Mesmo quem não acompanha o mercado de renda fixa, já ouviu falar do caso Banco Master.
Comentários recorrentes de mercado, desconforto de alguns analistas, oportunidades para outros, taxas sempre acima da média… o sinal estava ali.
E aí surge a pergunta inevitável: por que as agências de rating demoraram tanto para rebaixar a nota do banco?
Antes de seguir, vale relembrar como funciona a escala de rating nacional de longo prazo utilizada por casas como Fitch Ratings, Moody’s e S&P Global Ratings:
AAA a BBB → Grau de Investimento
BB para baixo → Grau Especulativo
D → Default

Fontes: Moody’s, S&P e Fitch
Eu não sei para você, mas, para mim, sempre pareceu estranho não existir um “meio-termo” entre investimento e especulativo.
Imagine dormir com um CDB classificado como BBB (grau de investimento) e acordar com BB (grau especulativo).
Sim, existem os sinais “+” e “-”, que indicam perspectiva dentro da categoria. Um BBB- pode preparar o terreno para um BB+. Mesmo assim, o salto me parece impactante.
E o assunto desse nosso debate não é de hoje. Depois da crise do subprime em 2008 nos EUA, o papel das agências foi amplamente questionado.
Elas não criaram o problema do subprime sozinhas. No entanto, além de enfeitar algumas notas além do aceitável, demoraram a reconhecer o risco estrutural que estava sendo montado.
E existe um ponto estrutural importante: o modelo é “issuer pays”. Quem paga pela avaliação é o próprio emissor avaliado, e podemos imaginar que tipo de pressão por notas podem surgir desse modelo.
Isso não significa fraude automática, porém, existe um incentivo para postergar decisões duras.
A linha do tempo do Master
Agora, olhe a sequência dos eventos:
- 13/10/2023: a Fitch Ratings elevou a nota nacional de BBB- para BBB;
- 03/10/2024: nova elevação, agora para A-;
- 28/03/2025: BRB anuncia compra de parte do Master;
- 04/04/2025: rating colocado em observação após anúncio de venda parcial ao BRB – Banco de Brasília;
- 10/10/2025: rebaixamento de B+ para B- após veto do Banco Central do Brasil à operação;
- 14/10/2025: novo corte para CC;
- 18/11/2025: o Banco Central decreta liquidação extrajudicial;
- 19/11/2025: rating cortado para D e encerramento de cobertura.
Agora, volte alguns anos. Muito antes da elevação para A- em 2024, já havia discussões recorrentes no mercado sobre o tamanho da bomba que o Banco Máxima, antigo nome do Master, seria se explodisse.
Então, por que a nota subiu antes de despencar?
O primeiro motivo é que o Master maquiava as operações, dando um ar de conservadorismo, liquidez e rentabilidade – tudo isso apenas no papel. E era isso que as agências usavam como insumo.
Porém, falando de estresse de mercado, o ponto que muita gente ignora é que um banco precisa captar recursos todos os dias. E todos os dias ele compete com outros bancos e seus próprios CDBs no mercado secundário.
Se um banco A paga 10% em um CDB para 1 ano enquanto o banco B, comparável com o primeiro, paga 11%, a manada de investidores e seu fluxo de aplicações naturalmente vai para o segundo.
Agora, imagine que, no mercado secundário, os CDBs do banco A começam a negociar a 15%.
O que isso significa? Simples: que o mercado está exigindo prêmio maior para carregar aquele risco.
E note: nada mudou no balanço ainda. O que mudou foi a percepção: as taxas no mercado secundário são o verdadeiro termômetro de risco. Se elas sobem demais, o mercado está dizendo que enxerga mais risco.
E é nesse ponto que começa o espiral da baixa liquidez. O baixo fluxo força o banco a subir suas taxas, o mercado entende como maior desespero e acaba negociando esses CDBs a taxas ainda mais altas.
Por que o rating demora a acompanhar isso?
Porque a agência não pode rebaixar banco com base em “conversas de mercado”. Ela precisa de fatores sólidos para isso:
- Evento material;
- Mudança contábil relevante;
- Deterioração objetiva de indicadores.
É aquela história: o mercado reage à desconfiança; a agência reage ao fato consumado.
Essa é a diferença estrutural. Modelos de rating são baseados em dados formais, demonstrações financeiras, indicadores de capital e liquidez reportados. Mas sentimento de mercado e dinâmica de funding se movem muito mais rapidamente.
Quando a liquidez começa a secar, o movimento é exponencial.
E banco não quebra por prejuízo contábil. Banco quebra por falta de liquidez.
Isso torna rating inútil? Não necessariamente.
Ignorar rating é imprudente. Mas confiar só nele é ingenuidade.
O rating é fotografia e o mercado secundário é termômetro.
Liquidez é o que mata banco.
Quem olha apenas para a letra da nota está vendo uma parte do filme que todo mundo já assistiu.
A saga continua: Digimais
Saindo do Master, o próximo nome sob pressão no mercado é o Banco Digimais.
CDBs sendo negociados próximo de 130% do CDI no secundário não são detalhe.
Isso indica que o mercado já exige mais retorno que compense carregar o risco.
Há notícias envolvendo disputa judicial relevante com ex-sócio envolvendo valores aproximados de R$ 500 milhões e questionamentos sobre operações com fundos ligados ao banco.
Estou afirmando que haverá intervenção?
De forma alguma podemos bater o martelo, até porque o papel do acionista é ajudar a reestruturar o banco em casos assim.
Mas o efeito de profecia autorrealizável existe e, se investidores param de aplicar, a liquidez encolhe.
Se a liquidez encolhe demais, o Banco Central pode intervir. E o mercado não espera isso acontecer para começar a se mexer.
Moral da história
Se a nota atribuída é fotografia e mercado secundário é termômetro, então ignorar o rating é imprudente – mas confiar exclusivamente nele é maluquice.
E quem acompanha as taxas no secundário geralmente enxerga o risco antes da manchete.
Um grande abraço,
Eduardo Perez