Já ouviu aquela frase “melhor um pássaro na mão, do que dois voando”?
Esse dizer popular aparece em muitos contextos como forma de preferir algo “garantido” no presente ao invés de lidar com a incerteza do futuro. Nas finanças, essa frase encontra aplicação imediata.
A Teoria da Preferência pelos Dividendos (Bird-in-the-Hand Theory) defende que os investidores preferem dividendos atuais a ganhos de capital futuros incertos. Muitos preferem um ativo que pague dividendos hoje a um que vise crescimento no futuro, mesmo que esse crescimento pudesse compensar financeiramente a ausência de renda no curto prazo.
No Brasil, país dos juros altos e com diversos incentivos oferecidos à pessoa física, a teoria pode até fazer sentido. Fundos imobiliários, ações e fundos de infraestrutura oferecem regularidade de dividendos com isenção de IR, e frequentemente conseguimos obter dividend yields elevados.
Quanto a isso, sem maiores problemas. Se existe uma forma eficiente de construir uma carteira voltada para geração de renda, podemos, sim, aproveitar essa oportunidade. Não à toa, temos aqui na Finclass uma carteira voltada exatamente para essa finalidade.
O problema aparece quando investidores acostumados com essas benesses tupiniquins tentam exportar o conceito que aplicam no Brasil para terras estrangeiras.
Nos Estados Unidos, as taxas de juros são estruturalmente mais baixas e, consequentemente, os níveis de dividend yield nominalmente menores do que conseguimos obter com certa facilidade por aqui. Além disso, em um mercado desenvolvido, não há tanta necessidade de oferecer isenções para atrair investidores.
Lá, todo dividendo de ação (incluindo ETFs) que pinga na conta é tributado em 30% direto na fonte pelo fisco norte-americano.
Resultado: uma carteira focada em dividendos acaba sendo ineficiente porque estamos tentando ampliar exatamente o fluxo de dinheiro que sofre a maior mordida tributária.
Para quem visa acumular patrimônio, uma abordagem mais interessante é o conceito de total return, que é o retorno total somando a valorização do ativo ao fluxo de dividendos recebidos. Para quem quer enriquecer, deveria importar mais o crescimento total do patrimônio do que o quanto pinga todo mês.
Você poderia questionar que tudo isso se aplica apenas para quem está em fase de acumulação. Mas e quem quer viver de renda?
Um bom ponto de partida é observar como as maiores gestoras norte-americanas lidam com esse tema. Casas como Vanguard e Fidelity publicam estudos detalhados sobre estratégias de retiradas programadas, e várias outras abordagens similares, como a de Guyton-Klinger (vale a pena pesquisar ou ler nosso relatório na Finclass), são frequentemente adotadas por consultorias e gestoras de fortunas.
A lógica é simples: o foco está em crescer o patrimônio com uma alocação adequada ao perfil do investidor. O dividendo, nesse modelo, é consequência, e não objetivo.
Para viver do patrimônio, a pessoa que investe faz resgates periódicos calculados de forma a não comprometer o potencial de crescimento futuro, evitando que o capital se esgote em vida. A estratégia de focar em dividendos pode até ser utilizada, mas, na prática, aparece principalmente como recurso comportamental para clientes que se sentem mais tranquilos vendo esse pinga-pinga caindo na conta, em referência ao nosso pássaro na mão mencionado no início do texto de hoje.
É como focar em crescer o bolo e retirar pedaços do tamanho da sua fome a cada ano.
Cada vez que você resgata parte do patrimônio, incide o imposto sobre ganhos de capital, que hoje está em 15% para investimentos no exterior – metade do custo do dividendo norte-americano. É uma abordagem mais eficiente e que frequentemente resulta em mais dinheiro no seu bolso.
Entendo que nós, brasileiros, acostumados com juros altos, nos tornamos mais avessos ao risco do que investidores estrangeiros. Muitos dizem preferir dividendos estáveis por serem conservadores. Porém, ser conservador, em finanças, significa conservar o patrimônio. Pagar o dobro de imposto quando existe uma alternativa legal e mais eficiente não é conservadorismo, é custo evitável.
Por isso, na próxima vez que pensar em coletar dividendos em dólar, lembre-se desta newsletter, e de que a Finclass está aqui para separar o joio do trigo e te mostrar os caminhos mais eficientes para construir patrimônio com segurança.
Um grande abraço e até mais,
Felipe Arrais