mar, 2026 Colunistas

As estratégias do Tesouro Nacional em tempos de volatilidade

Eduardo Perez

Se você acompanha o mercado, já percebeu: com a tensão no Irã piorando e o petróleo em alta, a curva de juros no Brasil sentiu a pancada.

E quando o petróleo sobe desse jeito, o mercado já começa a fazer conta de inflação mais alta nos próximos meses.

Resultado? As taxas das NTN-Bs de curto prazo abriram, chegando a IPCA+8% enquanto vencimentos mais longos na curva estavam em IPCA+7%.

Logo depois vieram as manchetes: suspensão temporária do Tesouro Direto, cancelamento de leilões e recompra bilionária de títulos pelo Tesouro Nacional:

Imagem: Google

E aí nasce a dúvida que vários assinantes da Finclass mandaram:

“O Tesouro está manipulando o mercado?”

“Os investidores estão sendo prejudicados?”

“O Tesouro está mal das pernas?”

Vamos por partes.

Como esse jogo funciona

O mercado de juros no Brasil gira em dois ambientes que andam grudados:

  • Títulos públicos: o Tesouro emite nos leilões e depois esses papéis são negociados no mercado secundário;
  • Juros futuros (DI): contratos da bolsa usados por fundos, bancos e empresas para proteção e posicionamento.

Esses dois mercados se conversam o tempo todo.

Então, quando o DI futuro estressa, os títulos públicos sentem. E quando os títulos mexem forte, o DI também responde.

Em dias mais tensos, a diferença entre taxa de compra e venda abre muito rápido.

Na prática, alguém poderia fechar um negócio em condição bem pior do que a de minutos antes.

É justamente esse tipo de “mercado desorganizado” que o Tesouro tenta evitar.

A diferença que importa: reduzir volatilidade x controlar taxa

Para o Tesouro, o problema a ser resolvido não é a direção dos juros, mas sim como eles mudaram tanto em tão pouco tempo.

O mercado não perdoa se achar que pode lucrar caso desconfie que se tratasse de controle artificial, seja de câmbio, juros ou qualquer ativo.

Um dos episódios mais emblemáticos de tentativa de controle artificial e que espero que demonstre que não é um cenário sustentável foi o ataque de George Soros contra o Bank of England em 1992, durante a Black Wednesday.

Na época, o banco central deles tentava segurar artificialmente a libra dentro de uma faixa cambial, mas o mercado enxergou que aquilo não era sustentável.

Soros, através do Quantum Fund, montou uma posição gigantesca vendida em libra esterlina.

Na prática, ele tomou libras emprestadas e vendeu no mercado, apostando que a moeda iria se desvalorizar. Quando o Banco da Inglaterra não conseguiu mais sustentar o câmbio e foi forçado a sair do mecanismo europeu, a libra despencou. Soros então recomprou as libras a um preço bem mais baixo para devolver o que havia tomado, embolsando a diferença.

O resultado foi um ganho estimado e amplamente divulgado em cerca de 1 bilhão de dólares.

A lição é direta: quando o mercado testa os limites de atuação de uma autoridade, não basta tentar “segurar preço”. É preciso garantir que o sistema continue funcionando — exatamente onde entra o papel do Tesouro hoje.

O Tesouro não entra para “decidir” para onde os juros vão. Ele entra para manter o mercado funcionando com liquidez e menos distorção de curtíssimo prazo.

E tem um detalhe importante: se o Tesouro tentasse manipular o direcionamento de mercado de forma artificial, assim como no exemplo do que o Bank of England fez com o câmbio em 1992, o efeito também seria exatamente o oposto do desejado.

O mercado não é bobo.

Se houver controle “na marra”, isso tende a aumentar a desconfiança e encarecer o sistema inteiro e as expectativas de médio e longo prazo acompanhariam essa piora.

Se fosse simples “canetar” a curva, especialmente a ponta longa, não teríamos visto juros reais longos tão altos em vários momentos.

Mas atualmente o médio e longo prazos continuam respondendo a fundamento: fiscal, inflação, BC, cenário global.

E como saber se o mercado está desconfiado em relação à atuação do Tesouro?Primeiro que as recompras foram, em sua maioria, de vencimentos mais curtos, justamente aqueles que permaneceram disfuncionais no curto prazo em decorrência da mudança repentina do preço do petróleo.

E segundo que as taxas das NTN-Bs de longo prazo subiram pouco e as projeções no Focus para Selic, IPCA e PIB para 2027, 2028, e 2029 permaneceram estáveis nas durante o mês de março mesmo em meio à loucura de desequilíbrio do preço do petróleo.

Imagem: Relatório Focus/BCB

Quais ferramentas o Tesouro usa quando o mercado se estressa?

  1. Cancelamento de leilões

Se o mercado está pedindo prêmio muito fora da curva em um dia de desorganização, o Tesouro pode cancelar o leilão.

Objetivo: não emitir dívida em condição ruim e encarecer o custo da dívida pública sem necessidade.

Isso é possível por conta do colchão de liquidez do Tesouro, que funciona como uma reserva de emergência.

  1. Recompra de títulos públicos

O Tesouro pode recomprar papéis para dar liquidez em determinados vencimentos e ajudar a suavizar movimentos muito bruscos.

Objetivo: melhorar o funcionamento do mercado secundário, principalmente quando tem muita gente vendendo mas pouco gente comprando. A recompra aumenta a demanda por títulos, ajudando a reduzir a alta das taxas e como consequência principal a queda da volatilidade.

  1. Suspensão temporária do Tesouro Direto

Em momentos de oscilação extrema, o Tesouro Direto pode ficar indisponível por alguns minutos.

Objetivo: evitar que o investidor pessoa física negocie em taxa distorcida no pico da turbulência.

  1. Gestão ativa do calendário e do mix de emissões

O Tesouro também ajusta volume, prazo e tipo de título ofertado ao longo do tempo.

Objetivo: distribuir melhor o risco de financiamento da dívida e evitar concentração justamente nos piores momentos.

E o investidor pessoa física nessa história?

Na maior parte dos casos, essas medidas ajudam mais do que atrapalham. Elas existem para reduzir ruído de mercado e preservar liquidez, não para criar uma “taxa artificial”.

A conclusão prática é simples: as manchetes de estresse não são sinais automáticos de problema estrutural, mas de volatilidade de curto prazo que faz parte do jogo.

Uma estratégia boa em renda fixa continua sendo casar prazo, objetivo e risco de marcação a mercado. É essencial entender como o mercado funciona quando o susto acontece.

Não há controle artificial, e sim redução de volatilidade.

Um abraço,

Eduardo Perez

Analista CNPI-P, com certificações CGA e CGE da Anbima, e especialista em renda fixa na Finclass. Formado em Economia e Gestão Financeira, tem passagens profissionais por Easynvest e Nubank, onde também contribuiu com recomendações e conteúdos para o portal InvestNews. Atuou ainda em mesa de operações de renda fixa.
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