Eu, Felipe Arrais, sou um apaixonado por futebol, principalmente pelo Palmeiras, time que torço desde antes de me entender por gente.
A boa fase de meu time me dá oportunidade de observar comportamentos de amigos que torcem para rivais e tirar insights que podem ser associados com comportamentos em relação a investimentos. Afinal, comportamentos humanos se repetem mesmo com temas muito distintos como futebol e finanças.
Tenho um amigo torcedor de um time rival que, toda vez que assiste a uma partida do time do coração, desliga a televisão no segundo tempo quando percebe que o time está jogando mal e tem grandes chances de perder. A lógica dele é simples: “se eu não vejo, não sofro”.
Ele diz que é uma estratégia. Eu digo que é trauma acumulado – mas isso é papo para outro dia. O que ele não percebe é que, invariavelmente, o time pode virar o placar depois que ele apaga a tela e assim ele perderia a oportunidade de assistir a uma grande vitória. Diferentemente do meu Palmeiras, que ultimamente (e felizmente) tem me poupado desse sofrimento.
Guarde esse amigo na memória. Vou voltar a ela em breve.
Na última semana, o mundo acompanhou um dos eventos geopolíticos mais impactantes dos últimos anos: os Estados Unidos e Israel lançaram uma ofensiva militar conjunta contra o Irã, atingindo mais de mil alvos em diversas cidades. O Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo há mais de três décadas, foi morto. O Estreito de Ormuz (por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo) ficou paralisado para o tráfego comercial.
O barril de petróleo, que estava em torno de US$ 71 na sexta-feira anterior ao conflito, disparou. O ouro bateu recordes. Os mercados abriram a semana em queda.
Era hora de fazer alguma coisa. Pelo menos era o que o instinto de grande parte dos investidores gritava frente ao noticiário apocalíptico.
Só que aí veio a reviravolta, e ela não foi no campo de batalha, mas nas declarações de Trump. Sinalizações de que os EUA não têm interesse em um conflito prolongado, combinadas com conversas diplomáticas nos bastidores, foram suficientes para que o petróleo começasse a ceder boa parte da alta em poucos dias. Quem comprou petróleo no topo do medo, movido pelo noticiário, está agora olhando para uma posição no vermelho.
Em questão de dias, o petróleo sai de US$ 71 dólares o barril para quase US$ 100 dólares e, com uma leve sinalização de moderação no enfrentamento, voltaram a cair para algo próximo de US$ 87. Haja volatilidade!
Tendemos a supervalorizar grandes eventos enquanto eles ocorrem, mas a grande verdade é que há uma grande dificuldade em prever o que pode realmente acontecer – inclusive, considerar a possibilidade de que, em pouco tempo, os efeitos podem se dissipar.
Esse padrão não é novo. Na verdade, é tão previsível como o que concluiu o JPMorgan, que se deu ao trabalho de estudá-lo em detalhe.
Os analistas do banco vasculharam quase 90 anos de história (de 1940 até os dias de hoje) e catalogaram 36 grandes eventos geopolíticos, desde a invasão da França pela Alemanha em 1940, passando por Guerra da Coréia, crise dos mísseis cubanos até a guerra na Ucrânia em 2022. A conclusão foi quase monótona de tão consistente: na maioria das vezes, os efeitos nos mercados se dissipam rapidamente.
Três meses depois do choque, em média, quase não se sente mais o baque. Seis meses depois, os retornos eram praticamente idênticos aos de períodos sem conflito.
É como se o evento nunca tivesse acontecido.
Claro que nenhum estudo garante que desta vez será igual. Conflitos têm dinâmicas próprias, e um eventual bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz poderia mudar bastante o cenário. Mas, para o investidor ou a investidora que olha para o longo prazo, a história pede calma, não ação precipitada.
E é aqui que voltamos ao meu amigo que desliga a televisão.
O problema dele não é a falta de paciência. É a ilusão de que, ao agir, mesmo que a ação seja só desligar a TV, ele tem algum controle sobre o resultado da partida. Com os investimentos, o mecanismo é o mesmo. Quando o noticiário assusta, a tentação é fazer alguma coisa: vender, migrar para o dólar, comprar ouro. A ação traz um conforto imediato, uma sensação de que você está no comando.
Em minha última newsletter, falei exatamente sobre isso. A ilusão de controle que nos faz querer agir em momentos em que a inação poderia ser a escolha mais inteligente. Se você não leu, vale o resgate: a dor de perder dinheiro é psicologicamente tão intensa que nos empurra para decisões que, na maioria das vezes, nos fazem perder nas duas pontas, pois vendemos barato e compramos caro quando o mercado se recupera.
A volatilidade dos preços de petróleo nos últimos dias é um exemplo didático disso. A alta foi real, o medo era legítimo, mas a velocidade com que parte da alta foi corrigida “apenas” com algumas declarações nos lembra que precificar geopolítica é um exercício de futurologia com taxa de acerto muito baixa, mesmo para os melhores analistas do mundo.
Portanto, se você está ansioso ou ansiosa com o que está acontecendo no Oriente Médio, minha sugestão não é ignorar o conflito. É se fazer a pergunta certa: a sua carteira já estava posicionada para atravessar momentos assim? Se a resposta for sim, você provavelmente não precisa fazer nada agora. Se não, o problema não começou na semana passada e a solução também não passa por uma decisão tomada sob o calor do noticiário.
Uma carteira globalmente diversificada entre diferentes classes de ativos, geografias e moedas tem exatamente essa função: fazer com que nenhum evento isolado seja capaz de derrubá-la. Não porque os eventos não sejam sérios (esse claramente é), mas porque a diversificação não foi construída para um mundo sem guerras – foi construída para o mundo como ele é.
Desligue a televisão se precisar. Mas não mexa na carteira.
Um grande abraço,
Felipe Arrais