumam ter LPAs crescentes e margens elevadas, então quedas sucessivas no lucro por ação são um sinal de alerta.

A análise deve considerar também indicadores como churn rate (percentual de clientes que deixaram de ser clientes ativos), aquisição de clientes e estabilidade de receitas recorrentes (SaaS), que influenciam diretamente a sustentabilidade do LPA no longo prazo.

Como usar o LPA em uma análise?

O LPA é uma base importante para entender a lucratividade proporcional de uma empresa, mas deve ser analisado dentro de um conjunto maior de indicadores. Por si só, ele ajuda a identificar se a empresa tem expandido seus resultados de maneira sustentável – ou seja, avalia tanto eficiência quanto geração de valor.

A comparação histórica também é um de seus papéis em análises: o crescimento do LPA ao longo dos anos é um dos sinais mais importantes de qualidade da empresa. Essa análise temporal revela tendências estruturais, estabilidade ou risco.

E mais: o LPA serve como insumo para métricas como P/L, payout e dividendos por ação. É por tudo isso, inclusive, que ele figura frequentemente em avaliações fundamentalistas, já que traz uma visão mais equilibrada sobre preço, lucro, risco e crescimento.

Recapitulando os pontos mais importantes

Você encontrará o LPA com frequência em análises fundamentalistas, já que o indicador representa quanto lucro corresponde a cada ação. Mas não é só isso: ele também serve para comparar empresas, identificar tendências de lucratividade e avaliar a criação de valor ao longo do tempo.

Mas como é de praxe no mercado de investimentos, o LPA não deve ser analisado isoladamente. Ele sofre impacto de fatores como diluição acionária, eventos não recorrentes e ciclos setoriais, então, a melhor abordagem é combiná-lo com indicadores complementares, como margem líquida, ROE, ROIC, dívida líquida/EBITDA e análise de crescimento.

Perguntas frequentes sobre LPA

Ainda tem dúvidas sobre o uso do lucro por ação em análises? Respondemos as mais frequentes para te ajudar.

O que significa um LPA negativo?

Um LPA negativo significa que a empresa teve prejuízo no período analisado. Ou seja, que o negócio não conseguiu gerar lucro para o acionista naquele ciclo. Um LPA negativo persistente também pode sinalizar problemas estruturais, como custos descontrolados, queda de receita ou perda de competitividade. Além disso, costuma ocorrer em empresas que estão investindo pesado em crescimento.

Quando o LPA é bom?

Um LPA é considerado bom quando cresce de forma consistente ao longo do tempo e está alinhado com o desempenho das empresas concorrentes do setor. Também é positivo quando o LPA cresce mais rápido do que a própria receita, o que indica ganho de eficiência.

Qual o LPA ideal de uma ação?

Não existe um LPA “ideal” universal, pois cada setor tem padrões diferentes de lucro, margens e ciclos operacionais. O ideal é sempre comparar o LPA da empresa com seus pares e com seu próprio histórico.

Economista, especialista em valuation. Professor convidado do Coppead/UFRJ, FGV e Faculdade HUB. É sócio-fundador da ConfianceTec e da Escola de Finanças Aboim.
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