fev, 2026 Colunistas

Um chamado à diversificação dos investimentos

Ricardo Figueiredo

Não sei se você sabe, mas semanalmente o time de analistas da Finclass se reúne todas as tardes de segundas-feiras para trocar informações e percepções sobre o cenário econômico, nacional e internacional.

Cada qual com sua expertise, a pluralidade de pontos de vista é extremamente rica e bem-vinda para sustentar as teses das recomendações de cada especialista.

Recentemente, as conversas têm tido um componente muito interessante.

Em se tratando de ativos locais, cada um de nós vê em sua área a atual precificação dos ativos em momento interessante para compra, mas com a observação de que 2026 reserva um nível de volatilidade que fatalmente oferecerá janelas ainda mais interessantes para os ativos da classe que cada um representa.

Pra começar, o Eduardo Perez, nosso especialista em renda fixa, vê oportunidades interessantes em ativos indexados à inflação, mas deixa bem claro que as atuais taxas dos títulos Tesouro IPCA+, que atualmente oferecem taxas acima de 7% ao ano, além da inflação, podem ver uma chacoalho de preço justamente pelo prazo mais dilatado de vencimento de tais títulos, a chamada duration.

O Evandro Medeiros, analista de ações locais, mostra toda semana teses que estão muito descontadas, mesmo com as recentes altas do Ibovespa que provocaram sucessivas máximas históricas.

São diversos os casos de empresas líderes em seus segmentos, com estrutura de dívidas completamente saudável, entregando os mais altos níveis de resultados enquanto suas ações ainda estão longe de precificar tais predicados.

De minha parte, venho reforçando constantemente que as cotas dos fundos imobiliários (e aqui falo daqueles lastreados em tijolos) estão precificando seus ativos em valores que, em diversos casos, são insuficientes para custear a construção daquele ativo – no jargão técnico do mercado, “as cotas estão negociando abaixo do custo de reposição.”

E aqui não falo de ativos antigos, em localizações secundárias e com locatários de maior risco de crédito. Pelo contrário, é possível ver essa situação em ótimos escritórios, em regiões de alta demanda, por conseguinte baixa vacância, e com locatários de primeira linha.

Já o Felipe Arrais, nosso analista de investimentos globais, jamais nos deixa esquecer a alocação que “salvou a lavoura” por longos anos: investimentos no exterior. Estes estão cada vez mais acessíveis a investidores comuns e com a capacidade de proteger parte de seu patrimônio quando as coisas por aqui não estão aquela maravilha.

Basta lembrarmos que em 2020 e 2021, anos de pandemia, o S&P 500, um dos principais índices de ações dos Estados Unidos, subiu respectivamente 16,3% e 26,9%. Ou seja, no acumulado desse biênio difícil, o índice avançou mais de 47%.

Rodrigo Xavier nos brinda sempre com a percepção dos muitos gestores de fundos que estão em seu universo de cobertura. A interface que temos com as mais diversas gestoras do país nos permite beber de múltiplas fontes de conhecimento e, assim, enriquecemos nossas próprias análises.

E o Thales Inada, especialista em criptoativos e investimentos alternativos da casa, nos joga luz sobre a por muitas vezes incompreendida classe de criptoativos, ainda mais nesse momento de forte queda do seu principal nome, o Bitcoin.

Nesse cenário de tantas oportunidades e incertezas quanto aos movimentos políticos e econômicos, seja no Brasil, seja no exterior, vejo alguns investidores e investidoras cometerem dois dos principais erros na construção de uma carteira de investimentos.

O primeiro é tentar acertar o exato momento de entrada ou saída de um ativo ou segmento – ainda mais nesta janela de iminente corte de juros por aqui.

Eduardo, na renda fixa, incansavelmente repete que não é sobre acertar o momento da melhor taxa para compra, é saber que esse nível de compra é excelente e que o poder da marcação a mercado que esperamos ver acontecer com mais intensidade adiante trará resultados robustos aos investidores da classe de ativos indexados à inflação.

Repito o mesmo para fundos imobiliários. Os preços atuais são atrativos, mas todo dia tem Bolsa e nenhum pregão é o último trem para Shangri-lá. A recorrência dos dividendos dos FIIs é parceira nessa cruzada. O rendimento mensal pode e deve ser utilizado para aproveitar momentos ainda melhores para montagem de carteira imobiliária com foco em geração de renda passiva.

Nem entrarei no mérito das ações, afinal, o sobe e desce diário da Bolsa já fala por si.

Tentar acertar o melhor momento é uma cruzada cercada de erros, estresse e desilusão. Olhemos para os grandes gestores e suas estratégias vencedoras ao longo dos anos, que ignoram completamente essa sanha pela entrada no menor preço e passa pela construção de uma estratégia resiliente ao longo dos diferentes cenários.

Aqui chegamos no segundo erro: a tentativa de acertar o ativo ou o segmento que vai se sair melhor e, por conta disso, a alocação excessiva, quando não exclusiva, nesse determinado ativo ou segmento da moda.

A elevação da taxa de juros reacendeu o instinto rentista do brasileiro, adormecido durante o breve momento de juros reduzidos que experimentamos recentemente. Adivinhe o que acontecerá quando as manchetes na mídia noticiarem o efetivo corte de juros?

E aí eu pergunto a você: as boas empresas, líderes em seus segmentos, com excelente lucratividade, do dia para a noite perderam todos os bons fundamentos porque a taxa Selic não saiu de 2% a.a. e foi parar em 15% a.a.? Se fosse assim, certamente até seus proprietários teriam corrido para a renda fixa.

O ponto que trago é que correr atrás do segmento da moda nos investimentos é completamente contraintuitivo em relação a toda teoria de finanças.

Torno a citar os grandes gestores do mercado: carteiras multidisciplinares caracterizam as estratégias vencedoras em sua maioria.

No fim das contas, quando faço minha reflexão sobre o que discutimos em nossa reunião diária, vejo que todos estão certos e aí entra a recomendação-mãe que tanto caracteriza a Finclass: diversifique seus investimentos. A máxima de não deixar todos os ovos na mesma cesta pode parecer batida, mas ainda é uma analogia poderosa e que representa o que acreditamos.

A concentração acompanhada da tentativa de acertar o melhor preço de entrada e saída de cada ativo só leva investidoras e investidores a custos operacionais exagerados, estresse por conta do nível de risco que usualmente tal estratégia possui, e frustração, porque geralmente os resultados passam longe de serem satisfatórios.

Não existe “a” classe de investimento. Não existe “esqueça isso ou aquilo, o negócio é investir tudo em FIIs ou ações, ou pior ainda somente na ação x.”

A visão de que o mercado financeiro é um grande cassino está intimamente ligada a esse tipo de estratégia, e eu não tenho o menor talento para crupiê.

No fim, o que todos os especialistas da casa indicam é que você construa um portfólio diversificado, exposto a bons ativos aqui e no exterior, com aportes recorrentes e horizonte no médio e longo prazos. Afinal, em meio à pluralidade das áreas e ideias expostas diariamente, esse pensamento é sem dúvida um consenso entre todos.

Um grande abraço,

Ricardo Figueiredo

Especialista em fundos imobiliários da Finclass e analista CNPI. É bacharel em Economia com especialização em Mercados Financeiros e MBA em Gestão Financeira e Atuarial. Já foi professor na área de tecnologia, mas migrou para mercado financeiro há quase 20 anos, atuando na análise e gestão de investimentos em imóveis e carteira de fundos imobiliários.
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