fev, 2026 Ativos internacionais

Terras raras: o que são, para que servem e como investir nelas

Thiago Koguchi

As terras raras se tornaram um dos temas mais discutidos na economia global e na geopolítica moderna. Embora o nome sugira escassez, esses elementos são fundamentais para a existência de quase toda a tecnologia que utilizamos hoje, desde o smartphone no seu bolso até as turbinas eólicas que geram energia limpa.

Neste artigo, exploraremos a fundo o universo das terras raras, entendendo sua definição, importância estratégica e o papel do Brasil nesse cenário competitivo.

O que são terras raras e para que servem

O termo terras raras se refere a um grupo de 17 elementos químicos metálicos que possuem propriedades físicas e químicas únicas. Ele é composto pelos 15 elementos da família dos lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Eles são conhecidos por sua excelente condutividade elétrica, propriedades magnéticas excepcionais e luminescência.

Na prática, as terras raras servem como “vitaminas” para a indústria moderna, pois são componentes essenciais para a transição energética e a revolução digital.

Veja como esses elementos são aplicados nos principais setores industriais:

Ímãs de alto desempenho e energia limpa

Essa é a aplicação mais crítica e de maior crescimento atualmente. Os elementos de terras raras (ETR) permitem a criação de ímãs permanentes extremamente potentes e compactos, essenciais para a transição energética:

  • Motores de veículos elétricos (EVs): ímãs de neodímio (Nd) e praseodímio (Pr) são o “coração” dos motores elétricos, permitindo que sejam leves e eficientes;
  • Turbinas eólicas: geradores eólicos de alta eficiência (offshore e onshore) utilizam toneladas de terras raras para converter vento em eletricidade sem a necessidade de caixas de engrenagens pesadas;
  • Estabilidade térmica: elementos como disprósio (Dy) e térbio (Tb) são adicionados aos ímãs para que eles suportem altas temperaturas sem perder a magnetização.

Eletrônica de consumo e telas

Se você está lendo isso em um smartphone ou computador, está utilizando terras raras. Elas são vitais para a miniaturização e a qualidade visual dos dispositivos:

  • Telas e displays: o európio (Eu), ítrio (Y) e térbio (Tb) são usados como fósforos para produzir as cores vermelha, verde e azul vibrantes em telas de LED, OLED e monitores;
  • Miniaturização: o neodímio permite a fabricação de alto-falantes minúsculos (como os do celular) e motores de vibração potentes;
  • Baterias: o lantânio (La) é um componente chave nas baterias recarregáveis de níquel-hidreto metálico (NiMH), ainda comuns em alguns veículos híbridos e equipamentos portáteis.

Indústria química e processamento

São aplicações menos visíveis nessas áreas, mas essenciais para a infraestrutura industrial básica:

  • Refino de petróleo: o lantânio (La) e o cério (Ce) são usados como catalisadores no processo de craqueamento fluido, que quebra o petróleo bruto em gasolina, diesel e outros combustíveis;
  • Polimento de precisão: óxidos de cério são o padrão industrial para polir vidros de alta precisão, lentes de câmeras, espelhos de telescópios e telas de smartphones;
  • Cerâmicas e vidros: adicionados para criar vidros especiais com alto índice de refração ou para colorir cerâmicas e vidros.

​Saúde e defesa

Especialmente em defesa, alguns elementos apresentam papel crucial para o desenvolvimento do setor:

  • Saúde: o túlio (Tm) e o gadolínio (Gd) são usados em equipamentos de raio-X e como agentes de contraste em exames de ressonância magnética;
  • Defesa: são cruciais para sistemas de orientação de mísseis, lasers, radares e comunicações via satélite devido à sua estabilidade e performance sob condições extremas.

Por que são chamadas de terras raras

A denominação terras raras é, na verdade, um equívoco histórico e econômico. Do ponto de vista geológico, muitos desses elementos são relativamente abundantes na crosta terrestre — o cério, por exemplo, é mais comum que o cobre. O nome surgiu no século XVIII, quando esses elementos foram isolados pela primeira vez a partir de minerais raros e oxidados (chamados na época de “terras”).

