fev, 2026 Colunistas

Crise em bancos: por que as agências de rating demoram para rebaixar uma nota?

Eduardo Perez

Mesmo quem não acompanha o mercado de renda fixa, já ouviu falar do caso Banco Master.

Comentários recorrentes de mercado, desconforto de alguns analistas, oportunidades para outros, taxas sempre acima da média… o sinal estava ali.

E aí surge a pergunta inevitável: por que as agências de rating demoraram tanto para rebaixar a nota do banco?

Antes de seguir, vale relembrar como funciona a escala de rating nacional de longo prazo utilizada por casas como Fitch Ratings, Moody’s e S&P Global Ratings:

AAA a BBB → Grau de Investimento

BB para baixo → Grau Especulativo

D → Default

Fontes: Moody’s, S&P e Fitch

Eu não sei para você, mas, para mim, sempre pareceu estranho não existir um “meio-termo” entre investimento e especulativo.

Imagine dormir com um CDB classificado como BBB (grau de investimento) e acordar com BB (grau especulativo).

Sim, existem os sinais “+” e “-”, que indicam perspectiva dentro da categoria. Um BBB- pode preparar o terreno para um BB+. Mesmo assim, o salto me parece impactante.

E o assunto desse nosso debate não é de hoje. Depois da crise do subprime em 2008 nos EUA, o papel das agências foi amplamente questionado.

Elas não criaram o problema do subprime sozinhas. No entanto, além de enfeitar algumas notas além do aceitável, demoraram a reconhecer o risco estrutural que estava sendo montado.

E existe um ponto estrutural importante: o modelo é “issuer pays”. Quem paga pela avaliação é o próprio emissor avaliado, e podemos imaginar que tipo de pressão por notas podem surgir desse modelo.

Isso não significa fraude automática, porém, existe um incentivo para postergar decisões duras.

A linha do tempo do Master

Agora, olhe a sequência dos eventos:

  • 13/10/2023: a Fitch Ratings elevou a nota nacional de BBB- para BBB;
  • 03/10/2024: nova elevação, agora para A-;
  • 28/03/2025: BRB anuncia compra de parte do Master;
  • 04/04/2025: rating colocado em observação após anúncio de venda parcial ao BRB – Banco de Brasília;
  • 10/10/2025: rebaixamento de B+ para B- após veto do Banco Central do Brasil à operação;
  • 14/10/2025: novo corte para CC;
  • 18/11/2025: o Banco Central decreta liquidação extrajudicial;
  • 19/11/2025: rating cortado para D e encerramento de cobertura.

Agora, volte alguns anos. Muito antes da elevação para A- em 2024, já havia discussões recorrentes no mercado sobre o tamanho da bomba que o Banco Máxima, antigo nome do Master, seria se explodisse.

Então, por que a nota subiu antes de despencar?

O primeiro motivo é que o Master maquiava as operações, dando um ar de conservadorismo, liquidez e rentabilidade – tudo isso apenas no papel. E era isso que as agências usavam como insumo.

Porém, falando de estresse de mercado, o ponto que muita gente ignora é que um banco precisa captar recursos todos os dias.  E todos os dias ele compete com outros bancos e seus próprios CDBs no mercado secundário.

Se um banco A paga 10% em um CDB para 1 ano enquanto o banco B, comparável com o primeiro, paga 11%, a manada de investidores e seu fluxo de aplicações naturalmente vai para o segundo.

Agora, imagine que, no mercado secundário, os CDBs do banco A começam a negociar a 15%.

O que isso significa? Simples: que o mercado está exigindo prêmio maior para carregar aquele risco.

E note: nada mudou no balanço ainda. O que mudou foi a percepção: as taxas no mercado secundário são o verdadeiro termômetro de risco. Se elas sobem demais, o mercado está dizendo que enxerga mais risco.

E é nesse ponto que começa o espiral da baixa liquidez. O baixo fluxo força o banco a subir suas taxas, o mercado entende como maior desespero e acaba negociando esses CDBs a taxas ainda mais altas.

Por que o rating demora a acompanhar isso?

Porque a agência não pode rebaixar banco com base em “conversas de mercado”. Ela precisa de fatores sólidos para isso:

  • Evento material;
  • Mudança contábil relevante;
  • Deterioração objetiva de indicadores.

É aquela história: o mercado reage à desconfiança; a agência reage ao fato consumado.

Essa é a diferença estrutural. Modelos de rating são baseados em dados formais, demonstrações financeiras, indicadores de capital e liquidez reportados. Mas sentimento de mercado e dinâmica de funding se movem muito mais rapidamente.

Quando a liquidez começa a secar, o movimento é exponencial.

E banco não quebra por prejuízo contábil. Banco quebra por falta de liquidez.

Isso torna rating inútil? Não necessariamente.

Ignorar rating é imprudente. Mas confiar só nele é ingenuidade.

O rating é fotografia e o mercado secundário é termômetro.

Liquidez é o que mata banco.

Quem olha apenas para a letra da nota está vendo uma parte do filme que todo mundo já assistiu.

A saga continua: Digimais

Saindo do Master, o próximo nome sob pressão no mercado é o Banco Digimais.

CDBs sendo negociados próximo de 130% do CDI no secundário não são detalhe.

Isso indica que o mercado já exige mais retorno que compense carregar o risco.

Há notícias envolvendo disputa judicial relevante com ex-sócio envolvendo valores aproximados de R$ 500 milhões e questionamentos sobre operações com fundos ligados ao banco.

Estou afirmando que haverá intervenção?

De forma alguma podemos bater o martelo, até porque o papel do acionista é ajudar a reestruturar o banco em casos assim.

Mas o efeito de profecia autorrealizável existe e, se investidores param de aplicar, a liquidez encolhe.

Se a liquidez encolhe demais, o Banco Central pode intervir. E o mercado não espera isso acontecer para começar a se mexer.

Moral da história

Se a nota atribuída é fotografia e mercado secundário é termômetro, então ignorar o rating é imprudente – mas confiar exclusivamente nele é maluquice.

E quem acompanha as taxas no secundário geralmente enxerga o risco antes da manchete.

Um grande abraço,

Eduardo Perez

Analista CNPI-P, com certificações CGA e CGE da Anbima, e especialista em renda fixa na Finclass. Formado em Economia e Gestão Financeira, tem passagens profissionais por Easynvest e Nubank, onde também contribuiu com recomendações e conteúdos para o portal InvestNews. Atuou ainda em mesa de operações de renda fixa.
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