A verdadeira “raridade” das terras raras reside na dificuldade técnica e econômica de encontrá-las em concentrações puras. Diferentemente do ferro ou do ouro, que podem ser encontrados em veios concentrados, as terras raras costumam estar dispersas e misturadas a outros minerais. O processo de separação química é extremamente complexo, caro e exige tecnologia avançada, o que justifica o valor estratégico e o nome que perdura até hoje.

Quais são os elementos das terras raras

O grupo das terras raras é dividido em 17 elementos, cada um com aplicações específicas que movem diferentes setores da indústria:

Elemento Símbolo Aplicações principais
Lantânio La Lentes de câmeras, baterias de carros híbridos e refino de petróleo.
Cério Ce Catalisadores automotivos e polimento de vidros.
Praseodímio Pr Ímãs de alta resistência e coloração de vidros e cerâmicas.
Neodímio Nd Ímãs permanentes para motores elétricos e discos rígidos.
Promécio Pm Baterias nucleares e medidores de espessura (elemento radioativo).
Samário Sm Ímãs resistentes a altas temperaturas e tratamentos contra o câncer.
Európio Eu Fósforos para telas de TV e monitores (cor vermelha).
Gadolínio Gd Contrastes para ressonância magnética e reatores nucleares.
Térbio Tb Lâmpadas de baixo consumo e telas (cor verde).
Disprósio Dy Ímãs para veículos elétricos e barras de controle nuclear.
Hólmio Ho Lasers médicos e criação de campos magnéticos intensos.
Érbio Er Amplificadores de fibra óptica e lasers odontológicos.
Túlio Tm Máquinas de raio-X portáteis e lasers.
Itérbio Yb Relógios atômicos e lasers de alta potência.
Lutécio Lu Tomografia por emissão de pósitrons (PET scan).
Ítrio Y Supercondutores e telas de LED.
Escândio Sc Ligas de alumínio para a indústria aeroespacial e lâmpadas de alta intensidade.

Onde estão as maiores reservas de terras raras do mundo?

A distribuição das reservas de terras raras é um fator determinante para o equilíbrio de poder global. Embora muitos países possuam depósitos, a concentração em poucas nações cria uma dependência estratégica significativa.

China

A China detém as maiores reservas de terras raras do mundo, estimadas em cerca de 44 milhões de toneladas. Mais do que apenas possuir o minério, o país asiático domina quase 90% da capacidade global de refino e processamento. 

Essa hegemonia permite que a China utilize as terras raras como uma ferramenta de pressão geopolítica em disputas comerciais internacionais.

Brasil

O Brasil ocupa uma posição de destaque, possuindo a segunda maior reserva de terras raras do planeta, com aproximadamente 21 milhões de toneladas

Apesar do enorme potencial geológico, o país ainda está nos estágios iniciais de transformar essas reservas em produção comercial em larga escala, enfrentando desafios tecnológicos e de infraestrutura.

Índia

Com reservas estimadas em 6,9 milhões de toneladas, a Índia é um player relevante, especialmente devido aos seus depósitos de areias monazíticas ao longo da costa. 

O governo indiano tem buscado aumentar a exploração de terras raras para fortalecer sua própria indústria de tecnologia e reduzir a dependência externa.

Austrália

A Austrália possui cerca de 4,2 milhões de toneladas em reservas de terras raras. O país é um dos poucos produtores significativos fora da China, com operações avançadas que servem como uma alternativa vital para o mercado ocidental, especialmente através de empresas como a Lynas Rare Earths.

Onde estão as terras raras no Brasil?

As principais fontes de terras raras no Brasil estão localizadas em regiões com formações geológicas específicas, como complexos alcalinos e carbonatitos. Os elementos mais abundantes em solo brasileiro incluem o cério, o lantânio, o neodímio e o praseodímio.

As jazidas mais importantes encontram-se em:

  • Araxá (MG): onde as terras raras estão associadas às gigantescas reservas de nióbio;
  • Catalão e Ouvidor (GO): região rica em minerais estratégicos onde já ocorre a mineração de fosfato e nióbio;
  • Minaçu (GO): Sede do projeto Serra Verde, um dos mais avançados do país para a extração de terras raras de argilas iônicas.
  • Poços de Caldas (MG): Área com novos projetos promissores atraindo investimentos internacionais.
  • Pitinga (AM): Onde os elementos são encontrados associados à exploração de estanho.

Qual a importância das terras raras

A importância das terras raras transcende a simples fabricação de produtos; elas são o alicerce da economia verde e da soberania tecnológica. Sem esses minerais, a eficiência dos motores elétricos cairia drasticamente e a miniaturização de componentes eletrônicos seria limitada.

As terras raras também desempenham um papel estratégico tanto na questão econômica quanto na geopolítica atual. Entenda como isso funciona para algumas dessas partes:

As terras raras da China

Para a China, as terras raras representam uma vantagem competitiva absoluta. Além de possuir a maior reserva entre todos os países no mundo, o domínio da cadeia produtiva permite que o país controle preços e dite o ritmo do desenvolvimento tecnológico global. 

Além disso, as terras raras são fundamentais para o plano chinês de liderar o mercado mundial de veículos elétricos e energias renováveis.

A relevância para os Estados Unidos

Os Estados Unidos veem as terras raras como uma questão de segurança nacional. O país depende fortemente das importações chinesas para sua indústria de defesa (mísseis, radares e caças) e para o setor de tecnologia. 

Atualmente, os EUA correm contra o tempo para reativar sua produção doméstica e reduzir essa vulnerabilidade estratégica. Por isso, estão em busca de outros países que possam ser fornecedores, não somente para ter mais insumos para sua indústria, mas também como forma de diminuir a dependência em relação à China – o que, por tabela, enfraqueceria esse comércio para o lado chinês.

A importância das terras raras do Brasil

Para o Brasil, as terras raras representam uma oportunidade histórica de reindustrialização. O país pode deixar de ser apenas um exportador de commodities brutas para se tornar um fornecedor estratégico de minerais processados e de alto valor agregado. 

O principal desafio, no entanto, é dominar a tecnologia de separação química, que ainda é o gargalo para a plena exploração das terras raras brasileiras.

Qual o impacto ambiental na mineração das terras raras?

A exploração de terras raras apresenta desafios ambientais significativos. O processo de extração e, principalmente, o de separação química, envolvem o uso de ácidos fortes e solventes que podem contaminar o solo e a água se não forem geridos corretamente. Além disso, minerais de terras raras frequentemente ocorrem junto a elementos radioativos, como o tório e o urânio, exigindo um controle rigoroso dos rejeitos.

Para mitigar esses impactos, a indústria busca adotar práticas de mineração sustentável (ESG), investindo em tecnologias de circuito fechado para reciclagem de água e químicos. Outra frente importante é a “mineração urbana”, que consiste na reciclagem de terras raras a partir de eletrônicos descartados, reduzindo a necessidade de novas extrações.

Como investir em terras raras atualmente

O investimento em terras raras tem atraído interessados no crescimento da tecnologia e da energia limpa. No cenário global, as maiores empresas do ramo incluem a China Northern Rare Earth Group, a MP Materials (EUA) e a Lynas Rare Earths (Austrália).

No Brasil, o setor é composto majoritariamente por empresas de capital fechado ou listadas em bolsas estrangeiras. A CBMM é líder em nióbio e investe em tecnologias para terras raras. Já empresas como a Serra Verde e a Viridis Mining & Minerals (listada na Austrália) são destaques em projetos locais. 

Para o investidor comum, uma das formas mais acessíveis de obter exposição ao setor é através de ETFs internacionais, como o REMX (VanEck Rare Earth and Strategic Metals ETF), que reúne as principais mineradoras globais de metais estratégicos.

Importante: as empresas e os ativos aqui mencionados não representam recomendação de investimentos. É fundamental que você faça uma avaliação para entender se fazem sentido para o seu perfil de investidor e a sua estratégia.

Para concluir…

As terras raras deixaram de ser apenas curiosidades químicas para se tornarem o centro da disputa pelo futuro tecnológico e ambiental do planeta. Com suas propriedades insubstituíveis, esses elementos continuarão a ser o motor da inovação nas próximas décadas. 

Para o Brasil, o caminho está traçado: transformar suas vastas reservas de terras raras em uma cadeia produtiva sólida e sustentável, garantindo seu lugar como um protagonista indispensável na nova economia global.

Bacharel em Jornalismo e pós-graduado em Linguagem, Cultura e Mídia pela Unesp. É colaborador da Upside Newsletter e do Investimentos.com.br
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